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Clipping

10/08/2015 às 14:43

Enderson Araújo: 'Precisamos ocupar os espaços que nos pertencem e a EBC é um desses'

Escrito por: Rafael Flores
Fonte: Revista Gambiarra

Conversamos com o midialivrista Enderson Araújo, que nos falou um pouco da emersão de uma comunicação pertencente ao morador da periferia e sobre a expectativa da sua posse no conselho curador da EBC

A comunicação como direito e como instrumento de formação do cidadão, é assim que Enderson Araújo entende. Criador do projeto Mídia Periférica, o soteropolitano está prestes a tomar posse no Conselho Curador da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).
 
Criada em 2007 para fortalecer o sistema público de comunicação, a EBC é gestora dos canais TV Brasil, TV Brasil Internacional, Agência Brasil, Radioagência Nacional e do sistema público de Rádio – composto por oito emissoras. Estes, por sua independência editorial, distinguem-se dos canais estatais ou governamentais, com conteúdos diferenciados e complementares aos canais privados.
 
Os veículos da EBC têm autonomia para definir produção, programação e distribuição de conteúdos. Atualmente, são veiculados conteúdos jornalísticos, educativos, culturais e de entretenimento com o objetivo de levar informações de qualidade sobre os principais acontecimentos no Brasil e no mundo para o maior número de pessoas. A sua estrutura é formada por: Assembleia Geral; Órgãos da Administração (Conselho de Administração e Diretoria Executiva) e Órgãos de Fiscalização (Conselho Curador, Conselho Fiscal e Auditoria Interna).
 
A existência de um conselho curador já é um avanço dentro da perspectiva de comunicação que tivemos historicamente. Mas há 20 anos atrás, insanidade maior era pensar que um jovem negro, baiano, de periferia, iria opinar na emissão de conteúdo público. Ocupando a cadeira voltada para a juventude brasileira, Enderson pretende abrir caminhos para as produções audiovisuais feitas por jovens.
 
Com 24 anos, Enderson já tem feito isso há 5 no bairro de Sussuarana, periferia de Salvador, onde cresceu. Depois de participar das oficinas de Direito à Comunicação e Produção de Vídeo ministrados pelo Instituto de Mídia Étnica (IME), ele se juntou a amigos e criou o projeto Mídia Periférica (MP).
 
O MP surgiu para criar uma representatividade midiática que aquela comunidade não tinha por conta do olhar seletivo, violento e preconceituoso dos veículos tradicionais sobre a periferia. Logo, as pautas também passam a englobar temas universais que envolvem por exemplo, a cultura e o ativismo negro no país.
 
Conversamos com o midialivrista Enderson Araújo, que nos falou um pouco sobre a emersão de uma comunicação pertencente ao morador da periferia e sobre a expectativa sobre a sua posse no conselho curador da EBC.
 
Revista Gambiarra: O que o projeto Mídia Periférica propõe para a comunidade local e no que ele tem interferido?
 
Enderson Araújo: A preocupação do Mídia Periférica vai além de informar cada morador, mas também formar os moradores, através dos nossos meios de comunicação, para que cada morador seja detentor do controle social de sua comunidade, algo que fica restrito na maioria das vezes, aos líderes comunitários. Temos interferido na comunidade, oportunizando que moradores, reivindiquem seus direitos, e que tenham sua autoestima elevada, algo que a grande mídia tem roubado, com seus programas sensacionalistas.
 
Revista Gambiarra:  Como ele tem conseguido uma sustentabilidade?
 
Enderson Araújo: Nossa sustentabilidade, tem se dado através de parcerias locais, pequenas doações e estamos caminhando para participar de editais públicos e campanhas colaborativas, afinal, completaremos 5 anos em Setembro, o que era ua ideia,passou a ser uma referencia de comunicação alternativa das periferias, então já passou da hora de amadurecermos.
 
Revista Gambiarra: Assim como a Revista Gambiarra, uma das pautas mais recorrentes da Mídia Periférica nos últimos meses tem sido a luta contra a redução da maioridade penal. Qual a importância de bater nesse ponto pra vocês?
 
Enderson Araújo: A Redução da Maioridade Penal, não resolve os problemas de violência praticado por menores, pois existe uma desconstrução na vida de quem comete ato infracional, ninguém escolhe ser bandido da noite para o dia, são diversas faltas, inclusive de direitos básicos, como: educação; acesso a esporte, lazer e cultura; entre vários outros fatores. Garantir a educação e outros direitos, terá mais eficácia na prevenção, para que menor numero de jovens adentrem o crime, pois com a redução, os mais atingidos serão os jovens negros das periferias.
 
Revista Gambiarra: Além de escrever sobre e divulgar as ações, você tem participado ativamente da construção dos atos contra essa redução. Como isso vem sendo recebido  no lugar que você atua, no caso a periferia de Salvador?
 
Enderson Araújo: No inicio até mim envolvi em atos maiores, porém um momento parei para analisar, para quem estávamos falando, e percebi que o público-alvo não era aquele, e que deveria fazer o trabalho na base, hoje tenho atuado no tema, em pequenas rodas de conversas, em diálogos com amigos, dentro da própria família e em família de amigos, pois é aqui na periferia que o efeito vai ser mais colateral, então se não acionarmos esses indivíduos, não vai adiantar de nada parar o transito, fazer festivais e etc., porque a galera da periferia, vai continuar acreditando, que tem que reduzir, pois essa é a solução.
 
Revista Gambiarra: No próximo dia 13 de Agosto, você assume a cadeira reservada para Juventude do Conselho Curador Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O que você pretende levar da sua atuação e experiência com mídia alternativa para o Conselho?
 
Enderson Araújo: Toda vez que escrevo ou falo sobre o Conselho Curador, sobre o processo, dá um frio na barriga, pois foi um processo eletivo de três etapas, onde fui indicado por 4 instituições da sociedade civil: Instituto de Mídia Étnica, Associação de TVs Legislativas, Conselho de Jornalistas do DF – COJIRA, Associação Brasileira TVs Universitárias; A partir daí o colegiado me incluiu, num processo de votação, na carta tríplice do segmento de juventude e encaminhou ao Gabinete da Presidência da República, para que ela designasse o melhor nome para ocupar a vaga.
 
Pretendo ampliar o diálogo entre o Conselho e a Sociedade Civil, no segmento que diz respeito a juventude, ou seja, pretendo propor que a EBC e seus veículos, abram os espaços para as produções independentes que são produzidas nas periferias, esse é o papel da comunicação pública, não somente chegar ao publico, mas oportunizar que os comunicadores alternativos, tenham espaços para divulgar seus conteúdos.
 
Revista Gambiarra: O que falta na mídia brasileira para contemplar verdadeiramente a juventude do país?
 
Enderson Araújo: Acredito que falta espaço, não só para a juventude aparecer como coadjuvante, ou como a juventude de “Malhação”, mas aparecer como protagonistas de histórias, como produtores de conteúdo, mas verdadeiramente de uma maneira mais “escura” e não fantasiosa, onde não nos vemos representados, acredito que o caminho é através da comunicação pública, pois precisamos brigar para mudar o que está posto nas grandes organizações de comunicações, mas antes, precisamos ocupar os espaços que nos pertencem, e a Empresa Brasil de Comunicação, é um desses espaços.