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Clipping

25/01/2013 às 14:35

Com 'universidades de integração', Brasil aposta na diplomacia do diploma

Escrito por: João Novaes
Fonte: Opera Mundi

Cada vez mais inserido no processo de internacionalização acadêmica, país aposta em universidades transnacionais para fortalecer integração com América Latina e África

A recente ascensão do Brasil como potência mundial emergente ressuscitou uma antiga tese, muito difundida especialmente na América do Sul durante os anos de ditadura, que enxerga o gigante sul-americano como uma nação imperialista. Como exemplos contemporâneos que contribuem para a má fama estão os protestos de trabalhadores contra condições precárias de trabalho e o forte impacto ambiental causado por mineradoras de origem brasileira na África, especialmente em Moçambique; ou o envolvimento de empreiteiras nacionais em zonas reivindicadas por populações nativas, como na Bolívia.

Por outro lado, o país também procura demonstrar, através de uma série de iniciativas pioneiras na Educação, que também é capaz de exercer uma liderança regional sobre bases diferentes. Com o ensino superior cada vez mais inserido no processo de internacionalização, o governo adotou os princípios de cooperação solidária e integração regional para nortear as parcerias no setor, especialmente com países latino-americanos e africanos.

A cooperação solidária se baseia em acordos de mão dupla, onde todos possam sair ganhando: estímulo à transferência e compartilhamento de experiências e conhecimento e fortalecimento do intercâmbio e de parcerias entre instituições de ensino superior, principalmente através de redes.

Com base nesses princípios foram criadas recentemente duas instituições de caráter transnacional, a Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), em Foz do Iguaçu, na Fronteira Trinacional, voltada a todo o continente latino-americano e o Caribe; e a Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), na pequena Redenção (Ceará), primeira cidade brasileira a abolir a escravidão, em 1883. Ela é voltada aos países da CPLP (Comunidades de Países da Língua Portuguesa).

A primeira, iniciada em 2010, incentiva os alunos latino-americanos a voltarem aos seus países de origem para lá poderem aplicar seus conhecimentos. A segunda, que teve os primeiros cursos iniciados em 2011, determina que os três últimos trimestres de cada curso sejam realizados em países africanos ou no Timor Leste – caso estes tenham parcerias, equivalência e condições para oferecê-los.

Ao mesmo tempo em que procura se tornar um polo de atração para estudantes e professores do exterior, o Brasil incentiva os estudantes a voltarem para os seus países de origem, sem incentivar a “fuga de cérebros”. E o interesse dessa iniciativa é claramente geoestratégico.

"O Brasil, há alguns anos, se considerava autossuficiente. Sua abundância em recursos naturais fazia pensar que não precisávamos dos outros. Vivíamos de costas para a América do Sul, voltados para nós mesmos. Essa visão mudou. O país está cada vez mais inserido no cenário internacional. Sua presença é cada vez maior no continente africano, mas busca crescer através de uma relação diferente às das tradicionais grandes potências", afirma Paulo Speller, reitor da Unilab, em entrevista a Opera Mundi. "Para nós, a formação acadêmica tem o foco na cooperação solidária", complementa, em contraposição ao modelo voltado ao mercado de trabalho e à iniciativa privada.

"O processo de internacionalização na Unila não mostrará resultados iniciais, pois não tem fins lucrativos. O modelo voltado ao mercado apresenta vantagens mensuráveis. Já nós abrimos a universidade para alunos de todos os países da região para que eles possam retornar para casa com a bagagem adquirida aqui", conta. A vantagem para o Brasil? "Confirmar sua vocação latino-americana de solidariedade com o resto do continente", responde Andrea Ciacchi, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação na Unila – italiano de nascimento e há mais de 20 anos no Brasil, também ouvido pela reportagem. "Não se dá para mensurar concretamente, o retorno [dessa iniciativa] se dará por mil outros aspectos".

"A ideia da Unila é a colaboração. Estamos longe ainda da primeira turma de formandos, mas quando eles completarem os cursos, não faremos nada para manter os estrangeiros aqui. A não ser que eles queiram, é claro. Serão bem-vindos para realizar uma pós. Porque a ideia não é dizer' venha e fique no Brasil porque somos melhores'. Esse passado do Brasil subimperialista foi uma teoria corrente nos anos 1960”, lembra. Ciacchi diz que, em 20 anos, dezenas de milhares de profissionais liberais latino-americanos já terão passado pelo país e “deixarão um elo de amizade e parceria".

Como um exemplo dessa diferença de mentalidade, ele cita o curso de Letras, que ao contrário das outras universidades brasileiras, não se volta prioritariamente à Literatura Brasileira ou aos cursos de Língua Portuguesa. “Em nossa grade curricular, o Português tem o mesmo peso do Espanhol. As literaturas são estudadas em grupos regionalizados, não nacionais [como, por exemplo, Literatura da Comarca Andina ou de Fronteira Norte/Sul]. Ele deve vir procurar um ensino diferenciado, não só porque conseguiu vaga através do Sisu”, explica Ciacchi.

Speller lembra que a iniciativa visa formar profissionais preparados para voltar seus conhecimentos ao mercado de trabalho em seus países de origem. E que através das redes de cooperação, eles possam futuramente aproveitar esses laços, o que resulta em retorno para o Brasil. "A expectativa é mais longa e ainda estamos atendendo as demandas de todos os outros países associados [à CPLP]".

Ainda em fase de estruturação, nenhuma turma ainda foi formada nas duas universidades e os trabalhos acadêmicos ainda nem tiveram tempo para gerar frutos. Mas ambas estão em fase de expansão. A meta da Unila é chegar a dez mil estudantes, dividida em 50% por brasileiros e estrangeiros – atualmente são 1.241 (608 e 633, respectivamente) – e um novo campus, vizinho ao atual e projetado por Oscar Niemeyer, está em construção.

Mais nova, a Unilab constrói uma segunda unidade em São Francisco do Conde, interior da Bahia, 73 km ao norte de Salvador. É a única universidade no Brasil a ter todos os seus 78 professores com título de doutorado. Seu nível de internacionalização, no entanto, é mais modesto: dos 1.008 estudantes, só 220 são estrangeiros – e a maioria deles, 71, do Timor Leste, o único país não-africano incluído (não há alunos portugueses). Entre os brasileiros, os cearenses são, de longe, mais numerosos. O objetivo também é chegar a 50% entre brasileiros e estrangeiros.

Outra similaridade entre as duas universidades é que os respectivos processos de internacionalização têm como prerrogativa respeitar o contexto e as necessidades locais em que estão inseridos – o que influencia desde a escolha dos cursos até os objetivos das áreas de pesquisa.

E, para o Brasil, tornar-se um polo de atração não implica em diminuir a presença de estudantes brasileiros no exterior. Pelo contrário, a outra via do intercâmbio foi incrementada com o programa Ciência Sem Fronteiras, onde se pretende oferecer mais de cem mil bolsas em quatro anos para estudantes brasileiros no exterior.

Os limites do mercado

Em um caminho diferente do que está sendo planejado pelo Brasil, Chile e Canadá são dois exemplos clássicos que apostam assumidamente na fórmula do ensino superior voltado às necessidades do mercado e com ênfase em universidades privadas e pagas (capítulos 10 e 11 do livro Internacionalização do Ensino Superior, Ed. Alameda, 536 pgs.). No entanto, desde 2011 esse modelo tem sido colocado em xeque por seus respectivos movimentos estudantis e associações de professores, ao ponto de, no último semestre, terem se tornado tema decisivo nas últimas disputadas eleitorais regionais.

Os dois países foram tomados por grandes manifestações populares exigindo um ensino público gratuito e de qualidade. No Chile, os protestos se iniciaram em março de 2011 e contribuíram para derrotas importantes da coalizão do presidente Sebastián Piñera nas eleições municipais realizadas em outubro – o que pode vir a ser uma prévia a disputa presidencial no fim deste ano.

Já a aparentemente calma província canadense do Quebec – que vive uma histórica tensão separatista com o resto do país – passou por um processo de ebulição iniciado em abril de 2011, quando o governo local -- comandado pelo liberal Jean Charest -- anunciou que iria aumentar as taxas das instituições públicas de ensino em 75% nos próximos cinco anos.
Os estudantes não aceitaram e saíram às ruas para pedir reformas profundas em todo o sistema educacional. O governo chegou a aprovar uma lei que restringia protestos nas ruas, o que só serviu para aumentar a popularidade das mobilizações, obrigando Charest a antecipar a eleição provincial para agosto de 2012. Resultado: vitória da oposição, os nacionalistas do Partido Quebequense. Embora a nova premiê Pauline Marois não tenha prometido realizar mudanças significativas, ao menos interrompeu o processo de desmantelamento do ensino público capitaneada por Charest, que, por sua vez, não conseguiu sequer manter o próprio assento no Parlamento.