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Clipping

08/05/2013 às 07:41

Biblioteca Nacional e editoras divergem sobre gastos com a Feira de Frankfurt

Escrito por: ANDRÉ MIRANDA e MAURÍCIO MEIRELES
Fonte: O Globo Online

As declarações do novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) sobre a participação brasileira na Feira de Frankfurt repercutiram mal no mercado. Em entrevista ao GLOBO, publicada no último sábado, o cientista político Renato Lessa disse não considerar ideal o modelo em que o governo financia praticamente todos os custos da homenagem que Frankfurt, o maior evento internacional de negócios de livros, realizado em outubro, fará ao Brasil. Para ele, “algumas questões deveriam estar a cuidado do setor privado”.

O setor privado, por sua vez, discorda. A participação brasileira em Frankfurt é organizada por um comitê de órgãos do governo e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), instituição que reúne editoras, livrarias e outras empresas da cadeia editorial. O problema, para Lessa, está em quem assumiria os gastos. O governo vai entrar com R$ 15 milhões de investimento direto, enquanto outros R$ 3 milhões, que completariam os R$ 18 milhões do orçamento total, viriam de patrocínio ou renúncia fiscal.

Editora não vê benefícios

Anteontem, Karine Pansa, presidente da CBL, reuniu-se com Lessa.
— Ele ainda não tinha todas as informações — disse Karine, após o encontro. — A CBL e a FBN já são parceiras há algum tempo. Não é verdade que só o governo entra com o dinheiro. Nosso projeto Brazilian Publishers, de incentivo à venda de direitos de livros brasileiros no exterior, existe antes dos investimentos do governo. Além disso, parte dos estandes de Frankfurt não é bancada pelo governo. Do espaço de 500 metros quadrados, 200 serão pagos pelos editores.

No biênio 2013-2014, o Brazilian Publishers terá um investimento de R$ 3,5 milhões, num convênio entre a CBL e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).

Presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e vice-presidente da editora Record, Sônia Machado Jardim lembra que quando Frankfurt homenageia um país, outras atividades artísticas, além da literatura, são realizadas.

— No ano passado, a Nova Zelândia levou grupos aborígenes para apresentar danças — explica Sônia. — Agora, se organizar isso é função da Biblioteca Nacional ou do departamento cultural do Itamaraty, eu não sei dizer. Só sei que não é função dos editores. Frankfurt é muito diferente da Bienal do Rio, por exemplo, já que não é uma feira de público. Tem público, mas a importância dela é para negócios.

Sônia acrescenta, ainda, que os editores não teriam benefícios financeiros em levar seus escritores para Frankfurt.

— A maioria dos autores tem agentes literários. O editor, na maior parte das vezes, não terá direitos sobre os contratos do autor no exterior. Se essa viagem ficasse a cargo dos editores, nenhum autor iria. Para nós, seria melhor gastar esse dinheiro levando-os a outras cidades do Brasil, onde você vende seus livros. O Renato Lessa também não foi preciso ao dizer que os editores não pagam para participar da feira. Não é verdade. O governo não paga a passagem de ninguém, isso sai do bolso de cada editor. Os hotéis em Frankfurt são pagos por nós, além do credenciamento para a feira. Em resumo, a participação das editoras não é paga pelo governo.
A entrevista de Lessa, que ainda não teve reuniões com os responsáveis por Frankfurt, causou preocupação na Alemanha. Porém, oficialmente, a organização da feira se diz tranquila quanto aos compromissos assumidos pelo Brasil.

— Os planos continuam sendo executados, o Brasil continua trabalhando. Frankfurt, até o momento, não viu nenhuma alteração no que foi combinado — afirma Ricardo Costa, representante da Feira de Frankfurt no Brasil. — A participação de um país convidado em Frankfurt não é só uma questão de livros, há um âmbito cultural maior. Por isso, normalmente, nas homenagens passadas feitas por Frankfurt, os governos se envolveram, sim, com os gastos.

Apesar das reações do mercado, Lessa mantém sua posição quanto aos gastos brasileiros em Frankfurt.

— Eu mantenho a ideia de que o peso maior está no poder público. Na reunião que tive com a CBL, a Karine mostrou o comprometimento que eles têm uma participação na capacitação dos editores, que se soma ao esforço geral, mas é uma participação pequena. Mas o esforço maior ainda é predominantemente do dinheiro público.