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Clipping

10/07/2007 às 08:34

Gravadoras buscam saídas para crise

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico

O refrão se tornou familiar. Há anos as gravadoras, mencionando a queda das vendas de CDs provocada pela pirataria na internet, vêm reclamando do declínio da indústria fonográfica. Mas, conforme afirmou no mês passado Edgar Bronfman, presidente do conselho de administração da Warner Music, a realidade é mais delicada. 'A indústria da música está crescendo', disse ele em uma conferência a investidores em Nova York. 'A indústria fonográfica não está crescendo.'

De fato. Segundo a Music Managers Forum de Londres, um grupo setorial, há 7 anos os músicos conseguiam dois terços de sua renda, via gravadoras, com os CDs. O terço restante era obtido com shows, merchandising e endorsements (contratos pelos quais os músicos associam seus nomes a determinados produtos ou serviços). Mas atualmente essas proporções se inverteram - alijando as gravadoras das maiores fontes de receita do setor (que vêm crescendo mais rapidamente). Somente na América do Norte as vendas de ingressos para shows passaram de US$ 1,7 bilhão em 2000 para mais de US$ 3,1 bilhões no ano passado, segundo a 'Pollstar', uma revista especializada no segmento.

Gravadoras frustradas estão respondendo tentando fazer seus artistas gastarem mais tempo promovendo discos e menos tempo em turnês e endossando produtos, afirma Jeanne Meyer, da EMI, outra grande gravadora. 'Às vezes você está em um cabo-de-guerra', diz ela. Mesmo assim, quanto mais as gravadoras gastam no marketing nos discos de seu cast, mas elas tornam seus artistas conhecidos e reforçam as outras fontes de renda mais lucrativas destes. Os discos, que não são mais a principal fonte de receita, servem cada vez mais apenas como um instrumento de marketing para camisetas e ingressos de shows. Os melhores lugares para a turnê mundial que o grupo The Police está fazendo custam mais de US$ 900; o catálogo inteiro do grupo em CD sai por menos de US$ 100.

As gravadoras apareceram com um remédio: o 'contrato 360 graus'. Em vez de oferecer um acordo para a gravação e distribuição de um CD, elas estão cada vez mais propondo contratos mais amplos aos artistas, que envolvem música ao vivo, merchandising e endorsement. Esses acordos, também conhecidos como contratos de direitos múltiplos, ou contratos e direitos plenos, são particularmente importantes em regiões onde a pirataria de CDs é grande, como a África, Ásia e América Latina. 'O mercado tornou isso necessário - precisávamos buscar algo mais', diz Manuel Cuevas, um executivo do setor que vive na Cidade do México. Sua companhia, a subsidiária mexicana de uma grande gravadora, decidiu no começo deste ano adotar o modelo 360 graus. 'É uma discussão que se tem com todos os artistas novos agora', diz Meyer, da EMI.

Embora as gravadoras gostem da idéia, os artistas, como era de se esperar, não. Poucos artistas estabelecidos vêm aceitando o modelo de contrato 360 graus. Mas as gravadoras andaram alardeando as exceções, que incluíram Robbie Williams, The Pussycat Dolls e Korn. Segundo os artistas, é mais lucrativo para eles ficarem com as agências especializadas em empresariá-los que, por tradição, sempre levam o trabalho de fomentar carreiras para além do âmbito dasgravações.

No mercado tem-se também que as agências respeitam mais os interesses de seus artistas. As gravadoras, por exemplo, vêm sendo criticadas por obterem os direitos sobre os nomes dos artistas e grupos para uso em endereços da internet. Algumas cláusulas estipulam que a posse do nome se aplica mesmo depois que os contratos vencem ou os artistas morrem. Isso pode impedir músicos de lançarem sites na internet para promover turnês, vender merchandising e se comunicar com os fãs da maneira que eles acham mais adequado. 'As gravadoras não proporcionam a muitos artistas um tratamento caloroso', diz Gary Bongiovanni, editor da 'Pollstar'.

Músicos com bases de fãs pequenas e pouca experiência nos negócios são muito mais receptivos à idéia dos contratos 360 graus. O número de artistas aspirantes é sempre muito grande e alguns se tornarão grandes nomes. Juha Ruusunen, fundador da TWU, uma pequena firma de agenciamento de bandas de heavy-metal com sede em Jyväskylä, na Finlândia, diz que as gravadoras européias começaram a contratar novos talentos com contratos 360 graus. Com as gravadoras se tornando mais agressivas no campo de agenciamento de artistas, Ruusunen teme que sua agência possa ter dificuldades para competir no mercado.

Formar um cast de talentos sob contratos 360 graus, com um contrato por vez, é um processo lento. É mais rápido para as gravadoras comprar empresas de agenciamento de artistas. Nomês passado, a Universal Music fez uma oferta de 104 milhões de libras (US$ 205 milhões) pelo selo Sanctuary do Reino Unido, que passa por problemas e tem um braço de agenciamento que representa músicos que incluem Elton John e Robert Plant. A Sanctuary também possui duas outras companhias deagenciamento de artistas e administra a Bravado, uma operação de merchandising. Os acionistas da Sanctuary vão decidir este mês se aceitam ou não a proposta da Universal, considerada generosa.

De sua parte, a Warner Music vem demonstrando interesse na Front Line Management, uma das maiores agências dos Estados Unidos. E no mês passado a Warner anunciou a formação da Brand Asset Group, uma joint venture de agenciamento de artistas com a Violator Management, uma empresa que negocia papéis para rappers no cinema, propagandas, videogames e programas de TV, além de licenciar seus nomes e imagens para promover bebidas, livros e roupas. Seus clientes incluem 50 Cent, Diddy e Busta Rhymes.

O afastamento da música gravada se deve em parte ao reconhecimento de que as turnês e o merchandising são mais lucrativos. Mas também pode ser conseqüência da pirataria na internet, uma vez que os downloads gratuitos deixam os fãs com mais dinheiro para ser gasto em outras coisas. Jwana Godinho, diretor da Música no Coração, uma promotora de concertos de Lisboa, acredita que muitos amantes da música têm um 'orçamento mental', com o qual estão preparados para gastar em música, e eles transferiram os gastos com a compra de CDs para os ingressos de shows e merchandising.

A conclusão lógica é que os artistas precisam ceder sua música como um instrumento promocional. Alguns estão fazendo justamente isso. Na semana passada, Princeanunciou que seu novo álbum, 'Planet Earth', será distribuído gratuitamente no Reino Unido com o jornal 'Mail on Sunday', em 15 de julho. (Durante anos Prince fez muito mais dinheiro com performances ao vivo do que com a venda de discos; ele foi o artista que mais ganhou dinheiro no setor em 2004.) Ultrajadas, as companhias varejistas de música do Reino Unido rapidamente condenaram a idéia. No que diz respeito à indústria fonográfica, isso é uma loucura. Mas para a indústria da música, poderá muito bem ser o modelo do que está por vir.