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Clipping

18/04/2014 às 06:02

"Mil anos de solidão e tristeza"

Escrito por: Redação
Fonte: Correio do Povo (RS) - Impresso

O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu ontem, aos 87 anos. Estava internado, desde o fim de março, com pneumonia e infecção respiratória, na Cidade do México, onde morava. Uma das primeiras notícias da morte do famoso autor foi postada pelo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, em sua conta no Twitter: "Mil anos de solidão e tristeza pela morte do maior colombiano de todos os tempos! Solidariedade e condolências à família", escreveu ele no microblog.

Em julho de 2012, o mais novo de seus dez irmãos, Jaime García Márquez, revelou que o autor sofria de demência senil "há alguns anos" e que estava lutando contra a perda de memória. O escritor era casado com Mercedes Barcha Pardo desde 1958. Eles tiveram dois filhos: Rodrigo, que nasceu em 1959, e Gonzalo, nascido em 1962.

Considerado um dos mais importantes escritores do século XX e um dos mais renomados autores latinos da história, Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, em Aracataca, na Colômbia. Chegou a estudar Direito e Ciências Políticas na Universidade Nacional da Colômbia, mas não concluiu o curso, preferindo iniciar carreira no jornalismo.

Seu primeiro romance, "A Revoada (O Enterro do Diabo)", foi escrito no início da década de 1950, mas foi publicado apenas em 1955 por iniciativa de amigos enquanto ele estava morando na Europa. Já tendo como cenário a cidade de Macondo, que apareceria em outras de suas obras, o livro tinha como narradores três personagens: um velho coronel, sua filha e o neto, ainda criança.

O sucesso internacional, no entanto, veio principalmente após a publicação de seu romance mais famoso, "Cem anos de solidão", no ano de 1967. Considerada como sua obra-prima, vendeu mais de 50 milhões de exemplares e, ao lado de "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes, é um dos livros mais importantes da literatura em língua espanhola. Foi traduzido para 35 idiomas. Exemplo máximo do realismo fantástico - gênero característico do boom latino-americano da segunda metade do século XX -, a trama se passa na aldeia de Macondo e acompanha, ao longo de gerações, a saga da família Buendía.

Depois do prêmio, García Márquez escreveu outros três livros - "O Amor nos Tempos do Cólera", "O General em Seu Labirinto" (sobre os últimos dias de Simón Bolívar), "Do Amor e Outros Demônios" e "Memórias de Minhas Putas Tristes", de 2004, sua última obra de ficção. Também publicou o livro de relatos "Doces Contos Peregrinos", uma grande reportagem; "Notícia de um Sequestro", e suas memórias na autobiografia intitulada "Viver para Contar". O cogitado volume 2 deste trabalho não chegou a ser lançado. Em 1982, Garcia Márquez recebeu o Nobel de Literatura. Em 1999, o autor foi diagnosticado com câncer linfático. Apesar do tratamento bem-sucedido, ele diminuiu suas aparições públicas, que ficaram ainda mais raras nos últimos anos de vida. Além de sua reclusão, outro assunto comentado foi a sua perda de memória, notícia confirmada por um de seus irmãos. A cada dia 6 de março, dia de seu aniversário, García Márquez ia até a porta de sua casa na Cidade do México para cumprimentar os jornalistas que se acotovelavam no local.

Agora, Gabriel García Márquez pertence à história. Ele mesmo costumava dizer, e seus amigos confirmavam: no fundo da alma, ele nunca desejou ser o filho do telegrafista de Aracataca. Os que tiveram a chance de conhecer o escritor pessoalmente perceberam que, atrás da pessoa pública e do amigo de estadistas, se escondia um homem terno e quase tímido. Por isso e também por todos os seus livros, ele era amado pelos amigos e por milhões de pessoas no mundo todo. E, muitos anos depois de ter escrito seu último livro, García Márquez continua sendo amado.

Fiel ao comunismo e aliado dos cubanos, criou em Cuba um curso de cinema pelo qual passaram alguns realizadores brasileiros. Ele mesmo teve experiências na área, assinando a adaptação cinematográfica de "O Galo de Ouro", de Juan Rulfo, feita em 1963 em parceria com Carlos Fuentes. Quatro anos depois, com "Cem Anos de Solidão", ele conquistaria o mundo literário, recebendo do poeta chileno Pablo Neruda seu maior elogio: "É o melhor romance escrito em castelhano desde Cervantes".