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Clipping

23/07/2013 às 12:51

Congresso ganha cerca sem o aval do Iphan

Escrito por: Redação
Fonte: Correio Braziliense

As manifestações que sacodem Brasília desde junho provocam mudanças na paisagem da capital. Em desacordo com os desenhos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, cercas e tapumes surgem em alguns dos principais monumentos da cidade que é considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Além das cercas móveis que ocupam a Praça dos Três Poderes, tapumes de metal impedem a entrada pela lateral da Câmara Legislativa do Distrito Federal. No Congresso Nacional, caixotes de madeira sustentam refletores usados para iluminar os manifestantes durante os protestos e, há aproximadamente uma semana, uma cerca de arame protege a lateral do prédio. A instalação é considerada uma afronta à cidadania e ao patrimônio arquitetônico de Brasília por especialistas ouvidos pelo Correio (leia Palavra de especialista).

A cerca de quatro fios de arame é sustentada por estacas e protege a lateral sul do Congresso Nacional. Placas amarelas chamam a atenção para o perigo da "área com alto risco de queda", que chega a 10 metros de altura de acordo com a sinalização. A Superintendência do Distrito Federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que investigará o caso e adiantou que não há qualquer registro no órgão relativo a permissão para instalar uma cerca no local. O Iphan lembrou que qualquer intervenção na área deveria ter sido submetida à análise do órgão. O Corpo de Bombeiros do DF negou, em nota, que tenha recomendado ou solicitado a colocação do cercamento. A corporação lembrou que o Congresso é um monumento na lista de Patrimônio da Humanidade da Unesco e que qualquer modificação precisa de autorização do Iphan.

"Imperceptível"

Apesar de a cerca ter sido instalada semanas após a onda de protestos (veja Memória), a administração do Congresso Nacional nega qualquer relação da barreira com as manifestações. Por meio de nota, o órgão afirmou que "o objetivo da cerca é de evitar acidentes e mortes por atropelamento. Na época anterior à sua instalação, verificou-se que alguns pedestres, de forma imprudente, tentavam atravessar a via para ter acesso à entrada do Anexo 1 da Câmara dos Deputados". Ainda de acordo com a nota, o Iphan não foi notificado "já que a presença da cerca é imperceptível a distância e não agride o complexo arquitetônico do Congresso Nacional". Além disso, a administração da Casa afirma que ela foi instalada pela primeira vez na década de 1990.

"A Praça dos Três Poderes e o Congresso foram pensados para permitir o acesso das pessoas aos prédios. As grades vão reduzindo a praça e o contato do povo com o poder. Parece que a democracia tem medo do povo, o que é uma baita contradição. A grades e a cerca ofendem o patrimônio arquitetônico e os cidadãos", afirmou o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Carlos Cabral Carpintero. "Depois de 50 anos, decidem que a lateral do Congresso é perigosa e a cercam? É muito absurdo", completou o especialista.

Para o também professor de arquitetura da UnB Frederico Rosa Borges de Holanda, é necessário buscar uma opção menos agressiva do que uma cerca. "A laje do Congresso foi pensada para ser acessível, tanto que a rampa leva a ela. Se realmente é perigoso, precisam encontrar uma solução melhor para resolver o problema sem agredir o patrimônio", afirmou.

Palavra de especialista

Agressão à democracia

"A instalação da cerca de arame no Congresso Nacional é uma coisa horrenda, uma agressão ao patrimônio de Brasília e à democracia. É um caso em que uma suposta justificativa de segurança beira o ridículo. Além disso, é evidente que o objetivo da cerca é evitar que os manifestantes voltem a subir no teto. É uma barricada, como se estivéssemos em guerra. O Congresso foi desenhado para ter esse toque suave na lateral e permitir o acesso. Não era uma ponte de passagem, mas também não era um espaço proibido. Estão desprezando a arquitetura da cidade com base em uma teoria equivocada. Pensam que estão protegendo o prédio, mas, na verdade, o estão destruindo. Tornando-o ridículo, feio. Como arquiteto e amante de Brasília, lamento profundamente que pessoas despreparadas tomem providências tão tolas. Condenamos as grades nos prédios do Plano Piloto e no Guará, mas o Congresso e o Supremo estão fazendo igual, transformando a Praça dos Três Poderes em uma jaula. "

Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB)

Memória

Laje ocupada

Em 16 de junho último, manifestantes subiram na cobertura do Congresso Nacional durante um protesto batizado de Marcha do Vinagre. Sete mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar, reuniram-se no gramado da Casa. Por volta das 19h, um grupo conseguiu despistar a polícia e subir na laje do Congresso. Na mesma noite, manifestantes tentaram invadir a chapelaria do prédio, mas foram impedidos pela ação policial. A ocupação do teto do edifício principal causou prejuízos ao Senado e à Câmara. O valor não foi divulgado, mas, de acordo com administração do prédio, placas de mármore da cobertura foram quebradas e houve danos ao sistema de irrigação do jardim em frente ao Congresso, em placas de sinalizações, e um dos vidros da entrada principal do Congresso ficou trincado. Além disso, alguns jovens picharam as cúpulas e danificaram refletores.