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Clipping

26/09/2013 às 00:30

Diluição de ações pode ser saída para Telecom Italia

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Franco Bernabè, executivo-chefe da Telecom Italia: capitalização ou vender todos os ativos latino-americanos

Depois de abalar o mercado na segunda-feira com a notícia de fusão de operações, a Telecom Italia voltou a agitar os investidores ontem devido às afirmações de seu presidente-executivo, Franco Bernabè, que discursou diante de um comitê parlamentar em seu país. O executivo disse que a companhia tem duas opções para evitar o rebaixamento de sua nota de crédito: "A primeira é nos livrar, em processo competitivo, de todos os ativos latino-americanos, a outra é a capitalização." Em nenhum momento Bernabè indicou a preferência por alguma das saídas. Entre os ativos mencionados está a TIM no Brasil e operações na Argentina.

No BM&FBovespa, ontem, só os papéis da América Móvil, que representa a Claro, Embratel e Net, no Brasil, tiveram alta, de 1,29%. Para as demais grandes operadoras o dia foi de queda: Oi, -8,74%; Vivo, -2,37%; e TIM, -5,14%.

Todo esse frenesi está ligado ao aumento de participação que a Telefónica de España fez no consórcio Telco, que controla a Telecom Italia. Pelo acordo anunciado nesta semana, o grupo espanhol poderia assumir o controle da empresa italiana a partir de janeiro. Isso criaria concentração de mercado tanto no Brasil quanto na Argentina.

Apesar das apostas de analistas, a Telecom Italia não teria qualquer intenção de vender a TIM, segundo disse ao Valor um alto executivo da operadora no Brasil. O objetivo, ao contrário, seria atrair novos investidores estrangeiros para diminuir a dívida da Telecom Italia e, ao mesmo tempo, diluir a participação da Telco na companhia italiana. Isso resolveria o problema de concentração nos mercados onde Telefónica e controladas da Telecom Italia atuam.

Além disso, a ideia é fortalecer a estrutura de capital da TIM no Brasil, elevando a sua dívida, que hoje está muito baixa. Um baixo endividamento diminui o valor da empresa na bolsa, porque o mercado entende que uma empresa sem alavancagem tem poucas expectativas de crescimento. A operadora brasileira encerrou o segundo trimestre com dívida de R$ 1,98 bilhão, inferior ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida) de R$ 2,46 bilhões do período. A Telecom Italia, por sua vez, registrou dívida líquida ajustada de ? 28,8 bilhões no primeiro semestre - o que representa cinco vezes e meia o seu Ebitda no período, de ? 5,5 bilhões.

Venda da TIM não é opção do grupo, e sim atrair investidores estrangeiros, diz executivo da companhia

Para o presidente de uma companhia do setor de telecomunicações que prefere não ser identificado, as declarações de Bernabè e da TIM representam um jogo estratégico para acalmar o governo brasileiro e reduzir a pressão regulatória. Ocorre que na terça-feira o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, reagiu fortemente contra uma fusão das empresas no Brasil. Para o governo, há espaço para a entrada de um quinto concorrente. O encolhimento da competição, por meio de fusão de operadoras, ao contrário, não é um movimento desejado.

Nesse sentido, se a resistência do governo brasileiro se propagar, cria-se um ambiente que desfavorece, em termos regulatórios, a costura de acordos entre as companhias.

As barreiras em relação à regulamentação começam no mercado italiano e ultrapassam fronteiras. "A agência reguladora italiana não quer que a rede fixa da Telecom Italia seja controlada por uma companhia estrangeira, por isso os reguladores podem criar algum mecanismo para garantir a autonomia da empresa", disse Arthur Barrionuevo, especialista em telecomunicações na Fundação Getúlio Vargas e ex-membro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A resistência do governo italiano em se desfazer de grandes empresas nacionais ou de ver o controle das mesmas tomado por não italianos cria uma situação em que a Telecom Italia precisa primeiro combinar com o governo sua estratégia para depois poder atrair um sócio estrangeiro. "Foi assim com a Alitalia ", disse o executivo da TIM ao Valor, referindo-se à empresa aérea italiana salva há quatro anos da falência por meio de um acordo com a Air-France - KLM, que se tornou acionista da companhia.

Entre os potenciais investidores que conversam com Telecom Italia hoje estão o egípcio Naguib Sawiris e a chinesa Hutchison Whampoa, segundo apurou o Valor - os mesmos que, no passado, tentaram levar uma parte da operadora, mas não chegaram a um acordo. O governo italiano chegou a dizer, por meio da imprensa, que preferia uma aliança com um investidor europeu, como a Telefónica, em relação ao de outros países.

Ontem, no entanto, o anúncio do acordo da Telefónica com os sócios da Telco causou furor no congresso italiano. Parlamentares disseram que a operação coloca em risco a "segurança nacional", uma vez que pela rede da Telecom Italia trafegam as principais informações do país, tanto de cidadãos quanto do governo.

Segundo jornais italianos, os parlamentares chegaram, inclusive, a cogitar que o governo exerça a "golden share" - direitos especiais do Estado sobre ativos considerados estratégicos para o país - para barrar a operação.

Segundo o jornal "Corriere Della Sera", o primeiro ministro da Itália, Francisco Leta, disse que, embora a Telecom Italia seja uma empresa privada, o governo italiano vai analisar o aporte da Telefónica na operadora com cuidado, pois o país não quer perder interesses e bens estratégicos. Leta falou dos Estados Unidos, onde participou da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU).

Embora a consolidação das duas companhias ainda esteja longe de ser definida, executivos fizeram cálculos de como ficariam as operações da Vivo e TIM no Brasil com a soma dos blocos de frequência. A regra determina que cada grupo econômico pode ter no máximo 80 megahertz de faixa de espectro. Com a fusão das empresas, o espectro delas não pode ser somado, pois ultrapassaria o limite regulamentar. Então, as teles só poderiam somar suas bases de clientes em uma mesma infraestrutura. Não haveria um impacto forte em relação ao número de torres, ou antenas, mas seria preciso aumentar a quantidade desses equipamentos. Mas com o limite de espectro, a expectativa é que a qualidade do serviço seja afetada.

Há ainda outras limitações de infraestrutura. Vivo e TIM somam quase 150 milhões de linhas. Em muitos Estados, as duas juntas ultrapassam 50% de mercado. Mesmo que a questão regulatória não existisse, se essa base de clientes fosse incluída em uma só rede, sem usar a faixa de espectro das duas empresas, o serviço seria prejudicado, disse um executivo que atua na área de infraestrutura.

Por Daniele Madureira e Ivone Santana | De São Paulo