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Clipping

18/10/2013 às 00:32

Ana Maria na contramão

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

"Tenho uma visão cada vez mais nítida da sua importância, do papel crucial da arte em geral", diz Ana Maria sobre a literatura

Vencedora do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon 2013 com o romance "Infâmia", a escritora Ana Maria Machado encara a literatura com uma mistura bem dosada de paixão e abnegação. Escreve diariamente, quase sempre na parte da manhã. Às vezes, usa a parte da tarde, ainda, para reler o que escreveu. "Nunca escrevo de noite, me sinto cansada porque acordo muito cedo." Encara a literatura não como um exercício secreto e obscuro, mas como uma experiência solar. "Talvez tenha vestígios de função clorofiliana e precise da luz do sol para conseguir transformar resíduos tóxicos em oxigênio", cogita. "Que é algo que a literatura faz, como os vegetais, só que metaforicamente."

Outro elemento essencial em seu processo criativo é o silêncio, mas uma música instrumental ao fundo não a atrapalha, ao contrário, a ilumina. Precisa - como uma atleta - de concentração absoluta. "Tenho muito problema com interrupções, pois me fazem sair do clima, perder o fio da meada." Um escritor precisa de atmosferas - ou os resíduos que guarda dentro de si (memórias, sonhos, invenções, espantos) não se transformam em ficção. Por tudo isso, Ana Maria - atual presidente da Academia Brasileira de Letras - espanta-se consigo mesma. "Nunca imaginei que seria tão forte", diz, quando pensa no contraste entre sua rotina solitária de escritora e as obrigações inevitáveis impostas agora pelo cargo que ocupa na ABL.

Mas a verdade é que a presidência da academia impôs um intervalo obrigatório em sua escrita. Nunca acreditou, de fato, que um acúmulo de tarefas administrativas e de representação social, uma intromissão tão violenta em sua rotina não a conduzissem a uma inevitável entressafra criativa. "É uma entressafra que está se prolongando por total impossibilidade de lidar com essas circunstâncias. Estou me sentindo muito invadida por isso e contando o tempo que falta para o fim de meu mandato e a volta à escrita." Cogita, agora, em se dar de presente, logo depois do fim da presidência, um ano sabático que dedicará integralmente à literatura. Sonho que a chegada do Prêmio Passo Fundo, por certo, exacerbou.

"Percebi que me situam muitas vezes em um limbo muito estranho, entre o reconhecimento que parece exagerado e o desconhecimento"

Que não se encare esse desejo como "um ano de folga". Ana Maria acredita, cada vez com mais força, na potência da literatura. "Tenho uma visão cada vez mais nítida da sua importância, do papel crucial da arte em geral para a humanidade." Cada vez que lê ou relê um grande livro, o sentimento se confirma e fortalece. "A literatura é absolutamente essencial para mim, não posso viver sem ela." Acredita, com a mesma força, que o mundo, cada vez mais, precisa dos escritores e de seus relatos. Tanto para ela, Ana Maria, como para o real, é hoje uma questão de sobrevivência. Em um mundo que se espalha em redes virtuais e é cada vez mais fascinado pelas imagens, ela aposta suas melhores cartas no recolhimento e na introspecção exigidos pela escrita. Tem amigos escritores, vários, "mas não costumamos conversar sobre o que fazemos, embora por vezes troquemos dicas de livros". Sabe que o caminho do escritor se faz em absoluta solidão, estado que deve ser não só perseguido, mas preservado.

"Nunca troquei manuscritos com ninguém nem mostrei rascunhos." Para o bem ou para o mal, um escritor deve preservar sua intimidade que só se abre quando o livro é publicado e a escrita se torna pública. "Não gosto de falar sobre o que estou escrevendo, acho que se falar me escapa." Admite: "Às vezes falo do recém-escrito, mas apenas com o marido e filhos, pois é íntimo demais". Define assim um atributo essencial ao ofício de escritor: o pudor. Não tem, tampouco, a noção de "projeto em andamento", pois sabe quanto de imprevisto a literatura inclui. Por isso, também, não se interessa nem sabe se situar no cenário literário brasileiro. "Interessa-me ser lida, isso sim. Mas ser situada?"

Em 2012, seu romance "Infâmia" foi envolvido em uma polêmica durante o julgamento do Prêmio Jabuti. Depois de obter as notas máximas conferidas pelo corpo de jurados, o livro perdeu o prêmio por culpa de uma nota "zero" que lhe foi destinada por certo Jurado C. - como ficou conhecido o autor do disparate. "Eu tirei um fino, mas não ganhei", Ana rememora. Novamente, percebeu que a ideia de "como se situar" passou a ser uma questão muito grata ao jornalismo literário, mais importante até, muitas vezes, que a reflexão crítica. "Não apareceu um único crítico, num único jornal, que fizesse uma resenha ou um comentário mostrando que tinha lido o livro." A imagem do escritor, conclui Ana Maria, se sobrepõe hoje à leitura de sua obra.

A questão se agrava em seu caso, porque parecem ter lhe grudado na face o rótulo definitivo de "autora infantojuvenil". "Percebi que me situam muitas vezes em um limbo muito estranho, entre o reconhecimento que parece exagerado a alguns que não me leram e o desconhecimento de quem nem sequer chega perto para ler, porque imagina que sou "apenas" uma autora de livro para crianças." O mercado, de fato, costuma ser cruel com os escritores, espremendo suas figuras em rótulos funcionais, mas insuficientes como todo rótulo sempre é.

Entre suas afinidades figuram Drummond e o artista britânico Goldsworthy (próxima foto, abaixo): "Sua obra responde a algo que meu espírito pergunta, em meu íntimo. Mas não é sobre minha maneira de pensar a literatura, e sim de sentir a vida"

Diante desses movimentos secretos que se passam muito além da literatura, Ana Maria não esconde sua perplexidade. "Não entendo muito de mercado, é algo bem misterioso, não saberia falar sobre isso", comenta. Uma das hipóteses que ela se arrisca a levantar é a de que hoje, para ser reconhecido, é preciso que o escritor seja também jornalista. Ou seja: que tenha uma visibilidade anterior na mídia, o que seria (mas será mesmo?) uma garantia de vendas e de sucesso. "Nada contra, mas como deixei o jornalismo há muitos anos porque só queria escrever (o que não fosse jornalismo) fico na contramão." Segue seu caminho, ainda mais solitária, cada vez mais confiante no valor dessa solidão.

Os obstáculos não empurram Ana Maria Machado para uma posição pessimista. Ao contrário. "Pessoalmente, sinto-me otimista em relação à vida e ao ofício, porque estou mais velha, mais madura, mais segura, mais tranquila, dominando mais meu ofício, discernindo melhor minhas prioridades e dando menos importância a bobagens." As turbulências trazidas pela expansão do mercado não a levam a perder a convicção de que a literatura, como todas as artes, continua a ser "um valor supremo da sociedade". Não se ilude: sabe que as artes sempre foram vividas por uma minoria. Reconhece, com entusiasmo, que hoje a literatura está ao alcance de muito mais gente. "Torço para que, democraticamente, todos possam chegar mais perto dela." Mas não escreve pensando no sucesso ou nas vendas. Escreve unicamente voltada para si e seu percurso pessoal.

Não sabe falar de influências, prefere falar de afinidades ou de preferências. De pronto, cita Carlos Drummond, Albert Camus, John Fowles, Rubem Braga, Fernando Pessoa, Henry James, Marcel Proust. A diversidade de escolhas aponta para a pluralidade que vigora em sua obra. Tem voltado, bastante, aos clássicos preferidos: Camões, Shakespeare, Eça, Machado e Cervantes. "E nunca me arrependo e acabo confirmando sempre o mesmo amor e a admiração renovada." Mas não deixa de falar de sua admiração (e influência?) muito intensa por outras artes, em particular a música e a pintura. "Não seria quem sou sem Matisse, Tom Jobim e o pintor americano de origem judaica Mark Rothko", exemplifica.

Sempre foi muito marcada pelo jazz e pela MPB, do mesmo modo que vem sendo marcada "de forma crescente por um artista das artes visuais, Andy Goldsworthy". Sobre esse artista, detalha: "Tenho um deslumbramento por sua maneira de ver o mundo e nele interferir artisticamente". A paixão pela obra do escultor, fotógrafo e ambientalista britânico Goldsworthy reafirma sua opção por uma arte viva, que interfira e fira o mundo. "Sua obra responde a algo que meu espírito pergunta, em meu íntimo mais recôndito. Mas não é sobre minha maneira de pensar a literatura, e sim de sentir a vida."

Essas preferências, ou influências, como se prefira pensar, não tiram Ana Maria Machado, contudo, de seu percurso firme em sua escrita. "Não tenho consciência de rupturas ou mudanças bruscas nessa trajetória, ainda que saiba que fui mudando." Com o avançar da vida, admite, seu gosto sempre se altera: "Já gostei de Jacques Prévert, por exemplo, e hoje mal lembro que ele existe".

Apesar da rota firme em que avança, não crê, porém, que objetivos literários firmes façam parte de seu trabalho e de sua maneira de ser. Leva sempre em sua bolsa um caderninho no qual eventualmente faz anotações sobre coisas que lhe ocorrem de repente. Muito do que escreve surge por impulso ou de lugares que ela não saberia nomear. Necessita, muito, de recolhimento para escrever. Duas situações a estimulam: passar um tempo recolhida em uma casinha de praia, mas também em uma cidade do porte de Londres, cercada de livrarias, bosques e confortos. Em ambas dissolve-se um pouco no mundo, sai um pouco de si e encontra, nesse sair de si, um caminho. Um caminho que é sempre de alegria. "Quando escrevo, sinto, sempre, mais prazer e alegria do que dor e sofrimento." Isso nunca se modificou. "Mesmo quando escrevo a partir do sofrimento, causa alegria o fato de lidar com a dor, tentar conhecê-la melhor, domar sua força por meio da razão e ir, aos poucos, vencendo-a." Ana Maria ostenta sempre a postura de uma mulher vitoriosa.

Acha que tem, cada vez mais, ideias fixas, que determinam, com vigor, seu caminho singular, indiferente ao seguido pelas modas literárias. Não sabe falar de suas preocupações filosóficas ou literárias: "Até imagino que possa haver algo, mas, sinceramente, não tenho consciência disso." Sente que se transforma a cada livro, mas é "totalmente incapaz de dar exemplos de como isso se processa". Ana Maria é uma escritora inteiramente entregue a seu destino. Sabe que perdeu muitas ilusões políticas e com a espécie humana. "Talvez a influência dessa perda, desse desencanto, tenha me feito melhor observadora, mais distante, mais descrente." Não sabe ao certo. Não gosta de afirmações peremptórias e encara a literatura como uma descoberta. Escreve na contramão das próprias expectativas e por isso se torna cada vez mais dona de si.

Por José Castello | Para o Valor, do Rio