Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

06/04/2018 às 20:02

Mídia hegemônica tenta legitimar prisão de Lula

Escrito por: Intervozes
Fonte: Portal Vermelho

Em comentários desde o anúncio da decisão de Moro e em editoriais dos principais jornais, imprensa abafa as críticas à decisão da Justiça

Com a pompa que precede a previsão de um mestre místico, o plantão da TV Globo e sua musiquinha – parte da memória histórica brasileira – anunciou à nação: “O juiz Sérgio Moro acaba de determinar a prisão do ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva”. Concomitantemente, pronunciamentos de figuras públicas sucederam-se nas redes sociais. Links e mais links de notícias e declarações foram compartilhados.
 
Ao vivo, logo depois, BandNews e GloboNews seguiram, de helicóptero, o carro em que Lula se deslocava até o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista. Vivemos, no aqui e agora, o desenrolar da história, como tragédia e como farsa.
 
No canal privado de notícias da Globo, os analistas apressaram-se em desconstruir qualquer questionamento público sobre a decisão do STF e de Moro. Gerson Camarotti acusou o PT de tentar criar a narrativa de que a prisão era política. Lembrou sádica e oportunamente que, dos seis ministros que negaram o habeas corpus ao ex-Presidente, cinco foram indicados por governos petistas.
 
Eliane Catanhêde denunciou o uso, por parte do partido, da pressão externa de líderes da América Latina e da Europa. Citou a manifestação de Rafael Côrrea e do ex-presidente Pepe Mujica contra a prisão, afirmando que a estratégia dialogava com a usada durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff: a de afirmar que as elites que a tiraram do poder também perseguem Lula. “Este discurso cola lá fora, mas não tem eco aqui dentro”, concluiu Catanhêde. “Estes governo bolivarianos não afetam em nada aqui”, arrematou.
 
Enquanto os analistas se sucediam, imagens aéreas do Globocop mostravam o aglomerado à espera de Lula em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos. A câmera esforçava-se num exercício voyeur focando as janelas, uma a uma, a procura da imagem precisa. E que imagem era essa? Contrariando a expectativa de alguns setores da sociedade e da própria mídia, o despacho de Moro orientou o não uso de algemas. O espetáculo midiático, montado, prescindia desse detalhe.
 
Passado o anúncio da decisão de Moro, as análises na GloboNews voltaram-se à disputa eleitoral de 2018. A tese de que a transferência dos votos de Lula não terá grande peso na decisão e de que os eleitores de Lula seriam fieis à figura em si e não à ideologia partidária foi repetida à exaustão. Nos intervalos das análises, a sentença de Moro (outro documento carente de uma análise do discurso aprofundada) era lida repetidamente.
 
No Jornal das 10, decorridas quase quatro horas da publicação da sentença, o advogado de defesa de Lula, em rápida aparição, destacou que ficou surpreso com a expedição do mandado e firmou que o pedido de prisão era ilegal. Mas os comentaristas Merval Pereira e Camarotti atestaram que não havia um clima de comoção nacional e que esta seria apenas “mais uma prisão”.
 
Não obstante as imagens de milhares em marcha até São Bernardo, as declarações de políticos e o anúncio de centrais sindicais e movimentos dos protestos convocados para esta sexta-feira, Merval concluiu: “Está tudo normal”.
 
“Não se trata de uma prisão política, houve toda uma investigação sobre o tríplex, a defesa atuou”, ponderou Camarotti. “Destaco que, com todo esse caminho jurídico percorrido, não pode o PT dizer que existe injustiça”.
 
Jornal Nacional não ouve Lula
 
Numa edição de mais de uma hora de duração, o principal telejornal do país foi quase todo dedicado, na noite de quinta-feira 5, à decretação da prisão do ex-presidente Lula. Fazendo a retrospectiva da decisão do STF sobre o pedido de habeas corpus no dia anterior e de sua repercussão, o jornal, ao contrário do canal de notícias do mesmo grupo, aparentouobjetividade e isenção, com os apresentadores e repórteres limitando-se ao relato dos acontecimentos das últimas 24 horas.
 
Mas como diz o provérbio alemão: é nos detalhes que o diabo mora. E aí vale destacar três pontos que permearam toda a edição da quinta.
 
O primeiro, e mais impressionante – apesar de não inédito – foi a ausência de qualquer declaração de Lula no telejornal, tanto sobre a decisão do STF quanto sobre a decretação da prisão.
 
Lula pode não ter dado entrevistas à imprensa nas últimas horas, mas falou em inúmeras ocasiões e espaços públicos sobre este fato, e sua posição poderia ter sido facilmente recuperada pela produção da emissora. Mas não o foi.
 
O posicionamento da defesa do ex-presidente foi apresentando somente mediante a leitura de trechos de notas do advogado de Lula, citados pelo apresentador William Bonner depois de 10 minutos corridos da edição do jornal.
 
O desequilíbrio das falas contra e pró-Lula também foi nítido na edição. Uma matéria de Brasília, trazendo a repercussão dos fatos, citou duas falas de petistas contra cinco de outros políticos defendendo a prisão.
 
Da senadora Ana Amélia (PP/RS), fervorosa opositora do PT, a frase de que “ninguém está acima da lei”. Do deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ), presidente da Câmara, “o mandato ocorreu dentro de um processo conduzido pela mais alta corte e onde foi respeitado o direito de defesa”. E do governador de São Paulo e candidato à presidência da República, Geraldo Alckmin, que “isso simboliza uma importante mudança que vem ocorrendo no Brasil, com o fim da impunidade”.
 
A única representante do Partido dos Trabalhadores que teve de fato voz no Jornal Nacional foi a presidente da legenda, senadora Gleisi Hoffmann, que mereceu 10 segundos para declarar que “esta é uma prisão política”.