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Clipping

03/11/2015 às 15:13

'Jornalismo é expor abuso de poder', diz Nick Davies, que derrubou o 'News of the World'

Escrito por: Gabriela Ferigato e Jéssica Oliveira
Fonte: Portal Imprensa

Com quase 170 anos de atividade, o tabloide britânico News of the World, até então o dominical mais vendido da Grã-Bretanha, fechou em 2011. O motivo continua fresco na memória. Desde 2006, o jornal administrado pelo magnata Rupert Murdoch, estava envolvido em casos de escutas telefônicas ilegais. Cerca de três mil pessoas foram vítimas da publicação.
 
As reportagens investigativas de Nick Davies, do The Guardian, mostraram o envolvimento de jornalistas,  agentes policiais e políticos, acusados de colaborar com o esquema. O resultado foi o fechamento do tabloide, quase duzentas demissões e uma inimizade com Murdoch.
 
O magnata mal sabe que toda a empreitada e esforço de Davies é “culpa de sua mãe”. Filho mais velho de sete irmãos, o repórter conta que havia muita violência em casa. Com quase quarenta anos de profissão, olha para trás e vê que várias vezes tem repetido um padrão: impedir que pessoas poderosas abusem do próprio poder. “Como um adulto machucando uma criança”. 
 
“Podemos dizer que Murdoch é o homem mais poderoso do mundo. E abusa do poder. Acho que ele pensa que escrevi sobre ele por algum motivo político, porque sou de esquerda e ele não. Mas ele não entende que é tudo culpa da minha mãe”, diz Davies.
 
Freelancer do Guardian desde 1979, hoje o jornalista faz entre quatro e seis matérias por ano e é livre para recusar uma história caso não ache a pauta interessante. A aposta do veículo é fazer “long reads” [longas leituras, na tradução literal]. A última feita por Davies começou por acaso. 
 
Ao avistar um senhor em sua cidade [Lewes] que “parecia um fazendeiro do século 18” resolveu acompanhá-lo em sua caminhada. Quase como um guardião do rio Ouse há mais de cinquenta anos, Jim Smith é aposentado, mas ainda zela pelo local. 
 
Certo dia, ao chegar no topo do rio, perceberam que estava seco. O que era uma curiosidade se tornou uma reportagem sobre mudança de clima e a Inglaterra que, famosa por suas chuvas, tem regiões mais secas do que países como Marrocos ou Egito.
 
Em sua primeira visita ao Brasil, Nick Davies recebeu a reportagem de IMPRENSA em São Paulo e falou sobre seu método de trabalho, as mudanças no jornalismo, o News of the World e o caso WikiLeaks, outra história que veio à tona por suas mãos. Confira a entrevista:
 
IMPRENSA - Colegas te descrevem como um jornalista que não desiste da pauta. É verdade?
Nick Davies - Acho que muitos jornalistas investigativos são guiados por uma necessidade emocional. Cresci com seis irmãos e em nossa casa tinha muita violência de nossa mãe. Ela era “quase” uma mulher maravilhosa, mas violenta. Eu tive mais sorte, porque éramos de classe média e na Inglaterra o filho mais velho é mandado a um internato. Lá eles nos batiam com um bastão, mas só se você quebrasse uma regra. Então era esperado. Em casa, não. Mas sobrevivi e me tornei jornalista. Olho para trás e vejo que tenho repetido um padrão. 
 
Qual seria?
Impedir que pessoas poderosas abusem do próprio poder. Como um adulto machucando uma criança. Meu primeiro livro [“White Lies”] é sobre um homem negro no Texas que foi condenado à morte por um crime que não cometeu. Uma definição de jornalismo que é expor abusos de poder. Podemos dizer que Rupert Murdoch é o homem mais poderoso do mundo. E abusa do poder. Acho que ele pensa que escrevi sobre ele por algum motivo político, porque sou de esquerda e ele não. Mas ele não entende que é tudo culpa da minha mãe.
 
Você foi ameaçado durante a apuração do News of the World?
Murdoch e seu pessoal não cometem violência física, e sim à reputação. Os grampos ilegais foram expostos por um grupo. Sabemos que a empresa de Murdoch começou uma investigação para perseguir algumas dessas pessoas. Gravavam com uma câmera secreta, tentando flagrá-los fazendo sexo com quem não fossem suas respectivas esposas. Se achassem isso poderiam publicar e humilhá-los. Fui alertado de que Murdoch estava pesquisando minha vida pessoal. O Daily Mail fez uma matéria de três páginas, falando que sou inimigo da imprensa livre. 
 
Por que Julian Assange atraiu a sua atenção?
A Reuters produziu uma história em junho de 2010 e muitos jornais publicaram. Dizia que os americanos prenderam um de seus soldados, Bradley Manning, e acusaram-no de ter entregado segredos a esse australiano, Julian Assange. Quando li me senti irritado. Por que o Guardian está colocando isso no jornal quando a história não é “soldado americano é preso” e sim “grande quantidade de segredos está solta por aí, provavelmente na mão desse homem”. Se voltarmos para a ideia de que o jornalismo é expor abuso de poder, esse material pode ajudar a fazer isso.
 
Em uma entrevista, o Assange afirmou que Google, Facebook e Amazon formam “um império de vigilância”. Você concorda?
Acho que isso é um pouco exagerado, mas não gosto da habilidade do Google e Facebook em invadir a nossa privacidade e descobrir tanto sobre nós. Eles estão muitos gananciosos pelas nossas informações e dados. Querem abusar desses dados com propósitos comerciais, mas isso tem se tornado político. Agora sabemos por causa de Edward Snowden. Pode-se imaginar o mundo no futuro em que um governo totalitário poderia dizer “agora temos total poder sobre a sociedade. Vamos usar essas informações eletrônicas para detectar quem não concorda com nossas políticas. E vamos pegá-los e matá-los”. Aconteceu no Brasil, na ditadura. Ou na Europa, com o nazismo. Algo comum aqui é [proteger] a privacidade: contra o News of the World, o governo, empresas comerciais. Precisamos proteger mais nossos dados do que antes.
 
Você anota ou grava suas entrevistas?
Uso ferramentas antigas: um caderno e uma caneta. E shorthand – taquigrafia, na tradução literal – para escrever muito rápido. Na Inglaterra, jornalistas sempre aprenderam como usar isso. É como um código. Eu fazia jornalismo de tevê, e se você apontar a câmera para alguém, perde 25% do que ia dizer. E com muitas pessoas, se coloca um gravador perde 10%. Se alguém for dizer algo muito delicado, você põe a caneta para baixo e ele se sentirá seguro.
 
Pessoas dizem que você é o melhor jornalista britânico hoje. O que acha?
Não gosto desse título. Trabalho com o Guardian, não estou sozinho. E isso faz diferença. Se alguém me processar, o advogado do Guardian cuidará disso; se eu precisar de ajuda para checar fatos, alguém do Guardian fará isso; tenho um editor que me protege... Não faria nada sem eles. Outros jornalistas arriscam suas vidas, indo a zonas de guerra. Eles são os melhores.
 
Como o Guardian tem enfrentado a crise no jornalismo?
Ele pertence a um grupo gestor de outros negócios que rendem dinheiro, e que podemos usar para apoiar o jornal. Nós vendemos algumas revistas do grupo por muito dinheiro, e sabíamos que essa venda iria sustentar o Guardian por 10 ou 15 anos. Esperamos achar soluções para o problema, mas no momento ninguém tem. Colocaram paywall nos sites, e até onde eu sei isso tem sido um desastre. Os leitores se vão e a publicidade com eles. A ideia do Guardian é o contrário, damos as notícias: “Tenham acesso, por favor não paguem”. Tentamos ganhar dinheiro com outras atividades. Temos algo chamado Guardian Soulmates, baseado na ideia de que os nossos leitores são os mais românticos. Eles pagam talvez 25 libras por mês para conhecer outros leitores. Temos um blog para quem faz cooper de manhã, acho que Nike patrocina...
 
E por que o Guardian tem apostado em longas reportagens?
No começo, quando a internet nos “atacou”, vimos que estávamos perdendo leitores e publicidade. Então começamos a perder dinheiro. Não podíamos bancar investigações, paramos isso; não podíamos mandar pessoas ao redor do mundo, paramos isso. Os anos passaram e descobrimos que isso está errado. Se quer atrair as pessoas para o seu site, deve fazer coisas únicas. Descobrimos isso por acidente, fazendo a história dos grampos de telefone e o WikiLeaks. Era algo exclusivo do Guardian e o mundo todo veio ao nosso website. Nove meses depois começamos a fazer long reads - longas leituras de seis mil palavras. Talvez 1 ou 2% de leitores leem essas matérias, mas pensam “uau, agora eu realmente entendo o assunto”. 
 
Qual foi a última?
Eu moro em uma cidade pequena, chamada Lewes. Nas ruas notei um homem que parecia estranho, vindo de duzentos anos atrás, um fazendeiro do século 18. Nunca vi um homem como esse. Descobri que ele tem 70 anos e cuida do rio. Pensei “é um homem interessante”. Perguntei se podia andar com ele, quando fosse até o rio. É um homem muito legal, sabe tudo sobre a natureza. Eu olho para o chão e vejo rosa e amarelo, ele vê um cubo que pode ser usado para curar doenças. Um dia, quando fomos ao topo do rio, não tinha água, estava seco. Isso se tornou uma história sobre mudança de clima. A Inglaterra é famosa pela sua chuva e estamos esgotando a nossa água. Descobri documentos oficiais que ninguém se importou em ler. Tem uma agência do governo que disse que em partes da Inglaterra tem menos água por pessoa do que em Marrocos ou Egito, que são países do deserto.
 
Você disse que Bob Woodward e Carl Bernstein te inspiraram no jornalismo. Por quê?
Por causa da cobertura do Watergate. Era um forte momento político. Vários intelectuais e políticos na Europa acreditaram que seria uma revolução de orientação esquerda. Na América Latina tinham grupos de esquerda lutando fisicamente contra a ditadura. Quando deixei a faculdade, achei que faria parte dessa revolução. Mas foi fantasia. Não falava espanhol ou português, nunca segurei uma arma... Foi quando o Watergate aconteceu e essa política poderosa e corrupta quebrou por causa de duas pessoas que só usaram um papel e uma caneta. Isso foi um jeito muito mais realista de expor abuso de poder. Quase 40 anos depois, em julho de 2011, quando a história das escutas de telefone eclodiu, estava em casa e meu telefone tocou. Era uma voz americana, muito profunda: “Aqui é Carl Bernstein. Eu só queria dizer... bom trabalho!”. Isso me fez quase chorar.