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Clipping

29/03/2006 às 08:30

Ainda Primeira Leitura e Nossa Caixa

Escrito por: Reinaldo Azevedo
Fonte: Primeira Leitura

Antes que entre no que quero propriamente escrever (deve ficar para outro artigo), destaco o parágrafo final de um texto da Folha desta terça que trata de suposto esquema da Nossa Caixa que teria beneficiado veículos de comunicação ligados a deputados estaduais da base de apoio do governador Geraldo Alckmin. Está escrito assim: “ O esquema beneficiou os deputados Wagner Salustiano (PSDB), Geraldo ‘Bispo Gê’ Tenuta (PTB), Afanasio Jazadji (PFL), Vaz de Lima (PSDB) e Edson Ferrarini (PTB), a Rede Vida, a Rede Aleluia de Rádio e a revista ‘Primeira Leitura’, criada pelo ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros (governo FHC), da qual se afastou em setembrode 2004 .”

Pronto. Primeira Leitura passou a ser beneficiária de um “esquema”. O dito-cujo seria operado por deputados estaduais. Este site e sua revista não conhecem um só membro da Assembléia Legislativa. É um erro. De fato, até hoje, só troquei e-mails com um deles: o tucano Pedro Tobias. Eu o critiquei com azedume, ele me esculhambou, e eu respondi. Só isso. Podem procurar a querela no site.

Ocorre que era preciso meter Primeira Leitura no rolo. Talvez desse sustança ao guisado. Fez-se, então, num dos textos de domingo a seguinte cadeia verossimilhantee falsa: “ A cúpula palaciana (...) autorizou a veiculação de anúncios mensais na revista ‘Primeira Leitura’, publicação criada por Luiz Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso. Ele é cotado para assessorar Alckmin na área econômica.Recentemente, a Quest Investimentos, empresa de Mendonça de Barros, foi escolhida para gerir um novo fundo da Nossa Caixa. ” Entenderam? Como não podemos ser metidos no balaio dos deputados estaduais, apelou-se a outros supostos vínculos. E, de quebra, pôs-se sob suspeição tanto a publicação como o ex-ministro. A revista foi criada por Mendonça de Barros, que, dizem, é cotado para assessorar Alckmin. Furo n’água. Cúpula palaciana? Conheço Roger Ferreira dos tempos em que ele era repórter. Acho que foi na Folha que nos cruzamos. Com o governador, estive uma única vez: num jantar, um evento social, em que ambos éramos convidados. Com a gentileza característica, ele demonstrou por que achava que eu estava equivocado em minhas análises, tanto em Primeira Leitura como nos textos que escrevo em O Globo . A conversa à mesa tinha testemunhas! O pretenso “chefe” da “cúpula palaciana” sempre soube que eu defendia o nome de José Serra como candidato do PSDB à Presidência.

Mendonça criou, sim, a revista, o que nos honra, mas não é mais dono da publicação deste setembro de 2004. Os anúncios da Nossa Caixa são posteriores à sua saída. A publicação não é uma cabeça-de-porco para servir a este ou àquele político. O site diário, que também veiculava os anúncios, está entre os três mais visitados do país em sua área. A depender do mês, fica em primeiro. Por que não podemos ter um anúncio da Nossa Caixa? Temos leitores, aos milhares, para isso. E temos qualidade. Topo a comparação com qualquer revista ou jornal.

Pois bem: a Folha leu a resposta aqui. Sabe que é verdade. Sabe que Mendonça não tinha mais nenhum vínculo com a revista. Sabe que, inclusive, a assessoria informal que prestou ao governador é posterior ao fim da veiculação dos tais anúncios. Mais ainda: sabe que, com efeito, o ex-ministro apoiou a candidatura de Alckmin, mas Primeira Leitura, desde sempre, a de Serra. É mentira que fomos beneficiados por um “esquema”. Por que Alckmin “molharia” a nossa mão? Será que era tudo um disfarce? Quem é assinante da revista sabe que, em seus anos de existência, deve haver uma ou duas reportagens relacionadas ao governo de São Paulo. Não mais do que isso. Que diabo de “esquema” é este em que a gente leva a grana, e o governador, em troca, leva a nossa defesa da candidatura deum adversário? Aí a Folha decidiu ser um pouco mais precisa. Pois bem: qual é a “generosa” concessão que o jornal nos faz? “Informa”, de novo, nesta terça, que a revista foi criada por Mendonça de Barros (e daí? O que isso tem a ver com o caso?) e que ele dela se “afastou” em setembro de 2004. Qual a importância dessa informação se não se diz que os anúncios veiculados são posteriores à sua saída (e não afastamento)? Parece ser uma concessão à verdade, mas se trata apenas de reiterar a acusação sem fundamento.

Há mais: o verbo “afastar” pode dar a entender que permanece algum vínculo, o que é mentira. Existem, sim, os da amizade. Nada mais. Se Alckmin se tornar presidente, Mendonça poder ser seu assessor? Tomara que sim. Torcerei para isso. Para o bem do Brasil. Mas tal possibilidade só reforça a mentira original: Alckmin não comprou o nossoapoio. Se tivesse pagado por ele, não teria levado a mercadoria. No tempo em que duraram os anúncios da Nossa Caixa, nunca recebemos nenhum tipo de pressão, sugestão ou coisa parecida para apoiar o pleito do governador ou falar bem de sua gestão. Ao contrário: até me penitencio de ter sido excessivamente duro com ele às vezes.

E reitero: agora, sim! Agora eu torço pela vitória de Alckmin. Votar contra Lula, para mim, é uma questão de resistência. Voto em Alckmin contra a ditadura. Voto em Alckmin em defesa dos direitos individuais. Primeira Leitura, seus leitores e ogovernador sabem que é um apoio absolutamente coerente com a nossa linha editorial. O que não quer dizer que não possamos censurar, quando acharmos conveniente, esta ou aquela opção que ele fizer.

Sugiro aos leitores que procurem saber, se conseguirem, qual é a percentagem da publicidade da Nossa Caixa que teria favorecido o tal “esquema”. É ínfima. A impressão que se tem, às vezes, é que o banco nada mais fez do que financiar os amigos dos deputados. Pouco importa: que tudo seja apurado. Também é falsa a informação de que Alckmin decidiu não investigar nada. A sindicância foi feita pela própria Nossa Caixa, e os resultados, remetidos ao Ministério Público.

Reitero: a) Mendonça de Barros não se “afastou” de Primeira Leitura. Desligou-se dela; b) Os anúncios da Nossa Caixa foram veiculados depois da sua saída. Não sei por que a Folha não informa tal fato. Nem ele, pois, foi beneficiado pela publicidade nem a revista se beneficiou de sua antiga e extinta condição; c) A Folha diz que ele é cotado para assessorar Alckmin se este se eleger presidente. Tomara e tomara. Conversou sobre economia com o governador nos meses que antecederam a escolha do candidato do PSDB; d) Neste mesmo período, Primeira Leitura apoiava a candidatura de José Serra; e) Só eu assinei nada menos de 40 (!!!) artigos a respeito.