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Clipping

26/04/2007 às 08:19

Lobão sela as pazes com a indústria

Escrito por: Redação
Fonte: Estado de São Paulo

Vamos fazer uso aqui da licença poética com o programa Irritando Fernanda Young, da GNT, e criar uma versão com nosso entrevistado, numa espécie de Irritando Lobão. O homem que, nos últimos sete anos de cena independente, combateu o jabá nas rádios e levantou algumas bandeiras, como da numeração dos CDs, está irritado com o que andam falando a seu respeito depois que ele participou do Acústico MTV, lançado em CD e DVD pela Sony BMG, e vai virar turnê (em São Paulo, apresenta-se no dia 25 de maio).

Andam dizendo por aí que Lobão está 'pagando pau' para a MTV, que virou a casaca, que jogou na gaveta seu discurso contra a indústria fonográfica para se render a ela de novo. O músico defende-se, esperneia, argumenta. Não admite a pecha de contraditório. 'Não sou o Paulo Ricardo pedindo desculpas, não estou fazendo isso. A gravadora sabe do que estou falando, ela me deu liberdade paraagir artisticamente, escolher o repertório e as pessoas com quem trabalhei', diz. 'Se eu fosse um bunda-mole, faria um disco Acústico só com sucessos. Aí, pronto, eu seria um cara contraditório. Só que eu consigo pegar um projeto desse e ainda colocar 11 músicas desconhecidíssimas, e a música de trabalho é virtualmente inédita, a Vou te Levar.'

Explica-se o termo 'virtualmente inédita': é que Vou te Levar fez parte do CD A Vida É Doce, lançado nas bancas em 1999. E como integrava o primeiro trabalho independente de Lobão, é bem provável que a canção seja desconhecida por muitas pessoas até hoje. No Acústico, privilegia outras composições de seus discos independentes, como Você e a Noite Escura e A Vida É Doce, que compartilham o projeto desplugado ao lado de coisas mais conhecidas, como Décadence Avec Élégance e Essa Noite, não. Tirou do baú empoeirado Bambina (originalmente gravada como Bambino, na década de 80).

Nesses anos todos vivendo à margem da mainstream, o compositor percebeu que a cena dos independentes não comportava um artista como ele, dono de uma obra com tantos sucessos. Deu-se conta de que vendeu muitas cópias de seus trabalhos indie, mas que houve pouco eco, pouco escoamento. A ponto de ser abordado por gente na rua, que lhe perguntava se ele estava parado. Questionavam-no sobre novas obras (no caso, a ausência delas) justamente num período que ele considera o mais produtivo em sua carreira de compositor. Foi uma fase em que ele acredita ter crescido como músico e aprendido todos os meandros da produção de um disco.

'Quem está me divulgando, quem é o bonzinho que está dizendo que meu disco é genial? Se eu não fizer nada por mim, ninguém vai fazer', desabafa. 'As pessoas também esquecem que sou um artista, minha intenção principal é mostrar meu trabalho.' Ele não suporta imaginar que sua produção construída nesse período tenha sido suplantada pela fama de falastrão. E olha que Lobão já precisou lidar com toda a sorte de famas em três décadas de estrada.Já foi chamado de maconheiro, encrenqueiro, maldito, até evangélico. Já foi elogiado por bispo num supermercado - que enxergou em algumas de suas letras uma pregação contra vícios pecaminosos - e viu despencar em um de seus shows várias caravanas de evangélicos.

Lobão tambémabomina a idéia de se passar por vítima. Prefere deixar esse papel para os compositores de uma corrente da MPB, que o compositor sempre repudiou em público e os chama, não muito lisonjeiramente, de 'beterrabas transgênicas'. 'Eu não sou dessa laia. Sou predador, não sou a presa', enfatiza ele, fazendo a linha, com o perdão do trocadilho mais do que infame e batido, lobo em pele de cordeiro. 'Temos o culto à vítima, ao derrotado no Brasil. 'Ah, ele é amaldiçoado porque está se dando bem.' Essa é a mentalidade mórbida do brasileiro.'

Mas se hoje Lobão diz cobras e lagartos sobre o governo Lula (que ele chegou a apoiar publicamente em outros tempos) e pensa até em deixar o País, o mesmo Lobão parece pegar mais leve com jabás nas rádios e com a própria indústria fonográfica. 'Apoiei o PT. Depois de tudo isso que aconteceu, como vou pedir para o PT, que mais paga jabá: 'Olha, você criminaliza o jabá nas rádios?' Sinceramente, não estou com animação', afirma. 'As rádios têm um sistema de arrecadação publicitária deficitária. Então, se cortar simplesmente essa fonte de jabás, elas vão falir.'

Com esse Acústico, o músico acredita que esteja fechando um ciclo da carreira, para dar início a outro. Sem sinais de arrependimentos. Coincidentemente, em outubro, o compositor completa 50 anos. Por uma infelicidade do destino, no mesmo dia 11 associado ao dia da morte de Renato Russo. Como será esse ciclo? Lobão ainda nãosabe ao certo, nem mesmo musicalmente falando. Se ele continuará no limbo da música brasileira, também é uma incógnita. Afinal, em shows de rock, ele leva lata porque dizem que faz MPB e em show de MPB, ele leva lata porque acham que é roqueiro. Recebe alfinetadas dos independentes, porque ovêem como da mainstream e a contrapartida do pessoal da mainstream é a mesma: tacham-no de músico independente.

Para qualquer outro mortal, isso poderia desencadear uma crise de identidade. Lobão, claro, tira sarro disso tudo e se vê bem na situação. 'Na MPB, não conheço um caracom essa polarização de fazer um rock mais heavy metal a um samba-canção mais Paulinho da Viola. Faço tudo isso. Quando falo da MPB com ódio, é com amor, porque quero mudar essa mentalidade.'

De bem com a nova geração que encabeça as gravadoras, Lobão finalmente está numa situação mais confortável do que não muito tempo atrás, quando tinha 90% da indústria torcendo o nariz para ele. Recebeu vários convites de outras gravadoras, até fechar com a Sony-BMG. Por meio dessa parceira, ele vai conseguir ainda relançar sua discografia numa caixa comemorativa, que, segundo ele, não deixará de fora sua tão polêmica fase independente.