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Clipping

28/10/2015 às 13:24

Censura e assassinatos faz do México o país mais perigoso para a imprensa da AL

Escrito por: Vanessa Gonçalves e Matheus Narcizo
Fonte: Portal Imprensa

Ao longo das últimas décadas, o México se transformou em um dos maiores “cemitérios” de profissionais de imprensa em todo o mundo. Sob a batuta da corrupção, violência e impunidade, lá o que vale é a máxima de que “jornalista bom é jornalista morto”. Desde 2000, segundo dados de entidades de jornalismo, 90 profissionais de imprensa foram assassinados em solo mexicano. O número expressivo coloca o país na 148ª posição no ranking de liberdade de imprensa elaborado pela ONG Repórteres Sem Fronteira (RSF) em 2015.
 
 
Com exceção de locais que vivem em estado de guerra, como Faixa de Gaza, Síria, Paquistão, Iraque e Ucrânia, o México é o sexto país mais perigoso do mundo para o exercício do jornalismo, de acordo com o relatório de dezembro de 2014 da Press Emblem Campaign. Na América Latina, lidera o ranking.
 
A violência contra a imprensa pode ser medida não apenas pelo número de mortos, mas também pelas constantes ameaças, atentados, desaparecimentos e sequestros de jornalistas que vivem à sombra de um inimigo onipresente: o crime organizado. Para a RSF, a relação entre narcotraficantes com alguns membros do poder público no México dificulta que “os mecanismos federais para proteger defensores dos direitos humanos e jornalistas sejam eficazes ou rápidos o suficiente para satisfazer as necessidades dos profissionais de imprensa em perigo”. Em outras palavras, o jogo de poder contribui para a impunidade dos crimes contra a imprensa.
 
Em alerta
 
Os recentes assassinatos do fotojornalista Rubén Espinosa e quatro mulheres – Nadia Vera, Yesenia Quiroz, Alejandra Negrete e Mile Virginia – na Cidade do México, em 2 de agosto deste ano, e dos jornalistas Joaquim Perez e Aurélio Herrera, em um hotel em Tabasco, em 24 de setembro, dispararam um novo alerta sobre o perigo ao qual os jornalistas estão expostos.
 
Até então, os crimes contra a imprensa estavam concentrados nos estados ao norte do México. Espinosa trabalhava para a revista Proceso e tinha denunciado às autoridades ter sido agredido e ameaçado em Veracruz – local onde 15 jornalistas foram mortos nos últimos anos. Ele estava refugiado na capital, teoricamente mais seguro.
 
“O assassinato de Rubén Espinosa criou um estado de insegurança entre os jornalistas, especialmente na Cidade do México, pois [a morte] ocorreu longe dos estados do norte do país, onde o narcotráfico é mais ativo e tem maior poder”, revela o jornalista David Santa Cruz, repórter freelancer da revista Newsweek.
 
Para o repórter fotográfico Felix Marquez, freelancer das agências Associated Press e Cuarto Escuro, “o México se tornou um narcoestado” e a impunidade dos crimes contra a imprensa criou um clima de autocensura, que serve como mecanismo de vida ou morte. “É justificável. Tenho certeza que alguns companheiros têm medo de publicar certo tipo de informação. Em um estado como Veracruz e em um país como o México, se você não tem medo, é muito perigoso”.
 
Contra o sistema
 
No México, o medo transformou-se numa característica essencial para os jornalistas, especialmente aqueles que cobrem segurança pública e política. Para publicar notícias sobre o narcotráfico ou corrupção no governo é preciso pensar duas vezes. “Temos percebido que qualquer um pode matar um jornalista. Pode ser o governo, a delinquência ou talvez uma pessoa que se sentiu ofendida por alguma publicação. Isso é resultado da impunidade no México. Como os crimes [contra a imprensa], em sua maioria, não foram resolvidos, essa impunidade permite que seja muito fácil atacar um jornalista”, afirma Marquez.
 
Diante desse cenário, boa parte da mídia na região norte do país vive sob uma censura velada, como afirma Jorge Morales, membro da Comissão Estatal de Atenção e Proteção de Jornalistas (Ceapp), criada pelo governo de Veracruz. “No caso de Veracruz, a censura é uma prática generalizada em todas as coberturas sobre violência, tais como tiroteios, execução de pessoas, massacres, abusos de autoridades e também alguns casos de corrupção.”
 
Santa Cruz explica que essa autocensura é a única forma viável de se manter vivo nessas localidades. Mas nem sempre a pressão sobre os jornalistas aparece em forma de ameaça declarada. Um exemplo é o caso de Ana Lilia Pérez, que produziu uma série de reportagens denunciando irregularidades na distribuição de gasolina no México durante o governo Felipe Calderón e acabou sendo processada por um consórcio de oitenta empresas envolvidas no esquema. Perseguida, precisou deixar o país e exilar-se na Alemanha.
 
Desconfiando a própria sombra
 
A relação entre narcotraficantes e alguns membros do poder público, aliada à impunidade, é apontada pelas entidades de jornalismo como o principal fator do recrudescimento da violência contra a imprensa no México. “O governo mexicano tenta ocultar esse tipo de informação [sobre o narcotráfico] e é por isso que muitos jornalistas são mortos, pois acabam indo ‘longe demais’ na busca por informações”, afirma Marquez.
 
Santa Cruz reforça essa ideia, apontando o Estado como responsável pela morte de repórteres. “Estamos na linha de fogo porque cumprimos o trabalho social de informar a população. Se um governador permite que a polícia reprima e ameace jornalistas, como aconteceu com Rubén [Espinosa], então, de alguma forma, ele é cúmplice disso.” Sem saber em quem confiar, os profissionais de imprensa têm pressionado o governo para criar entidades de apoio aos profissionais ameaçados, além de forçar a investigação das violações contra a classe.
 
Araly Castañón, da Red de Periodistas de Juárez, outro estado que sofre com a violência contra jornalistas, diz que entidades independentes surgem para tentar diminuir “o índice de impunidade e exigir que o governo proporcione condições para a imprensa realizar seu trabaho”. Porém, critica as comissões governamentais dedicadas ao tema. Para ela, essas entidades de proteção “simplesmente não funcionam”.
 
Em meio a esse vazio, os próprios profissionais de imprensa têm se unido em entidades ou de forma independente para se autoproteger. “Nos convertemos em ativistas pela defesa da liberdade de expressão, dos direitos humanos e da segurança dos jornalistas. As circunstâncias de violência no país nos fizeram tomar a decisão de trabalhar dessa maneira”, conta Elia Baltazar, uma das fundadoras da Periodistas de a Pie.
 
Segundo Elia, a entidade está convencida de que “os jornalistas devem ser responsáveis por sua própria segurança, ainda mais agora que o Estado mexicano não tem feito nada para reverter a impunidade sobre os casos de assassinato e agressão contra a imprensa”. David Santa Cruz dividia essa mesma certeza até a morte de Rubén Espinosa. Para ele, a rede de jornalistas que se ajudavam, especialmente na Cidade do México, enfraqueceu ao perceber que nem longe dos centros do narcotráfico estão a salvo. “Essa violência rompeu os laços de solidariedade entre os coletivos de imprensa. Agora, todos vão pensar duas vezes antes de receber alguém perseguido em casa, porque sabemos que ninguém, nem a polícia, nem o Estado, nem os amigos, pode ajudá-lo.