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Clipping

20/01/2006 às 08:27

Disco funciona mais por Bibi do que por Proença

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo

Não se deve estranhar o fato de Bibi Ferreira, acompanhada ao piano por Miguel Proença, dedicar todo o seu novo CD ao tango. Não é de hoje que cantores brasileiros desafiam os preconceitos alimentados pelos que classificam de mau gosto tudo que não vem dos Estados Unidos (tango, bolero, rumba, guarânia, son, este só aceito aqui sob o rótulo americanizado de salsa), para gravar peças do repertório de Carlos Gardel e outros não tão notáveis. Por causa do tango, já se disse que Carmen Miranda sofria de argentinite e que Francisco Alves gravava muita versão descartável. É possívelque a bela voz de Albertinho Fortuna não tenha ido mais longe justamente por sua dedicação ao tango, assim como os fãs de Dalva de Oliveira nunca incluíram entre seus favoritos os discos que ela gravou em Buenos Aires com a típica de Francisco Canaro. Agora, é a vez de Bibi.

Éprovável que os puristas do tango, mais radicais que quaisquer outros, não achem que — por ser o espanhol o primeiro idioma de Bibi, ou por não ter Proença, filho de uruguaia, ouvido outro tipo de música até os 15 anos — os dois sejam artistas certos para um CD como este (assim como os radicais do samba não receberiam com bons olhos, ou ouvidos, a voz de Suzana Rinaldi e o piano de Atílio Stamponi em coisas de Cartola e Nelson Cavaquinho, por mais que ela falasse bem o português, e ele tivesse crescido ouvindo Nonô).

Em alguns momentos, piano briga com a voz

Preconceitos e purismos à parte, o CD pelo menos funciona. Mais por Bibi do que por Proença. Bibi tem, além de carisma, notória capacidade de emprestar um temperamento dramático a músicas marcadas pela dramaticidade, casos do fado, das canções de Piaf e do tango. Entendeu as letras e soube como transmiti-las, apesar do pecado de só cantar alguns versos de “Por una cabeza”, deixando sem sentido a história contada por Gardel & Le Pera. Pecado do qual ela se redime em “Cuesta abajo”, dos mesmos autores.

Quanto a Proença, não está claro se o que toca é arranjo seu ou partitura escrita por outro (como aquele disco em que Arthur Moreira Lima “interpreta” Astor Piazzolla lendo as excelentes transcrições de Laércio de Freitas). O que conta é que Proença parece ter espírito menos tanguero que o de Bibi. Seu piano, virtuosístico que seja, briga em alguns momentos com a voz dela, em parte por soar muito alto, em parte pela falta de economia de notas que se espera de um acompanhante. Afinal, em disco de voz e piano, a não ser nos solos, é sempre melhor que este seja coadjuvante daquela.

Canções deliciosamente óbvias, como “Poruna cabeza”

Há informações vagas ou contraditórias no texto distribuído à imprensa pela Biscoito Fino. O que se terá querido dizer com “eles (Bibi e Proença) têm a sujeira do tango”, palavras do diretor musical Ignacio Verchausky, o argentino trazido para ensinar como se faz? A produtora Olívia Hime fala de um consenso para que o repertório não fosse óbvio “e sim fruto de pesquisa”. O que pode ser mais óbvio, embora deliciosamente óbvio, do que “Mano a mano”, “Caminito”, “Esta noche me emborracho” e as citadas “Cuesta abajo” e “Por una cabeza”? Só mesmo “El dia que me quieras” em ritmo de tango.