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Clipping

01/11/2013 às 00:33

Depois de Frankfurt, Leipzig

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

"A Gente", longa de estreia de Aly Muritiba, é o único brasileiro em competição no festival alemão, no segmento de jovens diretores

Depois da Feira do Livro de Frankfurt, no começo do mês, o DOK Leipzig. Em sua 56ª edição, o Festival Internacional de Documentários e Filmes de Animação da cidade de Goethe e Bach dedica nesta semana ao Brasil sua mostra anualmente voltada a uma cinematografia convidada.

Além de integrar pela segunda vez o júri internacional do evento, participo hoje de um debate sobre a produção não ficcional brasileira contemporânea. Formam a mesa os cineastas Aly Muritiba e Gustavo Beck; o crítico, diretor e representante da Ancine Eduardo Valente; e o curador do ciclo, o brasileiro radicado na Alemanha Paulo de Carvalho, sob a mediação da curadora e produtora brasileira radicada na França Anna Glogowski.

A iniciativa dá continuidade ao mapeamento do documentário na América Latina iniciado no ano passado por uma mostra enfocando a produção hispano-americana. Um breve texto adianta o recorte deste Foco Brasil, batizado "Notas do País do Futuro: Novo Documentário": "Depois da ditadura militar e antes da Copa do Mundo, com velhas feridas e novos cartoons, histórias familiares e memórias das favelas, prisões e o coração de São Paulo, no ritmo da Tropicália. Os filhos e filhas de Glauber Rocha com mensagens pessoais e poéticas desde o maior país da América Latina".

A seleção enfatiza jovens realizadores em dez produções feitas nos últimos cinco anos, de curta e longa-metragem, documentários e animações. Os longas escolhidos combinam documentários de recorte mais tradicional, como "Diário de uma Busca", de Flávia Castro; "Doméstica", de Gabriel Mascaro; e "Tropicália", de Marcelo Machado; obras documentais em diálogo com a ficção, como "O Céu Sobre os Ombros", de Sérgio Borges, e "Morro dos Prazeres", de Maria Augusta Ramos, e uma animação em diálogo com o documentário, como "Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi.

O mesmo enfoque pautou a curadoria dos curtas, entre documentários como "Pátio", de Aly Muritiba (vencedor da competição nacional do formato no É Tudo Verdade deste ano), e obras híbridas, como "Mauro em Caiena", de Leonardo Mouramateus, e "animadocs" como "Dossiê Rê Bordosa", de César Cabral, e "Linear", de Amir Admoni.

O Foco Brasil proposto por Paulo de Carvalho tem como ponto forte, para além da renovação geracional, a ênfase em obras pautadas por pesquisas de dispositivos formais mais do que por investigações temáticas. A variedade de registros sinaliza uma inquietação estética em sintonia com a pulsão sociopolítica vivida pelo país. A eclosão das ruas de junho passado não tardou.

É sinal dos tempos que movimentos populares marquem ainda uma das retrospectivas, "STORM! A Journey in Eight Mass Movements Through the Short 20th Century" (REVOLTA! Uma Jornada por Oito Movimentos de Massa do Curto Século 20). Inspirado pela formulação de Eric Hobsbawm, a mostra revisita, em 24 títulos, protestos e mobilizações, de origens e consequências distintas, envolvendo Alemanha na era de sua divisão (1945-1990), Finlândia, Guiné-Bissau, Irã, Iugoslávia, Japão e Portugal.

A sacada da seleção é a mistura de breves registros eminentemente jornalísticos, captados no calor da hora - como os protestos durante a visita do então xá Reza Pahlavi, do Irã, à dividida Berlim de 1967 -, a documentários plenamente desenvolvidos, de estilos distintos, assinados por mestres como o iraniano Amir Naderi, o japonês Fumio Kamai e o finlandês Peter von Bagh. É como se um mesmo ciclo reunisse por aqui a Mídia Ninja, os filmes históricos de Silvio Tendler e o ensaísmo audiovisual de Eduardo Escorel.

A hibridização entre os dois gêneros focalizados pelo festival estimulou a criação neste ano da primeira mostra competitiva de "animadocs", com filmes resultantes do cruzamento entre documentários e animações. A disputa apresenta 19 curtas com predomínio de narrativas autobiográficas. De quebra, uma retrospectiva dos pioneiros desse subgênero, batizada "Film Unlimited" (Filme Ilimitado), reúne obras de mestres como John Grierson ("6:30 Collection"), Len Lye ("Trade Tattoo") e Norman McLaren ("Keep Your Mouth Shut").

Doze documentários em longa-metragem concorrem na categoria principal à Pomba de Ouro 2013. O predomínio é francamente europeu (nove títulos), mesclando diretores renomados como o dinamarquês Jon Bang Carlsen, o russo Vitaly Mansky e o alemão Volker Koepp a novos talentos como a polonesa Aneta Kopacz. Infelizmente, nenhum título brasileiro, ou mesmo latino-americano, credenciou-se para a disputa. O único concorrente nacional é o longa de estreia de Aly Muritiba, "A Gente", que participa da competição de jovens diretores.

Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.

E-mail: labaki@etudoverdade.com.br

Site do festival: www.etudoverdade.com.br

Por Amir Labaki | Para o Valor, Leipzig