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Clipping

20/03/2018 às 20:05

Como o pioneiro Mediapart passou a pautar a imprensa francesa

Escrito por: Kim Willsher, The Guardian
Fonte: Carta Maior

Em seus 10 anos, o site totalmente financiado por assinaturas gerou debates e dinheiro

Tudo começou com um punhado de jornalistas desiludidos com o estado da grande mídia no país, um grande empréstimo bancário e uma injeção ainda maior de otimismo.
 
Dez anos depois, o site de jornalismo investigativo francês Mediapart tornou-se uma pedra no sapato de políticos, figuras públicas e todos aqueles que têm algo a esconder.
 
Na última década, o site, que não reivindica nenhuma afiliação política particular, passou a pautar as notícias no país, ao revelar alguns dos maiores escândalos franceses envolvendo políticos de todo o espectro ideológico.
 
Suas equipes de apuração cavam informações com tenacidade, pelo tempo que for preciso, e se, no início, seus importantes alvos tentaram negar as acusações e denegrir seus jornalistas, hoje a maioria pensa duas vezes antes de atirar no mensageiro do Mediapart.
 
O site também ganha dinheiro. Muito dinheiro – apesar de não ter publicidade, subsídios públicos nem acionistas ricos, sendo inteiramente financiado pelos leitores através de assinaturas (atualmente € 110 por ano, ou € 50 para estudantes, aposentados, desempregados ou pessoas com baixa renda).
 
"O Mediapart é único", diz Edwy Plenel, diretor editorial e cofundador do Mediapart. Ele aponta para um cartaz na parede da sala de reuniões do site. O slogan diz: "Mediapart: somente nossos leitores podem nos comprar".
 
Quando começou, em 2008, o site tinha 25 funcionários. Hoje tem 80, incluindo um correspondente nos EUA, um site de língua inglesa, um "Clube" gratuito que funciona paralelamente ao site principal, com blogs e comentários e está se ramificando para blogs de vídeo ao vivo e televisão.
 
"Quando começamos, não tínhamos ideia do que ia acontecer ou se ia dar certo. O site nos custou todo o nosso dinheiro, mas foi uma condição do sucesso. Peguei um empréstimo porque era essencial poder pagar salários decentes por três anos", disse Plenel à Anglo-American Press Association.
 
"Dissemos às pessoas que vieram trabalhar para nós que não podíamos garantir um emprego para toda a vida, mas podíamos garantir-lhes uma aventura e um salário correto por pelo menos três anos. Em dois anos e meio, as contas estavam equilibradas".
 
Hoje, os empréstimos foram pagos e o Mediapart possui € 6,5 milhões no banco. O volume de negócios do ano passado foi de € 13 milhões, com lucro líquido de € 2,4 milhões. O site tem 140 mil assinantes e entre 2 e 3 milhões de visitantes únicos por mês.
 
Plenel diz que a independência financeira é a chave para uma imprensa livre e independente. "Se um jornal pertence a um industrial, você pode ter a melhor equipe de jornalistas, mas não poderá incomodar os interesses desse industrial. Isso afeta o que você faz, você tende a frear sua audácia", diz ele.
 
"Sabemos que a melhor garantia de nossa independência é o sucesso financeiro. Jornalistas devem ter acesso a financiamento para assegurar sua independência".
 
Ele acrescenta: "O fato de não ter publicidade e não ter subsídios públicos significa que somos totalmente independentes e podemos controlar e garantir essa independência".
 
Olhando para a última década, enquanto a Mediapart se prepara para celebrar seu 10º aniversário neste fim de semana, um caso representou um marco para o site.
 
Em dezembro de 2012, o Mediapart acusou o recém-nomeado ministro do orçamento socialista, Jérôme Cahuzac, cujo trabalho era tentar erradicar a fraude fiscal, de ter tido uma conta bancária não declarada na Suíça. Cahuzac rebateu o Mediapart, acusando o site de publicar "mentiras sérias e difamatórias" e, no plenário da Assemblée Nationale,afirmou aos deputados franceses: "Nunca tive uma conta na Suíça ou em qualquer outro lugar no exterior".
 
O Mediapart continuou investigando e publicando matérias sobre o caso, enquanto Cahuzac continuava negando. Em março de 2013, ele pediu demissão do cargo para limpar seu nome, ainda acusando o Mediapart de difamação.
 
Um mês depois, Cahuzac admitiu as acusações e foi acusado de fraude fiscal. Só em dezembro de 2016 o caso chegou aos tribunais, onde ele recebeu uma pena de prisão de três anos, confirmada por um tribunal de apelação no mês passado.
 
Para Fabrice Arfi, o jornalista que liderou a investigação sobre Cahuzac e foi acusado de mentir, caluniar e representar o pior do jornalismo, a decisão foi um alívio, acentuado pela percepção de que o resultado poderia ter sido outro, apesar das evidências e da documentação reunida por sua equipe.
 
"O mais perturbador foi como as mentiras foram aceitas como verdades e a verdade foi considerada mentira", comenta Arfi.
 
Outra grande investigação resultou em alegações – vigorosamente negadas – de que o ditador líbio Muamar Kadafi havia financiado a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy em 2007, com a soma de € 50 milhões. O caso ainda está sob investigação.
 
O Mediapart também obteve gravações secretas feitas pelo mordomo da falecida herdeira da L'Oréal, Liliane Bettencourt, sugerindo corrupção em alto escalão, e indicando que a mulher mais rica da França estava sendo despojada de sua riqueza por pessoas próximas a ela, algumas das quais foram condenadas.
 
"Antes da criação do Mediapart, faltava jornalismo investigativo e havia muito o que chamo de jornalismo passivo. É útil para o ecossistema midiático que haja um jornal que investigue e seja independente. Isso dá coragem a toda a profissão", diz Plenel.
 
Plenel acrescenta: "Nosso trabalho está constantemente sob ataque de poderes políticos e econômicos que não querem que sua influência seja desafiada. Não é só a verdade que corre perigo, a liberdade de mostrar a verdade está em perigo, e é por isso que temos que continuar a promover o jornalismo independente e a defender o direito à verdade".
 
“Trata-se de fazer jornalismo a serviço das pessoas e do bem público. No Mediapart, vencemos o primeiro obstáculo. Agora, trata-se de continuar o trabalho".
 
Tradução de Clarisse Meireles