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Clipping

25/03/2013 às 09:07

Brasília pode ganhar museu afro-brasileiro

Escrito por: ANA POMPEU e AMANDA MAIA
Fonte: Correio Braziliense

Para combater o racismo no Brasil, é fundamental conhecer a história do país que viveu três séculos de escravidão. O Museu Nacional Afro-brasileiro de Cultura e Memória pretende reunir um acervo que registre de forma detalhada esse período fundamental na formação da nossa sociedade.

Em viagem aos Estados Unidos entre os dias 14 e 20, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, começou a dar forma ao projeto. Ela visitou locais como o Museu do Holocausto e o Museu Nacional de Arte Africana. A partir dessa pesquisa, concluiu que o modelo brasileiro deve ter espaços amplos, destinados à educação, outros à pesquisa, além de exposições. “É um museu de celebração da identidade, mas contando a história de uma chaga brasileira. É sobre um povo que conquistou o país”, definiu Marta Suplicy.

Ainda não há previsão para o início das obras. O projeto é embrionário, mas a ministra espera que as fundações do prédio estejam concluídas até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff. “A primeira ação foi pedir à Fundação Palmares para separar as gravações, vídeos com depoimentos dos quilombolas e analisar em que períodos ou regiões importantes existem lacunas”, disse em entrevista exclusiva ao Correio. Marta Suplicy também pediu a formação de um grupo de historiadores para determinarem os fatos mais relevantes a serem tratados no museu. Ela deu o prazo de três meses para a conclusão da tarefa. Quando essa etapa estiver concluída, os museólogos, curadores, pessoas envolvidas com arte e arquitetos poderão ser acionados. Só aí será possível montar um planejamento.

Por enquanto, a ministra conjugou esforços com a Fundação Palmares e o governador do DF, Agnelo Queiroz. O chefe do Executivo local, que também participou de algumas visitas a museus nos EUA, oficializou a doação do terreno, perto do Palácio da Alvorada, para a entidade de valorização da cultura negra. Há uma previsão de R$ 11,5 milhões para o projeto, recurso de emendas parlamentares. O valor é apenas para as primeiras atividades. “Para um museu desse tipo que não é só de mostra concreta, você tem que ter tecnologia de ponta, como vimos nos Estados Unidos”, afirmou Marta Suplicy. Além de empregar a tecnologia para oferecer um espaço dinâmico, o modelo americano valoriza a sustentabilidade financeira da casa e conta com uma equipe grande de voluntários.

Cidade ideal
O secretário de Promoção da Igualdade Racial, Viridiano Custódio, considera Brasília como a cidade ideal para receber o museu central da temática. “O DF é a síntese da sociedade brasileira”, diz. Ele defende a ideia por acreditar na influência positiva dela. “Para a comunidade negra, eleva a autoestima. Para os outros, conhecer a história dos antepassados, a luta de um povo, pode fazer com que a valorizem e respeitem”, completa.

Hilton Cobra, presidente da Fundação Palmares, acredita que o projeto é um avanço. “Vai ser um grande laboratório para a Lei nº 10.639, que trata da obrigatoriedade do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas”, defende. Nelson Inocêncio, coordenador do Núcleo de Estudo Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), concorda que há uma demanda por espaços educacionais e acredita que o poder público tem agido para acabar com o preconceito racial. “São um conjunto de três ações, que precisam ser agregadas para valorizar o segmento afro. As afirmativas, que possibilitam o acesso da população negra ao que ela não teve, como educação; as coercitivas, que punem quem pratica o racismo; e as valorizativas, que buscam divulgar a cultura”, detalha, referindo-se às cotas raciais, ao Disque Racismo e ao museu, respectivamente.

Patrimônio

Outros dois centros brasileiros de destaque têm acervos dedicados ao patrimônio afrodescendente. O Museu Afro-brasileiro da Universidade Federal da Bahia é pioneiro – foi inaugurado em 1984 – e possui 1.192 peças. Além de preservar, valorizar e divulgar as culturas africanas e afro-brasileiras, ele promove atividades de pesquisa, ensino e extensão. Já o Museu Afro-Brasil é mais recente e fica no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Ele conta com mais de 5 mil obras brasileiras e estrangeiras, entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, documentos e peças etnológicas.