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Clipping

06/11/2012 às 10:17

Coluna Nas entrelinhas : Ordem do Mérito Cultural

Escrito por: Denise Rothenburg
Fonte: Correio Braziliense

A Ordem do Mérito Cultural teve como pano de fundo a disputa pela vaga ao governo de São Paulo. Além disso, a presença de muitos artistas nordestinos passou a alguns atentos senadores a sensação de que Dilma Rousseff começa a pescar na praia do socialista Eduardo Campos.   

A entrega da Ordem do Mérito Cultural ontem no Palácio do Planalto foi muito além de uma simples solenidade a reunir artistas com a presidente Dilma Rousseff; o presidente do Senado, José Sarney; e os ministros da Cultura, Marta Suplicy; e da Educação, Aloizio Mercadante. Nos bastidores, era visível a movimentação de dois futuros candidatos a governador de São Paulo. Marta, no papel de coanfitriã, sentou-se ao lado de Sarney. A Mercadante coube o lugar ao lado da presidente Dilma.

Alguns convidados notaram um certo clima político, sem entender muito bem a presença de Mercadante. Mas ele integra o conselho nacional de Cultura. Na solenidade, entretanto, ficou longe de ter um papel de mero ator coadjunte. Até porque, tão logo a presidente terminou sua fala, dando por encerrada a cerimônia, Mercadante foi cercado por uma profusão de jornalistas interessados em repercutir o andamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O ministro, há muito tempo, não se mostrava tão efusivo com o sucesso da prova: “4 milhões e 175 mil pessoas vão receber a redação de volta”, disse, feliz da vida, prestes a juntar mais um “nunca antes na história desse país…”.

Ao grupo que o cercava, Mercadante contou as histórias da prova recolhida no calor do momento, do menino que seria preso e que ele, enquanto ministro, determinou que o aluno só seria detido depois do exame. Falou ainda da moça grávida de um acampamento sem terra que ele fez questão de localizar a mãe para garantir o direito da aluna realizar a prova daqui a um mês. Não deixou, claro de mencionar aqueles que fotografaram as provas, algo que é proibido pelo regulamento.

Ele retornará ao Planalto ainda esta semana para lançar o pacto pela alfabetização na idade certa, um projeto ambicioso que envolverá 5,3 mil municípios brasileiros no sentido de baixar as tristes estatísticas do país, em que estados do Norte e do Nordeste chegam a ter 35% das crianças até 8 anos sem saber ler ou escrever. No Nordeste, a média é de 28%.

Atrás do bolo em que se encontrava Mercadante, outro grupo cercava a ministra Marta Suplicy (uma das “adversárias” na corrida pelo governo paulista), que alguns apostavam que brilharia sozinha na solenidade de ontem. Se Mercadante tem agora o sucesso do Enem como marca de seu primeiro ano no cargo, Marta prepara o vale-cultura, um projeto ao qual deseja se dedicar “com calma”, ainda sem data para lançamento. “Não faremos nada de forma atabalhoada.” Sobre a presença de Mercadante, ela foi direta: “Bem… Ele integra o conselho”.

Enquanto isso, do outro lado da Esplanada…
Outro que silenciosamente vai construindo seu espaço na política paulista é o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. No ano passado, quando das filiações partidárias para os candidatos às eleições de 2012, o Correio fez uma reportagem sobre as andanças dele pelo interior do estado, marcando presença. Padilha tem uma vantagem sobre os demais. É “novidade” dentro do PT. Mas, no momento, Marta, a grande apoiadora de Fernando Haddad, tem mais pontos perante Lula. E Mercadante hoje é um dos ministros mais queridos da presidente Dilma.

Nada disso, entretanto, terá valor eleitoral para disputar o governo do estado se logo ali na frente Lula preferir colocar para enfrentar o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, alguém do coração do ABC. Nome, o ex-presidente já tem. Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo (SP), reeleito no primeiro turno. Marinho é um dos melhores amigos de Lula e há quem diga que a ideia de Lula é fazer dele candidato a governador. Mas, como esse jogo ainda está em movimento, a fase é de aquecimento global, ou seja, ninguém está completamente fora da partida.

Por falar em partida…
Chamou a atenção a presença de artistas nordestinos. O pernambucano Alceu Valença, a paraibana Elba Ramalho e, ainda, a orquestra popular Bomba do Hemetério, do Maestro Forró, famosa no Recife, que colheu seu nome num dos bairros da cidade. A alguns senadores atentos, soou como se a presidente estivesse, assim, começando a pescar na praia do governador Eduardo Campos, do PSB, citado atualmente como um possível pré-candidato contra o PT em 2014. Daqui para frente, leitor, não se engane: essa corrida aos nordestinos e a da vaga pelo direito de concorrer ao governo de São Paulo terá a cada dia um circuito. Ontem, foi o do mérito cultural. Outros virão.