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Clipping

04/10/2013 às 00:32

Mercado tem dúvidas sobre sinergia em fusão de teles

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

A nova empresa que nasce da fusão entre Oi e Portugal Telecom será uma operadora melhor do que a atual, mas ainda está longe de mostrar quais benefícios serão conquistados a partir da união. Esse é o consenso dos analistas ouvidos pelo Valor. Existem dúvidas a respeito do potencial das sinergias geradas a partir de uma administração única, e os investidores não estariam convencidos de que vale a pena, literalmente, pagar para ver.

As dúvidas do mercado geraram forte queda nas ações preferenciais da Oi, que encerraram o pregão de ontem com recuo de 13,29%, para R$ 3,85. "As ações devolveram mais do que subiram no dia do anúncio", disse um analista, que prefere não se identificar. Na quarta-feira, os papéis da empresa valorizaram 5,21%, para R$ 4,44, mas chegaram a subir 10% ao longo do pregão.

Na Bolsa de Lisboa, as ações da Portugal Telecom caíram 3,78% ontem, para ? 3,48.

Analistas de mercado consultados pelo Valor na quarta-feira já alertavam para a possibilidade de perdas das ações da Oi no pregão de ontem. As valorizações no dia do anúncio teriam sido impulsionadas, também, pela desmontagem de posições "vendidas" de investidores.

Para esse analista, a operação só será fechada se os minoritários concordarem em aplicar R$ 5 bilhões na companhia, para garantir o aumento de capital de R$ 7 bilhões - os outros R$ 2 bilhões viriam dos controladores da Oi e do BTG Pactual. "A Oi já não permite mais o benefício da dúvida, o mercado já apostou tudo o que podia apostar na empresa", afirmou. Para esse analista, as dívidas que estavam atreladas às empresas do grupo - Telemar Part, AG Telecom, LF Telecom -, que somam R$ 4,5 bilhões, continuam sendo o problema da "nova Oi".

Na opinião de Henrique Florentino, da Um Investimentos, a fusão não vai trazer alívio para a alavancagem da companhia. "É certo que a nova empresa resultante da fusão vai apresentar uma melhor capacidade de gerenciamento, a partir da ampliação da presença dos portugueses no comando da operadora", afirmou. "Mas tem como quantificar isso, e a nossa posição, no momento, é de cautela", disse.

As dúvidas sobre as potenciais sinergias geradas a partir da fusão fizeram com que parte dos bancos de investimento, como o J. P. Morgan, o Santander e o Credit Suisse, mantivessem a indicação de "neutro" para os papéis da empresa.

Na opinião de Marcelo Torto, da Ativa Corretora, é mais fácil enxergar a sinergia do ponto de vista financeiro, prevista em R$ 2,2 bilhões. "Mas a operacional não ficou clara", afirmou. "Mesmo porque, a Oi e a Portugal Telecom já têm um convênio de aliança industrial desde 2010."

Florentino, da Um Investimentos, lembrou que, em fusões anteriores de telecomunicações - como Vivo e Telesp Celular, ou Brasil Telecom e Telemar -, as sinergias não se mostraram relevantes. "O investidor não vai pagar à vista por ganhos de escala prometidos sem muita garantia", disse.

Em relatório, o J.P. Morgan afirmou que sinergias são mais fáceis de conseguir dentro do mesmo país do que nesse caso, entre uma empresa brasileira e uma europeia, e que os investidores não estarão dispostos a integrar esses ganhos na valorização da Oi antes de ter mais evidências a respeito das economias geradas em escala.

No anúncio da fusão, o presidente da Oi, Zeinal Bava, prometeu ganhos de R$ 5,5 bilhões - R$ 3,3 bilhões em sinergias operacionais e os R$ 2,2 bilhões em sinergias financeiras.

O J. P. Morgan recomendou cautela, tendo em vista o cenário difícil do setor de telecomunicações e a situação de alavancagem da empresa, com baixa geração de fluxo de caixa livre.

Em relatório, o Santander Brasil avaliou que os ganhos de sinergia prometidos poderiam ser alcançados sem a fusão e sem um custo de diluição tão alto, de R$ 13 bilhões. De acordo com os analistas da instituição, a nova empresa nasce melhor do que a atual, mas os minoritários estão pagando a conta da operação.

A equipe do Santander na Europa, por sua vez, afirmou que as sinergias operacionais estimadas para a fusão, da ordem de R$ 3,3 bilhões, foram superavaliadas. Nos cálculos da instituição, ao fim de quatro anos, essas sinergias somariam R$ 1,5 bilhão.

O relatório do Itaú BBA, assinado por Susana Salaru e Gregorio Tomassi, destacou a promessa de Zeinal Bava durante o anúncio da operação, de que todos os acionistas com direito de voto vão participar da aprovação do processo. Para os especialistas do Itaú BBA, é incerto se a operação será questionada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), visto que o negócio foi proposto pelos controladores.

Em relatório assinado por Andrew Campbell e Daniel Federle, o Credit Suisse destacou o "alto número de incertezas". O banco chama a atenção para o endividamento da empresa, que pode atingir cerca de R$ 44 bilhões em 2014. Para chegar a esse número, o Credit Suisse somou as dívidas das duas empresas, que seria de R$ 47,4 bilhões, 70% deste valor vindo da Oi. Depois somou os R$ 4,5 bilhões em dívidas do grupo Oi, que agora vão ser assumidas pela Portugal Telecom e incorporadas à nova empresa. Depois, subtraiu os R$ 8 bilhões planejados para o aumento de capital. O Credit Suisse estima que, em 2014, a Oi registre um lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda) "pro forma" de R$ 12,3 bilhões, 70% vindos do Brasil.

Apesar da visão cautelosa a respeito da fusão, os analistas afirmaram que o acordo tem pontos positivos: o processo de migração para o Novo Mercado, uma boa geração de caixa e o aumento de capital para diminuir as preocupações com alavancagem.

Por Daniele Madureira, Marta Nogueira e Alessandra Saraiva | De São Paulo e do Rio