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Clipping

27/01/2013 às 06:54

A tela é o limite

Escrito por: ERIKA MOURÃOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Fonte: Folha de São Paulo

Cresce número de alunos que optam por cursos de pós a distância; oferta de aulas gratuitas também avança  

Mobilidade para acessar conteúdos on-line de acordo com a disponibilidade de tempo de cada um e a um custo menor. São essas as características mais marcantes da história recente da educação a distância no país e as razões que mais têm atraído alunos para a modalidade de ensino.

O número de matriculados nos cursos a distância no Brasil cresceu 58% em 2011 ante 2010. Foram 3,6 milhões de estudantes na comparação com os 2,261 milhões de alunos de 2010, segundo a Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância).

Cresce também a oferta de cursos gratuitos ou em que estudantes podem acessar material produzido por professores estrangeiros que lecionam um escolas de elite.

Entre esses sites está o Coursera, lançado no ano passado por professores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, que oferece aulas de 33 universidades renomadas.

O endereço eletrônico já passou a marca de 2 milhões de matriculados no mundo (leia mais na página 37).

Iniciativas assim têm colaborado para a disseminação de conteúdo on-line. Até dezembro, por meio de provas e atividades que comprovassem o aprendizado, o aluno recebia do Coursera um certificado atestando a participação nas aulas.

A partir deste ano, o portal criou o "Signature Track", um serviço que permitirá a obtenção de um certificado oficial das universidades parceiras. Os alunos que optarem pela assinatura terão um custo de US$ 30 (R$ 61,20) a cerca de US$ 100 (R$ 204). No momento, esse certificado está disponível em apenas cinco dos cursos oferecidos.

No Brasil, a Universidade de São Paulo lançou em maio de 2012 o e-aulas USP, portal com mais de 800 videoaulas, inspirado em sites semelhantes de instituições internacionais, como MIT (Massachusetts Institute of Technology), Harvard e Princeton.

Na Unicamp, o projeto Aulas Magistrais, da Pró-Reitoria de Graduação, também oferece conteúdo on-line gratuito à comunidade.

Os números do ensino a distância mostram que os cursos livres, de atualização ou aperfeiçoamento, dispensados de autorização do Ministério da Educação para funcionar, são a maioria no setor (56%).

Já entre os 3.971 cursos autorizados pelo MEC, a maior parte dos matriculados está na graduação (75%). A pós-graduação responde por 17,5% dos estudantes -em cursos de especialização, mestrados e MBAs (Master of Business Administration, na sigla em inglês).

Nos últimos anos, houve um aumento de 56% no número de alunos matriculados nos cursos "lato sensu" da PUC-MG. "Os preferidos são os da área de direito, gestão e informática", diz o diretor de ensino a distância Marcos André Silveira Kutova.

Já o Senac registrou uma alta de 40% na procura por cursos de pós-graduação a distância entre 2010 e 2012. Os cursos mais procurados são o de docência no ensino superior, gestão empreendedora e design instrucional.

Na Fundação Getulio Vargas, a procura por MBAs subiu 12% em 2012, com mais de mil alunos somente na modalidade a distância.

"Dentre os MBAs com ênfase em áreas específicas, o que mais tem crescido é o de gestão em projetos", revela o diretor-executivo da FGV Online, Stavros Xanthopoylos.

Segundo o diretor, a FGV estuda lançar nos próximos meses um MBA aberto, gratuito, mas com o sistema de certificados pagos, semelhante ao usado pelo Coursera. "O aluno poderá pagar para fazer as provas, acumular disciplinas e receber orientação para o trabalho de conclusão de curso e obtenção do diploma com um gasto menor", explica.

O custo é outro item apontado como vantajoso pelos adeptos da pós-graduação a distância. Embora na FGV um MBA de Gestão Empresarial atinja um preço total de até R$ 20 mil, em algumas instituições o valor chega a ser em média 60% inferior ao dos cursos presenciais.

A arquiteta Joice Berth, 36, conta que o preço foi um dos fatores que a levaram a escolher um curso a distância em direito urbanístico na PUC -MG. "O curso como eu queria não existe em São Paulo e, mesmo que existisse, não teria tempo de frequentar. Também achei o valor mais em conta do que uma pós tradicional, considerando que os professores são bem conceituados", explica a arquiteta, que pagou cerca de R$ 8.000 pela pós-graduação.

Um desafio dos cursos a distância é vencer o preconceito do mercado.

A gerente-executiva da consultoria Page Personnel, especialista em recrutamento de profissionais, Fabrícia Antunes, defende que o curso a distância na pós-graduação seja feito quando há justificativa para que as aulas não sejam presenciais.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando o curso não é ofertado em várias cidades.

Já a coordenadora da pós-graduação do campus virtual do Centro Universitário Senac, Zilma Maria Cavalheiro de Carvalho, argumenta que a qualidade dos cursos a distância está no mesmo nível dos programas presenciais.

"O nível de dedicação exigido faz com que o aluno desenvolva ou aprimore características procuradas no mercado de trabalho, como autonomia, iniciativa, foco nos objetivos propostos, entre outras características."

Para o gerente da divisão de finanças e contabilidade da consultoria de recursos humanos Robert Half, Danilo Haya Kawa, ainda levará tempo para que os cursos online alcancem o mesmo patamar de credibilidade dos tradicionais. "Houve uma evolução, mas ainda demora para haver reconhecimento. A troca de experiência dentro da sala de aula não é possível substituir. Essa é a perda."

PLATAFORMAS

Nas instituições, para ter acesso ao conteúdo dos cursos a distância o aluno deve acessar um ambiente virtual de aprendizagem. Essas plataformas têm recursos diversos: concentram boa parte do conteúdo e contam com ferramentas como fóruns de discussão, wikis (para trabalhos em grupo), salas de bate-papo mediadas e avaliações, conforme explica Daniela Lopes, gerente de soluções da Pearson no Brasil, instituição especializada em educação.

No Brasil, com o avanço tecnológico e o acesso à banda larga, evoluíram também as funcionalidades das plataformas de ensino.

"Antigamente, a interação ocorria por meio do material didático. Com o tempo, evoluímos para a troca de dúvida. Atualmente, temos plataformas que suportam transmissão de vídeos, podcasts e até aulas ao vivo", diz o coordenador acadêmico do Ibmec On-line, Vladimir Gonçalves.

Outro recurso bastante utilizado, segundo a gerente da Pearson, são as bibliotecas virtuais, que disponibilizam um acervo de livros em formato digital. "A prática nos laboratórios também pode ser aplicada pelos alunos por meio de laboratórios virtuais", destaca Lopes.

O ensino a distância não é recomendado para todos os tipos de profissionais, ressalta o presidente da Abed, Fredric Michael Litto.

"A modalidade de ensino não serve para quem precisa de atendimento direto, elogios ou cobranças do professor. É para quem está motivado, tem autonomia e autodisciplina", aponta Litto.

A gerente de projetos Marcela Navarro Correa, 33, concorda com a avaliação.

"O curso depende muito da sua dedicação", afirma ela, que, por conta dos horários imprevisíveis no trabalho, escolheu o MBA Executivo Internacional em Gerenciamento de Projetos a distância da Fundação Getulio Vargas.

O curso escolhido por ela, que custa cerca de R$ 25 mil, tem parceria com a Universidade da Califórnia em Irvine (Estados Unidos).