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Clipping

11/09/2009 às 14:43

Após blitz no Clarín, presidente diz que nunca houve tanta liberdade de expressão

Escrito por: Redação
Fonte: Folha Online

Apenas um dia após uma criticada blitz fiscal que envolveu 200 agentes contra o Grupo Clarín de mídia, grande opositor ao governo, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, afirmou em pronunciamento em rede nacional que nunca houve tanta liberdade de imprensa para falar das autoridades do país quanto em seu governo.

A ação, que ampliou a tensão entre o governo de Kirchner e o grupo de mídia de oposição, não foi assumida pelo governo e nem pelo diretor da Administração Federal de Receitas Públicas (Afip, a Receita Federal argentina), Ricardo Echegaray --que declarou nesta quinta-feira que não sabia da operação e anunciou a demissão de dois responsáveis.

"Duvido que houve outra etapa na vida institucional onde se pode falar com maior liberdade do que a etapa quando eu governei a República Argentina", disse Kirchner, em anúncio reproduzido pelo jornal argentino "La Voz".

"Desafio qualquer arquivo, qualquer memória, qualquer prova de que houve maior liberdade para se falar das autoridades do país [do que agora]", continuou Kirchner, que não citou o episódio da blitz.

Na véspera, cerca de 200 autoridades fiscais inspecionaram os escritórios do "Clarín", de clara oposição ao governo Kirchner. Fiscais da receita também foram a outros prédios do Grupo Clarín e as casas de dez de diretores do jornal.

O Grupo Clarín classificou a medida como uma forma de intimidação estatal e relacionou a ação a uma "escalada de ações agressivas e intimidatórias" contra a imprensa argentina em geral e principalmente contra os dirigentes do grupo --o maior do setor no país.

"Uma escalada que inclui campanhas de difamação, com cartazes em locais públicos, pichações e ataques a residências privadas de diretores do grupo, e uma série de atos administrativos abusivos e ilegais emanados de órgãos como o Ministério das Comunicações, o Comitê Federal de Radiodifusão (COMFER) e o Ministério do Comércio, entre outros", acusa o grupo, cm comunicado oficial divulgado na noite desta quinta-feira.

O jornal "Clarín" publicou em sua edição digital uma reportagem na qual critica a desorganização dos agentes fiscais e afirma que todos os livros contáveis e testemunhos dos trabalhadores provaram que a empresa não cometeu violações.

A operação aconteceu no dia em que o "Clarín" divulgou denúncia contra o Oncca (Escritório Nacional de Controle Comercial Agropecuário), também dirigido pelo chefe da receita. Como lembra o comunicado do grupo, a blitz acontece ainda em meio ao debate político sobre a "controversa" Lei de Radiodifusão --discutida atualmente por diversas comissões da Câmara de Deputados.

Calúnia e injúrias

Kirchner realizou pronunciamento em rede nacional para anunciar o envio de um projeto de lei ao Congresso para reformar um artigo do Código Penal "suprimindo a pena de calúnias e injúrias em questões de liberdade de expressão".

Ela explicou que o projeto, sugerido pela oposição minutos antes, é uma homenagem aos membros da Comissão Interamericana de Direitos Humanos que visitaram o país há 30 anos, em plena ditadura militar.

O anúncio chega em meio ao debate sobre sua proposta para nova lei de Radiodifusão, que pretende revisar as regras que datam do período da última ditadura militar do país (1976-83). O objetivo do governo é sancioná-la antes de 10 de dezembro, quando vai assumir o novo Congresso, escolhido em 28 de junho, em eleições nas quais o governo perdeu sua hegemonia na Câmara e no Senado.

O marido e antecessor da presidente, Néstor Kirchner, tem criticado publicamente a cobertura do "Clarín" sobre o governo, classificando-a de parcial, e descreve a empresa como um "monopólio".

A oposição questiona diversos artigos do projeto e considera a iniciativa como parte de uma dura batalha entre o casal Kirchner e o poderoso grupo empresarial. O jornal, por sua vez, tem mantido uma cobertura crítica da proposta de reforma e da própria administração do país.