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Clipping

14/11/2014 às 16:04

Caso Edward Snowden: como Laura Poitras protegeu seu filme Citizenfour contra a vigilância do NSA

Escrito por: Redação
Fonte: Revista Época

Poitras lança este mês o documentário Ctizenfour sobre seu contato de dois anos com o delator Edward Snowden. Usar métodos de segurança digital foi indispensável para garantir que seu material não seria xeretado pelo governo americano

"Laura,
Neste momento, não posso te oferecer nada além da minha palavra. Sou um funcionário sênior na área de Inteligência do governo.
Espero que entenda que entrar em contato com você é extremamente perigoso. Por enquanto, saiba que cada fronteira que cruzar, cada compra que fizer, cada ligação que discar, cada torre de comunicação que avistar, amigo que mantiver, lugar que visitar e assunto que digitar estará nas mãos de um sistema cujo alcance é ilimitado, mas seus guardiões não são.
No final, se você publicar esse material, gostaria de ser imediatamente implicado. Peço apenas que você assegure essa informação e torne-a conhecida para o público americano.
Obrigado e seja cuidadosa.
Citizenfour".

O documentário Citizenfour, lançado nos Estados Unidos no último dia 24 e sem previsão de estreia no Brasil, começa com a leitura dessa mensagem, uma das primeiras trocadas entre Laura Poitras, jornalista e responsável pelo filme, e Edward Snowden, hoje um dos homens mais procurados no mundo. Foi ao lê-la que a documentarista compreendeu, pela primeira vez, quanto decisiva aquela informação era, caso fosse verdadeira. O filme é uma curadoria de mais de 20 horas de vídeo gravado por Laura nos primeiros oito dias em que ela e outros jornalistas conheceram pessoalmente Snowden, em junho de 2013 em Hong Kong.

Snowden abordou Poitras, usando o codinome Citizenfour, pela primeira vez em dezembro de 2012, alegando ter provas de que a Agência de Segurança Nacional (NSA) americana estaria vigiando dados privados de cidadãos e empresas de dentro e fora do país. Antes, tentara estabelecer um vínculo com Glenn Greenwald, então colunista do veículo inglês The Guardian e residente no Rio de Janeiro. Ele, porém, nada sabia sobre segurança digital e não atendeu aos pedidos da fonte de instalar softwares de criptografia em seu computador. "Fiquei surpreso ao saber que  pessoas na imprensa não entendiam como qualquer mensagem não criptografada pela internet acaba chegando às mãos dos serviços de inteligência. Uma comunicação fonte-jornalista sem criptografia é imprudente e indesculpável", explicou Snowden em entrevista tempos depois.

Snowden escolheu Laura para vazar centenas de documentos confidenciais porque conhecia o histórico dela em cobertura de notícias sobre espionagem na internet e, principalmente, o conhecimento que tinha das técnicas de proteção digital. Devido a um documentário de 2011 para o qual ela entrevistou fontes sigilosas, como o fundador do site de publicações secretas WikiLeaks Julian Assange, Poitras se tornou muito mais experiente em criptografia do que a maioria dos seus colegas de profissão e até do que cientistas da computação. Ela criptografava ligações telefônicas, arquivos e e-mails. Deixou de usar celular e escondia os endereços dos sites que acessava.

Seus dois filmes sobre guerras - My Country, My Country (Meu País, Meu País, sem tradução em português, de 2006) e The Oath (O Juramento, também sem tradução em português, de 2010) - levaram Laura a ser interrogada diversas vezes em aeroportos pelos quais viajava. Por isso, começou a deixar seus blocos de notas em cofres nas casas de amigos, pedir para conhecidos carregarem seu laptop e deletar qualquer material de seu celular antes de embarcar em um voo.

Apesar de todo o cuidado que Laura já tomava, Snowden exigiu que ela aprimorasse ainda mais suas habilidades para poderem conversar. Ela teve de comprar um computador novo, pago em dinheiro. Ela o usava somente para comunicar-se com Citizenfour e nunca em sua casa ou escritório; sempre em lugares públicos com Wi-fi aberto.

A quantidade gigantesca de documentos fornecidos por Snowden ainda não foi toda divulgada ao público. Desde que Laura conheceu Snowden em Hong Kong, ela vem publicando aos poucos, em parceria com Glenn Greenwald e o repórter Ewan MacAskill, algumas histórias selecionadas. A série de reportagens, veiculada pelos jornais The Guardian e The Washington Post, ganhou o Prêmio Pulitzer de 2013. Laura também fundou, em parceria com Greenwald e outros jornalista, uma revista digital de jornalismo investigativo, chamada Intercept.

Hoje, em retrospecto, Poitras reconhece que sem o know-how sobre essas tecnologias, o vazamento do século poderia nunca ter acontecido e seu filme com certeza não teria sido editado e concluído sem a supervisão da NSA. "Aquelas ferramentas de criptografia permitem que alguém revele uma informação sem que sacrifique seu anonimato. Esse caminho agora existe".

Abaixo, ÉPOCA explica como funciona cada precaução que Laura Poitras tomou para certificar o sigilo da edição de seu filme:

Espalhar informações por muitos computadores

Laura arquivava o material bruto em diversos computadores e cada um era utilizado para uma determinada tarefa - acessar a web, se comunicar, ler, etc. Seus documentos também contavam com um "air gap", técnica que isola a rede do computador de outras menos seguras, como internet pública.

Evitar celulares

Algo que Snowden ensinou a Laura foi que todo celular, mesmo que desligado, pode funcionar como um rastreador ou microfone para quem souber hackeá-lo. Poitras conta que ele mandava os jornalistas tirarem a bateria do aparelho e colocá-lo no congelador, pois só assim deixava de ser um ouvinte em potencial. Por isso, Laura baniu celulares durante seu processo de edição. "Se trata de segurança, do mesmo jeito que qualquer pessoa abordaria segurança em outro contexto. Tipo 'seu celular é um perigo nessa determinada situação'. Isso vira um pensamento intuitivo", descreve Laura.

Navegar em anonimato

Ao final de Citizenfour, Laura agradece todos os projetos de software livre que ajudaram a tornar seu filme possível. Alguns deles são Tor (que mascara suas atividades no browser e apaga qualquer restro de comunicação do computador), Tails, GNU Linux (ambos sistemas operacionais) e SecureDrop (sistema de upload). A finalidade de todos eles é tornar as pegadas digitais anônimas, algo crucial quando se está lidando com sigilo de fontes e segredos de Estado.

Todos esses são softwares livres. Eles são construídos e corrigidos coletivamente e tem o código de programação aberto. "A comunidade de software livre deveria receber um apoio mais abrangente. Tenho total solidariedade pelo que fazem", afirmou Laura.

Combinar estilos de criptografia

Criptografia é feita por meio de sistemas, que embaralham o conteúdo. Para decodificar, é preciso ter uma chave digital. 

Durante os dois anos de reportagem, Laura combinou vários programas de criptografia como GPG, OTR e Truecrypt para seus e-mails, documentos, hard drives e mensagens instantâneas. "Toda nossa mídia era guardada em vários drives criptografados. Para acessá-los, tínhamos que inserir uma senha. Caso a sala de edição do filme fosse invadida, ninguém conseguiria roubar todas as cenas. Só requer tempo e devoção", explicou.

Alguns integrantes da equipe de produção e edição passaram por um treinamento sobre criptografia. Eles memorizavam senhas longas que eram definidas em Nova Iorque e alteradas com frequência. Usavam as senhas para compartilhar arquivos. Comunicavam-se online somente por meio do sistema criptográfico PGP, deixavam os celulares fora do escritório e fechavam as janelas quando debatiam sobre o conteúdo do filme. "Isso tudo adiciona um nível maior de complexidade, mas as consequências negativas são tão ruins que você tem que fazer isso".

Proteger a fonte

Laura Poitras teve uma preocupação profunda de contar a história de Snowden sem mostrar detalhes desnecessários ou que poderiam dar pistas à NSA sobre onde ele se encontra e o que está fazendo (Snowden foi acusado de espionagem pelo governo americano e recebe no momento asilo político na Rússia, porém não se sabe exatamente onde).

A importância da discrição era tanta para Laura que os distribuidores e financiadores do projeto só viram a versão final de Citizenfour dais antes da estreia no New York Film Festival. Antes disso, Poitras mostrava somente algumas tomadas com blocos pretos cobrindo porções que ainda seriam revisadas ou editadas.

Em cenas que Snowden digitava sua senha no computador - mesmo que escondido debaixo de lençóis -, o som das teclas foi alterado para que ninguém a desvendasse. Imagens mostrando o visual do seu pendrive também foram excluídas. O documentário revela ainda o que muitos vinham se perguntando e ninguém sabia: onde estava a namorada de Snowden, Lindsay Mills? No filme, ela aparece cozinhando ao lado dele à noite, em Moscou, e nada mais é dito a respeito.