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Clipping

19/04/2014 às 10:00

García Márquez expressou a modernidade da ficção latino-americana na tradição do Prêmio Nobel

Escrito por: Redação
Fonte: Zero Hora - Online

Crítico Flávio Loureiro Chaves fala sobre a obra do autor colombiano

Flávio Loureiro Chaves foi um dos primeiros críticos brasileiros a debruçar-se sobre o realismo mágico e o chamado "boom" da literatura latino-americana que projetou o nome de Gabriel García Márquez como um autor de renome internacional. Em 1973, aos 29 anos, o jovem crítico gaúcho lançou o livro Ficção Latino-americana, que incluía um ensaio sobre Cem Anos de Solidão, publicado seis anos antes. Na entrevista a seguir, o professor aposentado da UFRGS comenta o impacto da chegada de García Márquez ao cenário da literatura ocidental.

Zero Hora - Como foram seus primeiros contatos com a obra de García Márquez?
Flávio Loureiro Chaves - No final dos anos 60, intelectuais do Rio Grande do Sul costumavam ir pelo menos uma vez por ano a Buenos Aires para abastecer-se de novos títulos da literatura mundial. Era o momento da eclosão do "boom" da literatura latino-americana e, via Buenos Aires, líamos no original os autores que estavam projetando a América Latina no cenário da literatura ocidental. García Márquez, nesse contexto, ocupava uma posição solar. Mais tarde, o tradutor de Cem Anos de Solidão (e de muitos outros autores latinos), o pelotense Remy Gorga Filho, teve um papel muito importante na popularização dos escritores latinos. Acumulando as funções de tradutor, crítico literário e editor das páginas de Cultura do Jornal do Brasil, Remy ajudou a apresentar o leitor brasileiro aos autores latinos em evidência naquele momento.

ZH - Como surgiu o conceito de realismo mágico?
Loureiro Chaves - O conceito surgiu, datadamente, em 1949, cunhado por Alejo Carpentier no prefácio de um romance chamado O Reino deste Mundo, em que ele traduz a crônica histórica do Caribe através do maravilhoso. A partir daí, criou-se todo um movimento em que o imaginário e o histórico se cruzam. Embora o realismo mágico tenha sido lançado teoricamente por Carpentier, é Cem Anos de Solidão, em 1967, que cristaliza essa tendência de ler a história da América Latina sob o aspecto do fantástico e do maravilhoso. Pouco antes, em 1966, um chileno chamado Luis Harss é o primeiro autor a reunir todos esses autores, inclusive os brasileiros, no livro Los Nuestros, uma obra de reportagem e crítica que dá nome ao "boom" latino-americano. Ele é o primeiro a fazer esse movimento de síntese que vai tornar o "boom" conhecido.

ZH - Qual a grande contribuição desse grupo de autores para a literatura?
Loureiro Chaves - No chamado realismo mágico, história e literatura são polos complementares e indispensáveis. A fonte de livros como Cem Anos de Solidão, O Outono do Patriarca e O General em seu Labirinto é a realidade histórica da América Latina traduzida na expressão literária, o que vai estabelecer as grandes expressões identitárias da literatura latino-americana dentro da tradição ocidental. Com a fundação de uma cidade imaginária, que é Macondo, García Márquez universaliza todas as grandezas e misérias da história latino-americana. Já em O Outono do Patriarca aparece a figura do tirano, que fixa o protótipo do ditador. Pelo menos essas duas contribuições, a da cidade imaginária e a da figura do tirano, são duas expressões identitárias da América Latina fundamentais que aparecem em García Márquez.

ZH - O que explica o fato de escritores de nações periféricas terem, em determinado momento, chamado tanto a atenção do resto do mundo?
Loureiro Chaves - Eu costumo citar o velho Otto Maria Carpeaux, que tinha uma visão muito original a respeito, exposta em uma nota introdutória à tradução brasileira de O Reino deste Mundo, de Carpentier. Carpeaux diz que a consciência do mundo se desloca em diferentes momentos por diferentes lugares. A consciência do mundo num determinado momento residia na Rússia, com Gorki, Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov. Em outro momento, residia nos Estados Unidos, na chamada "lost generation", a geração de Hemingway, Fitzgerald, Faulkner. Nos anos 1970, a consciência do mundo residia na América Latina, naqueles escritores que sabiam ler a crônica do continente pelas lentes do maravilhoso, do fantástico, traduzido numa determinada expressão simbólica. É um momento de cristalização de tendências que estavam amadurecendo desde o início do século 20, tanto na história quanto na literatura do continente. Quando se fala dos grandes momentos da literatura latino-americana, precisamos lembrar do Caribe do Carpentier, do chaco paraguaio do Roa Bastos, da Bahia de Jorge Amado, do sertão de Graciliano Ramos, do pampa imaginário de Erico. Nesse momento, parece haver uma condensação de fatores que vai colocar a literatura latino-americana como consciência do mundo.

ZH - E o Nobel para García Márquez, em 1982, de alguma forma chancela esse processo.
Chaves - Gabriela Mistral não era mais do que uma mestra-escola, fazendo poesia para comemorações cívicas. Era uma poeta menor. Neruda, sendo um poeta importante, não escapava de um neoparnasianismo muito mais ligado a formas literárias já consagradas e estagnadas. Quem joga a modernidade e expressa a modernidade da ficção latino-americana, dentro da tradição do Nobel, é García Márquez. Essa é a importância do Nobel.