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Clipping

19/04/2014 às 13:12

Jornalista escreve sobre a juventude na era da ditadura militar

Escrito por: Redação
Fonte: Correio da Bahia

Qualquer Maneira de Amar conta a história de Mauro, com linguagem leve e bem-humorada

O histórico de lutas por uma sociedade melhor mostra que, à sombra da linha de frente, sempre tem um grupo ativo e ligeiramente invisível na defesa das boas causas. Não menos importantes do que os mais vulneráveis à primeira pedra, encontram-se os amigos. Também conhecidos como simpatizantes.

Agora que o golpe de 1964 completa 50 anos, esse grupo de pessoas inspira Qualquer Maneira de Amar - Um Romance à Sombra da Ditadura (Ponteio/R$  44/253 págs.), do jornalista e roteirista carioca Marcus Veras, 62. Vencedor do Prêmio Guimarães Rosa (MG) com o livro de contos A Cidade Arde, em 1986, ele lança seu primeiro romance.

Marcus Veras lança Qualquer Maneira de Amar - Um Romance à Sombra da Ditadura, com elementos autobiográficos de quem cresceu nos anos 60 (Foto: Belinha Almendra/Divulgação)

"A literatura brasileira tem obras maravilhosas de guerrilheiros diretamente ligados à luta armada. Queria falar do ponto de vista de quem era amigo, simpatizante e sofria riscos como os outros", explica o autor. Marcus já atuou na imprensa alternativa (Rádice, Flagrante Livre, Correio da Manhã) e na grande mídia (TV Globo, TVE, Jornal do Brasil, GNT, Globo Esporte online).

Qualquer Maneira de Amar conta a história de Mauro, com linguagem leve e bem-humorada. Nascido no Rio de Janeiro, o garoto cresceu em meio aos acontecimentos políticos dos anos 60 - fora e dentro de casa, já que o pai é militante do PTB.

Mas, ao contrário da maioria dos jovens da época, ele tinha outros interesses. Seu envolvimento na política, na década de 1970, aconteceu de forma mais indireta e sutil do que sua iniciação no amor, no sexo e nas drogas. "Ele até tem problemas com alguns da esquerda que achavam ele um desbundado, drogado e burguês", ressalta Marcus.

Assim, "sem atos de bravura no currículo, mas intenso na luta para crescer e virar homem", o protagonista mostra outra juventude da época. "A nova geração não vinculada diretamente à luta armada começa a militar de outro jeito. Tenta descobrir outras formas de viver e amar. Um caminho de aprendizado muito interessante e forte", diz.

Autobiográfico  
A história é contada de duas formas, intercaladas. Uma delas é no passado, narrado em primeira pessoa, e a outra refere-se à fase adulta, com narrador onisciente em terceira pessoa. Nessa é mostrado um Mauro advogado de 64 anos que passa dificuldades para escrever. Qualquer semelhança com o real não é mera coincidência. "Tem muitas coisas autobiográficas, mas trabalhei em cima delas", esclarece o autor. "Como em qualquer arte, o escritor parte da própria experiência para usar como lente da sua obra", completa. Marcus ressalta dois momentos reais do livro.

O primeiro, em 1964, quando os padres do colégio onde estudava o obrigaram a participar da marcha em repúdio aos comunistas. O outro sobre a "convivência incrível" de 12 dias com o jornalista Thomaz Antonio Meirelles, torturado e assasinado em 1974.

A literatura tem obras maravilhosas de guerrilheiros. Queria falar do ponto de vista de quem era amigo, simpatizante

A atividade jornalística do autor também influenciou a obra de duas maneiras. Primeiro na linguagem, como "lixa para os excessos": "O jornal te obrigada a limar um pouco o bordado, o floreio e ficamos com uma linguagem mais direta", explica.

Depois nos títulos de cada capítulo, com referências musicais, já que Marcus iniciou a carreira jornalística escrevendo sobre música. Ele cita nomes como Jards Macalé, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Os Novos Baianos. "Nesse período, a arte foi maravilhosa, simplesmente gloriosa e serve de exemplo até hoje", diz sobre uma das poucas coisas boas da ditadura, segundo ele.

Outro ponto bom da época, para o autor, foi que o "período forjou que a democracia imperasse". "Fora dela, não tinha como o país crescer. A utopia faz a gente caminhar. Aprendemos com nossos erros. Hoje, a gente sabe que, por mais complexa que seja a política, não há outra saída".