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Clipping

23/04/2013 às 09:15

Além do entretenimento

Escrito por: Shirley Pacelli
Fonte: Correio Braziliense

Festival Internacional de Linguagem Eletrônica esquenta debate sobre conceito de game-arte. Até o fim deste mês, exposição gratuita reúne dezenas de instalações interativas no Rio de Janeiro  

Quem diria, aquela famosa boquinha amarela em 8 bits — que come pastilhas em um labirinto enquanto foge de fantasmas — alcançou, guardadas as devidas proporções, o mesmo nível artístico de obras de pintores consagrados, como Vincent van Gogh, Pablo Picasso e Salvador Dalí. O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) incluiu, no mês passado, videogames na coleção permanente da sua área de design. Além de Pac-man, Tetris e The sims, outros 11 títulos passaram a fazer parte do acervo. No mesmo período, o game Journey conquistou a maioria dos prêmios da categoria de jogos na British Academy of Film and Television Arts (Bafta), instituição britânica responsável pela premiação anual de trabalhos considerados de excelência em mídias audiovisuais.

O que há de mais nessa escolha? Afinal, em Journey não há tiros, sangue, vilões ou mocinho no game e sim um peregrino em busca de uma montanha luminosa no meio de um deserto — uma experiência estética para além do entretenimento. Algo de novo está acontecendo nos games: a preocupação com design, narrativa poética e mensagem transformando alguns títulos em obras de arte, nada menos que isso. Mostrar essa mudança é objetivo da terceira edição do Festival de Linguagem Eletrônica (File- Games), no Centro Cultural Oi Futuro, no Rio de Janeiro (RJ). A exposição, que fica aberta até o dia 28, traz jogos voltados à experiência do usuário e à estética.

Segundo Alberto Saraiva, curador de arte e tecnologia do Oi Futuro, os artistas selecionados criaram outros parâmetros para esses produtos — há questionamentos e apropriações de outras plataformas, como tablets, smartphones, projetores e sistemas de presença nas criações. “Arte é um sistema de reflexão sobre o mundo. Existe o que é só game e o que é game-arte”, destaca. A fronteira entre os dois tipos ainda está sendo discutida.

Nesse contexto, a exposição traz Starry night, de Petros Vrellis. A animação interativa baseada na obra-prima Noite estrelada, de Vincent van Gogh, brinca com a fluidez da tela. Com os dedos, o visitante pode comandar o sentido do movimento dos fluxos de cores no display do iPad. Já Xilo, premiado jogo paraibano, mostra a saga de um sertanejo nordestino com a estética da xilogravura e trilha de forró. E em De novo, Ercília, música é criada a partir da interação corporal do gamer com uma teia de elásticos.

Vale-cultura
Enquanto isso, os ânimos de agentes culturais se elevam diante da recusa da ministra da Cultura, Marta Suplicy, em incluir os jogos no vale-cultura, benefício complementar ao salário para utilizar com gastos de entretenimento. “Marta foi mal assessorada. Sua posição é totalmente descabida. O game, além de cultural, é educativo. Você pode exercitar a sua atenção e capacidade de resolver problemas jogando”, afirma Paula Perissinotto, uma das organizadoras do File. Em breve, a Associação Comercial, Industrial e Cultura de Games (Acigames) terá uma audiência com a ministra sobre o assunto.

“Estou como uma criança”, foi como resumiu Mariana Pelegrini, de 27 anos, sobre a experiência entre os corredores da exposição do centro cultural. Um joguinho romântico, cujo objetivo era fazer com que o casal de personagens se encontrasse, foi eleito o mais interessante por ela. “Ele é simples, de estratégia. Metaforicamente fala de relacionamento”, conta. Pelegrini se entretinha na instalação Efecto mariposa com a amiga pesquisadora Alessandra Maia, 28. A obra simula um ecossistema na superfície de um cenário de cinzas vulcânicas em tempo real. O público modifica com suas próprias mãos a “topologia” e a “atmosfera” desse mundo virtual, desencadeando mudanças climáticas e topográficas que influenciam diretamente as condições de vida.

Maia, gamer assumida, conta que tem três consoles: PS3, Xbox 360 com Kinect e o Nintendo Wii. Ela faz estudos sobre o universo dos jogos e realizou variadas experiências — da observação de expressões das pessoas diante de games de terror às habilidades cognitivas necessárias para jogar em rede. “Os games abrangem mais que diversão: são educação, arte. Os títulos trazem uma riqueza enorme, com complexidade visual, sonora e interativa”, diz.

A jornalista viajou a convite da Oi


Destaques do File Games 2013

Journey
Em Journey, o jogador é uma figura que acorda no meio de um deserto sem ninguém à vista. Conforme avança, ele descobre os poderes de gritar e planar, fundamentais para progredir e alcançar o objetivo: chegar a uma montanha distante e iluminada. Foi um dos principais vencedores do British Academy of Film and Television Arts (Bafta), recebendo os prêmios de música original, melhor design, realização artística, realização sonora e multiplayer on-line.

Starry Night
Animação interativa baseada na obra-prima de Van Gogh, Noite estrelada. A paisagem pintada por Van Gogh ganha movimento em uma animação em que os elementos da tela podem ser mudados quando é tocada pelo espectador.

De novo, Ercília
É uma instalação sonora interativa em que o visitante experimenta novos padrões sonoros e formas de percepção corporal por meio da interação com elásticos. É inspirada no livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, onde ele menciona Ercília, uma cidade onde se estendem fios para designar as relações entre as pessoas e as coisas. De tempos em tempos, Ercília é abandonada e remontada em outro lugar.