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Clipping

04/10/2013 às 00:31

Donos originais da Oi se livram de R$ 4,5 bi em dívidas

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Os donos originais da Oi sempre deixaram claro que sair do controle da companhia seria caro. E não é diferente para o projeto de fusão da operadora brasileira com a Portugal Telecom, em que o negócio resultante não terá um acionista controlador. A nova empresa, temporariamente chamada CorpCo, será de capital pulverizado.

O prêmio de controle que os sócios Andrade Gutierrez, La Fonte, BNDES, Fundação Atlântico e fundos de pensão recebem desta vez é de R$ 4,5 bilhões. É a dívida que tirarão de suas costas e dividirão com todos os acionistas da nova empresa.

Essa dívida será transferida para a nova companhia por meio da Portugal Telecom. Tomando-se por base a garantia firme que esses acionistas deram para a capitalização, de R$ 2 bilhões (considerando recursos que serão colocados por um novo investidor, o BTG Pactual), restarão ainda R$ 2,5 bilhões em compromissos para serem saldados - 6% da dívida líquida total final (R$ 41,2 bilhões).

E não se sabe, do valor garantido, quanto será colocado pelo banco de André Esteves.

Mais um efeito prático disso, conforme indicou a agência de classificação de risco Moody"s, é que dos R$ 7 bilhões mínimos da capitalização em dinheiro, apenas R$ 2,5 bilhões são caixa novo ao negócios - já que haverá R$ 4,5 bilhões de dívida extra além das vinculadas à Oi e Portugal Telecom.

Cobrar caro pelo controle - vender ou perder - é uma exigência histórica dos donos da Oi e que esteve no cerne das tentativas anteriores de reestruturação societária do grupo, em especial a que pretendia levar a companhia ao Novo Mercado, em 2006. Na época, exigiam mais de 200% de prêmio sobre minoritários.

A entrada do grupo português no controle da Oi também foi salgada. O grupo aplicou R$ 8,4 bilhões para ingressar na elite do controle da Oi, com 20,5% do total do negócio.

Desses recursos, R$ 4,7 bilhões foram desembolsados para ficar com apenas 5% da companhia operacional, por meio de participações indiretas na holding TmarPart e nas empresas AG Telecom e LF Tel. O prêmio foi distribuído de maneira diferente entre AG e LF e os demais acionistas.

A história se repete. Dos R$ 4,5 bilhões de dívida que serão transferidos à nova companhia, R$ 3,2 bilhões são da holding e R$ 1,3 bilhão da soma de AG e LF.

Na percepção dos investidores, deixar a dívida foi o prêmio cobrado pela diluição do controle da Oi.

A nova companhia só terá ações ordinárias, listadas no Novo Mercado. Nenhum acionista terá mais de 10% do capital. Os investimentos serão diretos, deixando cada sócio livre para vender as ações quando quiser. Parte dos investidores serão os acionistas da PT de hoje: BES, Ongoing, Caixa Geral de Depósitos (CGD). Somados, todos os ex-Portugal Telecom terão cerca de 38% da nova companhia.

Conceder um prêmio diferenciado ao controlador é um dos vícios das antigas reorganizações que os investidores da Oi - que enfrentarão uma diluição potencial de 65% com a operação - reconhecem nesse projeto com o grupo português.

Outro "déjà vu" é o foco no resultado na reestruturação, sem atenção ao meio do caminho. Ontem, Zeinal Bava, presidente da Oi, disse a analistas e jornalistas que não importa de onde virão os R$ 2 bilhões. "É completamente irrelevante agora a definição de como os acionistas estão investindo. Para nós, é importante que teremos uma base de acionistas estável".

Entretanto, os investidores querem saber se os donos anteriores, que estão deixando a todos suas dívidas, vão capitalizar o negócio e em quanto. O Valor apurou que o BNDES tem interesse em participar para reduzir a diluição. Previ, Funcef e Petros não quiseram se pronunciar, mas segundo pessoas ouvidas pelo Valor, ainda não decidiram.

A principal diferença com outros projetos é o nascimento de uma companhia realmente internacional. Também contam o fato de que a estratégia será ditada, pela primeira vez, por quem opera o setor de telefonia e que as amarras dos controladores originais da Oi serão desfeitas. Eles não mais limitarão os investimentos da empresa, seja por restringir captações, por demandar dividendos maiores que os possíveis, ou por cobrar caro pelo controle.

Não está claro se os efeitos são compensatórios na percepção do mercado. Desta vez, porém, não há burocracia para barrar a transação. Basta o investidor não mostrar o dinheiro que nada acontece. Sem R$ 7 bilhões no bolso, não há fusão.

Será preciso, portanto, convencer investidores de mercado a colocar, no mínimo, R$ 5 bilhões no projeto. Tudo isso será abordado na apresentação que, sem perder tempo, Zeinal já começou em Londres - de onde, aliás, anunciou o negócio. A preocupação foi não caracterizar a empresa nem como portuguesa nem como brasileira. A capitalização pode alcançar R$ 14 bilhões. Ainda há os R$ 6 bilhões em ativos, contribuição da Portugal Telecom no negócio.

Por Graziella Valenti e Heloisa Magalhães | De São Paulo e do Rio