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Clipping

16/03/2018 às 18:28

Mãe Juju, o Estadão e a intolerância religiosa alimentada pela mídia

Escrito por: Pai Rodney
Fonte: Carta Capital

Informações falsas, fatos não comprovados, deturpações: métodos para assassinar reputações

Quando o assunto é candomblé ou qualquer outra religião de matriz africana, há uma parte da mídia que faz questão de ser tendenciosa. Nos últimos dias, o jornal O Estado de S. Paulo tem denunciado algumas irregularidades no gabinete de uma deputada estadual, mais especificamente repasse de salários e contratação de funcionários fantasmas.
 
A questão é mais profunda do que parece e tem a ver com problemas há muito arraigados na sociedade brasileira, como nos mostra o jornalista Felipe Brito, mestre em políticas públicas e omorixá do Ilê Maroketu Axé Oxum: “Pensar-se pertencente a uma classe, a um grupo, a uma comunidade com anseios e principalmente necessidades de representação política requer sentimento coletivo, de integração, ainda mais quando fazer-se representado tem como desafio vencer obstáculos estruturais como o racismo.”
 
Como bem sabemos, é parte do trabalho da mídia denunciar e apurar fatos que podem, inclusive, colaborar com as investigações do Ministério Público. Contudo, o desdobramento da reportagem expôs de maneira leviana uma decana do candomblé de São Paulo. Mãe Juju é ialorixá do Ilê Maroketu Axé Oxum e filha consanguínea de Pai Nezinho de Ogum, um dos nomes mais importantes da história das religiões afro-brasileiras.
 
“Fui iniciada na roça da Muritiba, Ibecê Alaketu Axé Ogum Megêge, casa de papai, pela minha Mãe Menininha do Gantois” conta Mãe Juju. Vale lembrar que Mãe Menininha se deslocava do bairro da Federação, na capital baiana, até a roça da Muritiba para celebrar os festejos em homenagem a Ogum, completa Brito.
 
Atualmente, a ialorixá exerce a função de assistente parlamentar V no mandato da deputada Clélia Gomes, primeira e única mãe de santo eleita da Assembleia Legislativa de São Paulo, com uma atuação importante no combate à intolerância religiosa e defesa das comunidades tradicionais de terreiro.
 
Entre os questionamentos e as insinuações feitos pelo jornal sobre a nomeação de Mãe Juju, pesa a acusação de que seria uma funcionária fantasma, pelo fato de não trabalhar diretamente na Assembleia Legislativa.
 
Com um pouco mais de cuidado, o jornalista teria consultado a Lei Complementar n° 1.136/2011, que dispõe sobre a estrutura pessoal dos gabinetes, e veria que os ocupantes de cargos em comissão de assistente parlamentar, de acordo com o artigo 4°, terão exercício na assembleia ou no escritório de representação do deputado, ou seja, a jornada de trabalho desses funcionários, conforme o artigo 8°, será de 40 horas semanais, que podem ser cumpridas em outro local, de acordo com a determinação do titular do gabinete.
 
A nomeação de Mãe Juju não só obedece à legislação, como está em consonância com as bandeiras levantadas pela deputada ainda em sua campanha. Diante do quadro gravíssimo de intolerância e racismo religioso, parece coerente que um mandato que se propõe a defender as comunidades tradicionais de terreiro tenha uma mãe de santo como assessora.
 
“Mãe Juju é uma das principais responsáveis pela existência e manutenção deste mandato, não somente por ter acreditado na filha de santo Clélia Gomes, mas no projeto político que meu mandato representa”, esclarece a deputada.
 
Mãe Juju, do alto de seus 80 anos, com saúde plena, está mais do que credenciada. Ao insinuar que um idoso não estaria apto para a função, o jornal, além de não considerar a quantidade de parlamentares ainda mais velhos, só mostra o quanto desconhece a rotina e a história dos terreiros.
 
Velhice não é doença, mas uma condição humana. Além disso, “é no seio dos terreiros de candomblé que são aceitas historicamente as minorias de representação social, os invisíveis, com todas as dificuldades e incoerências de se resistir como religião e cultura negra ao peso aniquilador de um pensamento eurocêntrico e cristão”, afirma Brito.
 
No candomblé, a prerrogativa é dos mais velhos, portanto não haveria alguém mais adequado para exercer o cargo. Aliás, muitos pais e mães de santo seguem empunhando bandeiras de luta, militando em causas sociais, prestando assistência a suas comunidades sem nenhum tipo de remuneração ou reconhecimento. É o caso de Mãe Juju, uma referência religiosa em São Paulo e no Brasil, uma filha de nobre linhagem, cujo terreiro está instalado há mais de 40 anos no mesmo local.
 
Ela tem sido uma mãe não só para seus filhos e filhas de santo espalhados pelo Brasil e pelo mundo, mas para todo entorno daquele bairro tão carente da Zona Leste de São Paulo. Nesses anos todos de sacerdócio, Mãe Juju, assim como muitos babalorixás e ialorixás, matou a fome de muita gente, deu dinheiro de condução a muito pai de família, tirou muitos jovens da criminalidade.
 
Para Brito, por ser uma religião de tradição africana, que acolhe a população LGBTQ, recebe e reforça os laços de amor como vínculo que estabelece a formação do núcleo familiar de maneira expandida, diferente daquilo que defende o pensamento conservador, o candomblé valoriza as relações de afeto em todas as suas esferas, especialmente as norteadas pelo sagrado ancestral e divinizado.
 
“Uma religião comandada e reorganizada no Brasil com o pilar fundamental do matriarcado, na sabedoria e sagacidade de mulheres negras, faz das comunidades de terreiro o contraponto inegável ao pensamento conservador da branquitude heteronormativa e meritocrática”, esclarece.
 
A mídia desconhece o trabalho social informal dos terreiros e se ressente quando de alguma forma essa tarefa passa a ser institucionalizada e remunerada. As acusações que pesam sobre o mandato da deputada Clélia não são novidade na Alesp, outros tantos deputados também estão sob investigação, mas a velha imprensa fez questão de jogar seus holofotes na “deputada macumbeira”, fazendo da “mãe de santo assessora parlamentar” a síntese dos problemas de corrupção do País.
 
O jornal só se esqueceu de mencionar a quantidade de pastores que exercem essa função nas mesmas condições, bem como o sem-número de emendas parlamentares que beneficiam projetos de igrejas evangélicas. Mas candomblé não pode, se for pra comunidade negra não pode, se for pra combater a intolerância religiosa não pode. Assim, o racismo institucional vai se perpetuando e mantendo as coisas no seu “devido lugar”.
 
Para Brito, é necessária a organização política das comunidades de terreiro com o sentido de resgate da consciência racial. “Destituir nossa identidade e memória negra com estratégias racistas estruturais e institucionais, em decorrência do avanço do projeto eleitoral de poder fundamentalista cristão no Brasil, é um eficaz instrumento no processo de combate ao potencial das comunidades de terreiro como núcleos de insurgência racial, de questionamento e abalo direto do status quo segregador existente em nosso País”.