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Clipping

04/06/2012 às 02:21

Máquinas 'cochicham' sobre novos negócios

Escrito por: Ivone Santana
Fonte: Valor Online

Pode parecer ficção científica, mas muitas máquinas que estão ao seu redor conversam entre si. Não se trata, claro, de um bate-papo compreensível aos seres humanos. Os sons emitidos lembram mais os ruídos feitos pelo pequeno robô R2D2 na série de cinema "Star Wars", ou simplesmente são inaudíveis.

Na verdade, essas máquinas usam um chip de celular que, combinado a aplicativos, permite a comunicação conhecida como "machine-to-machine", ou apenas M2M. Os princípios e mecanismos que sustentam esse tipo de comunicação - também apelidada de "internet das coisas" - já existem há algum tempo, mas sua evolução recente tem dado origem a produtos e serviços cada vez mais populares, e que não exigem intervenção humana.

As aplicações vão desde rastrear veículos até fazer a medição digital do consumo de energia elétrica, gás e água. Até por conta de sua utilização ainda restrita, a tendência é que o M2M cresça mais rapidamente que o restante das telecomunicações móveis no Brasil, com expectativa de atingir 3,7% do mercado de assinaturas de serviços móveis em 2016, segundo estudo da consultoria Europraxis, divulgado pelo Valor com exclusividade. Na "internet das coisas", cada assinatura de serviço equivale a um chip.

Atualmente, existem mais de 5 milhões de assinaturas na América Latina, das quais, cerca de 4 milhões só no Brasil, segundo estimativa de operadoras e da Europraxis, que atua na Europa e América Latina. O estudo toma por base uma pesquisa da Pyramid Research, que projeta 25 milhões de assinaturas M2M na América Latina em 2016, com receita próxima de US$ 350 milhões. Em âmbito mundial, a receita estimada para esse período é de US$ 7 bilhões, o equivalente a 1,4% da receita mundial de dados.

Estudos internacionais indicam que entre 2022 e 2025 as assinaturas de M2M vão ultrapassar as de voz e dados. Especialistas consultados pelo Valor disseram que o mercado dobra a cada dois anos, uma tendência praticamente irreversível, considerando o número crescente de equipamentos eletroeletrônicos, veículos e sistemas essenciais conectados. Por esse raciocínio, nos próximos anos cada habitante terá quatro ou mais itens comunicando-se remota e automaticamente. Isso multiplicará o mercado de M2M em relação ao de voz por celular, que geralmente conta com um, ou no máximo dois, chips por usuário.

A tecnologia abre um leque de negócios para as operadoras móveis, que podem ter um papel mais significativo na cadeia de valor, além de simplesmente prover a rede de acesso para as empresas que prestam serviços Aplicações da chamada M2M incluem desde rastreamento de veículos até medição digital de água e luz Pelo modelo tradicional, as teles oferecem a infraestrutura, mas a conectividade e o relacionamento com o cliente ficam sob a responsabilidade de um parceiro especializado em M2M ou de uma operadora móvel de rede virtual (MVNO), explicou ao Valor o diretor executivo da Europraxis, Frederico Barbosa.

Uma opção para as operadoras, segundo ele, é estabelecer parcerias e assumir tarefas como ativar contas, fazer cobrança e dar suporte técnico, entre outros. Para o diretor da Europraxis, as teles estão em posição vantajosa para a oferta do serviço em relação a outros integrantes da cadeia de valor, porque contam com amplas áreas de cobertura e acordos de roaming, base de clientes, pacotes combinados, parcerias estabelecidas e a possibilidade de prover acesso em alta velocidade para aplicações específicas.

Com as receitas do serviço de voz em declínio frente à de dados, que vem crescendo nos últimos anos, abrir uma nova frente de negócios pode ser uma garantia de ganhos futuros para as teles. A Telefônica/Vivo foi a operadora que fechou 2011 com maior participação de dados na receita - 25% - entre as quatro maiores teles do país. Na sequência vieram a Claro, com 19%, a TIM e a Oi, cada qual com 16%. O restante das receitas provém de voz. Em todas elas, as receitas com dados têm crescido desde 2009, enquanto cai a participação do serviço de voz. Quanto mais usuários trocam os antigos celulares por smartphones e contratam planos de acesso à internet em banda larga em terceira geração (3G), maior serão o tráfego e a receita de dados.

Por enquanto, a base M2M é irrisória no Brasil. Em abril foram registrados mais de 253 milhões de celulares no país, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o que faz dos 4 milhões de chips M2M existentes um aperitivo para as companhias. Mas, não é difícil entender o empenho nessa nova linha de negócios. Há 129 celulares para cada 100 brasileiros. Na Argentina, as teles encerraram 2011 com densidade de 140,2 aparelhos por 100 habitantes; na Venezuela, com 98,3; e no México, com 84,2, segundo a consultoria Teleco. Sob essas proporções, a venda de celulares para novos usuários no Brasil e na Argentina tende a se desacelerar. Assim, o próximo veio a ser explorado é o das máquinas. noticia_creditos".