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Clipping

25/10/2013 às 00:33

Arte e literatura em diálogo

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

O convívio entre artistas e escritores brasileiros no início do século XX inevitavelmente evoca a figura de Mário de Andrade e seus retratos por Lasar Segall, Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Lembra ainda a célebre união entre Oswald de Andrade e Tarsila ou o polêmico artigo "Paranoia ou mistificação", de Monteiro Lobato, testemunho dos embates estéticos que já começavam a fervilhar no mundo das artes e das letras anos antes de proclamada a Semana de Arte Moderna.

À parte exemplos evidentes, vale notar que esse convívio abrange outras relações igualmente marcantes, conquanto menos célebres, como é o caso da união entre Cecília Meireles e o artista luso-brasileiro Fernando Correia Dias. Durante décadas na sombra, a história desse casamento, que ressurge graças aos esforços de Alexandre C. Teixeira, neto de Cecília, e do biógrafo Osvaldo Macedo de Sousa, no livro "Fernando Correia Dias, um Poeta do Traço", revela uma cumplicidade de pensamento e espírito em que se reconhece aquela vertente mais discreta do simbolismo modernista.

Polivalente, Correia Dias foi artista gráfico, caricaturista, ex-librista, artesão, ilustrador de livros e diretor de arte na imprensa, tendo colaborado para várias revistas literárias, entre as quais a "Revista da Semana", onde encontrou pela primeira vez Cecília, e "Festa", da qual ambos também participaram. O grupo espiritualista da revista "Festa", como ficou conhecido, era simpatizante de uma modernidade que não pugnava com o passado nem cedia ao clima novidadeiro da época. A ousadia do casal, semelhante à do grupo, era de outra ordem menos circunstancial, Cecília lutando por uma modernização pedagógica, Correia Dias contribuindo para a transformação do conceito gráfico a partir do experimentalismo de estéticas diversas.

Os dois trabalharam juntos no "Diário de Notícias", na década de 1930, onde a poeta dirigia a "Página de Educação", ilustrada pelo artista. Não por acaso, os mais famosos retratos de Cecília, em linhas sintéticas, entre os anos de 1920 e 1930, lembram os desenhos para seus estudos de gesto e ritmo da cultura popular, expostos na sede da Pró-Arte em 1933, no Rio, e posteriormente publicados no livro "Batuque, Samba e Macumba". Consta que Correia Dias tenha sido mestre de Cecília no desenho, o que, pela observação desses estudos, leva a intuir um trabalho a quatro mãos.

A história de outra profunda parceria artística e espiritual reaparece agora no livro "Ismael Nery e Murilo Mendes: Reflexos", um resgate das crônicas de Murilo sobre o artista, especialmente durante o ano de 1948, além de uma generosa galeria de telas e desenhos de Ismael. O volume, assinado por Leila Fonseca Maria Barbosa e Marisa Trinponi Pereira Rodrigues, amplia o material reunido em 1996, com apresentação de Davi Arrigucci Jr., em "Recordações de Ismael Nery". Transcendendo sua importância documental, o retrospecto dessa amizade permite reavaliar, dentro de um contexto que se amalgamam poesia e filosofia, não apenas as contribuições desses dois nomes para a literatura e a pintura brasileiras, mas quanto um influenciou o outro em seus respectivos trabalhos.

Tal como Cecília e Correia Dias, Murilo e Ismael passaram ao largo das subversões estéticas promovidas pela revolução modernista. Revolucionaram, porém, criando ideários próprios que, baseados na atemporalidade de certos valores, desafiaram a aversão de intelectuais e artistas da época a uma conotação espiritual da atividade criadora. Batizado por Murilo de "essencialismo", o sistema filosófico de Ismael propunha a "abstração do tempo e do espaço", o que em sua pintura inspirou composições por muitos consideradas surrealistas, nas quais se configura em imagem a proposição do artista de que "o homem resume o universo". Artista múltiplo, Ismael também experimentou a poesia, a arquitetura e a escultura. Em contato com a arte produzida na Europa, celebrou sua amizade com Marc Chagall em uma série de desenhos, guaches e aquarelas de 1927 a 1929.

Os críticos que tratam da obra de Ismael Nery frequentemente ressaltam a presença sempre próxima de Murilo Mendes. Com razão. Não bastasse ter sido responsável pela preservação de boa parte dos trabalhos do amigo e sistematizado o essencialismo numa série de crônicas, Murilo ele mesmo deixou clara a influência de Ismael nos poemas de seu primeiro livro, de 1930, a que se seguiu "Tempo e Eternidade", de 1935, em parceria com Jorge de Lima, livro dedicado à memória do artista. Interessante perceber que mal se distinguem os poemas de "Tempo e Eternidade" daqueles escritos por Ismael nos anos de 1932 e 1933.

Vêm também dessa vizinhança da poesia com as artes as fotomontagens de Jorge de Lima, sob inspiração surrealista, que serão publicadas em breve numa edição de luxo de "Invenção de Orfeu", pela Cosac Naify, atual detentora dos direitos de publicação da obra do poeta.

A redescoberta desse conjunto de textos e imagens ilumina a amplitude de atuação dos poetas do início do século passado em suas incursões pela arte. Da leitura das crônicas de Murilo se depreende o agudo senso crítico que colocava em diálogo ou em confronto os poetas e artistas da época num ambiente de calorosos debates. Nesse sentido, são antológicos os textos em resposta a Oswald de Andrade, de 1934, e ao crítico Mário Pedrosa, de 1935. A este último, por exemplo, Murilo sugere uma revisão da obra de Ismael Nery livre do aparato da crítica materialista. Em outro texto, comenta os artigos de 1929 e 1930 de Manuel Bandeira sobre a pintura de Ismael. Coincidentemente, os textos de Bandeira sobre pintura, publicados originalmente no jornal "A Manhã" entre 1941 e 1943, foram há pouco reunidos no segundo volume de "Crônicas Inéditas" pela Cosac Naify. Nessas crônicas, um dos pintores mais visitados pelo poeta é Candido Portinari.

Percebe-se que Bandeira não economiza em ironias quando se refere aos premiados em diversas edições do Salão de Belas-Artes. A propósito, sua desistência de colaborar para a seção de artes plásticas, em carta a Mário de Andrade em 1944, se justifica, entre outras razões, pelo "horror de visitar exposições medíocres e péssimas". Tal como Murilo, Bandeira não se furta a um envolvimento apaixonado com as artes. Assim que, por essa amizade, ambos estão presentes na pinacoteca de retratos de escritores brasileiros, Murilo na pintura de Ismael, Bandeira num retrato de Portinari.

Desviando o foco de polêmicas e intercâmbios já bastante conhecidos da história, vale a pena revisitar algumas dessas relações nas vozes e nos trabalhos plásticos que ressurgem agora em livro. As parcerias entre Murilo Mendes e Ismael Nery, ou ainda entre Murilo e Jorge de Lima, além da união entre Cecília Meireles e Correia Dias, representam prismas ainda pouco explorados que, dentro do panorama do modernismo da primeira metade do século, hoje pedem novos olhares.

Mariana Ianelli é poeta, autora de "Breves Anotações Sobre um Tigre" (Ardotempo, 2013) e "O Amor e Depois" (Iluminuras, 2012), entre outros.

Por Mariana Ianelli | Para o Valor