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Clipping

06/03/2013 às 11:07

Desafios de uma cultura

Escrito por: Camila Molina
Fonte: Estado de S. Paulo

Dentro/Fora é o título da exposição que marcará a representação oficial brasileira na 55.ª Bienal de Veneza, a ser inaugurada para o público em 1.° de junho. O Pavilhão Brasil nos Giardini, espaço pertencente ao Ministério das Relações Exteriores, abrigará uma mostra preparada pelo venezuelano Luis Pérez-Oramas, responsável pela curadoria da 30.ª Bienal de São Paulo. Pelo projeto do curador, obras dos artistas contemporâneos Hélio Fervenza e Odires Mlászho serão colocadas em diálogo com três esculturas históricas, a Unidade Tripartida, do suíço Max Bill (1948), Côncavo/Convexo, do designer italiano Bruno Munari (1946) e Trepante/Obra Mole, da brasileira Lygia Clark (1965).

Em dezembro, Oramas convidou o gaúcho Hélio Fervenza e o paranaense Odires Mlászho, ambos participantes da 30.ª Bienal de São Paulo, para representar o Brasil em Veneza. Foi uma aposta em dois criadores de meia idade de carreira - nem emergentes, tampouco historicamente consagrados, inclusive, no circuito nacional. Segundo o curador, ele teve a liberdade de escolher artistas brasileiros que não estivessem, necessariamente, na exposição paulista, mas preferiu ser coerente com o ensejo da 30.ª mostra em São Paulo. "Curar o pavilhão brasileiro em Veneza tem uma dimensão política e aproximei-me disso com prudência. Esperei que se confirmasse eu ser o curador do Brasil em Veneza, sou um estrangeiro", conta Oramas.

"Acho que são dois artistas excepcionais. De Fervenza, que conheci através do (cocurador da 30ª Bienal e da representação brasileira na mostra italiana) André Severo, me impressionou o espírito de fineza, de sua obra feita desde os anos 1980 e que não circulava. E quando conheci Mlászho, vi que ele tem um corpo tão grande de trabalho e ainda tem inventado a noção de colagem. Sua relação com o mundo digital é quase obsessiva", considera o curador. O anúncio oficial dos escolhidos por parte da Fundação Bienal de São Paulo demorou a ser feito porque Oramas quis relacionar as obras dos contemporâneos - que, inclusive, foram convidados a criar trabalhos inéditos para Veneza - com um núcleo histórico que dependeria do empréstimo de peças por parte de instituições museológicas, como o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e a Galeria Nacional de Arte Moderna de Roma. "Essa conversa institucional tem uma dimensão política importante", diz.

Das três peças históricas selecionadas, apenas as negociações para o empréstimo da Unidade Tripartida, que pertence ao MAC-USP e premiada na 1.ª Bienal de São Paulo, em 1951, estão sendo feitas ainda, segundo Oramas. "O problema está relacionado às condições de exposição da obra." As esculturas, que estarão na primeira sala do Pavilhão Brasil, relacionam-se com o conceito de fita de Moebius, de criação de um espaço a partir da colagem das extremidades de uma fita. "A questão do dentro/fora e o problema da fita Moebius falam da capacidade da cultura brasileira, desde o mito organizador da Antropofagia, de metabolizar o exterior e transformar isso em vitalidade", diz Oramas.