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Clipping

26/11/2012 às 15:58

Mostra de Cinema e Direitos Humanos inicia com visita atual à memória e à verdade

Escrito por: Fábio Nassif
Fonte: Carta Maior

Sem necessidade de colocar imagens reais ou ficcionais dos anos de chumbo, o filme "Hoje", de Tata Amaral (foto), utiliza dores contemporâneas da vida de uma mulher, ex-militante e ex-companheira de um militante de esquerda, para retratar cicatrizes não estancadas de familiares de mortos e desaparecidos políticos. Filme abriu 7ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, quinta (22), em São Paulo.

A 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, iniciada na quinta-feira (22) em São Paulo, foi aberta com o tema da memória, verdade e justiça no país. O filme Hoje, dirigido por Tata Amaral, colocou ao público uma visão atual sobre o período da ditadura militar.

Sem necessidade de colocar imagens reais ou ficcionais dos tempos de chumbo, o filme utiliza as dores contemporâneas da vida de uma mulher, ex-militante e ex-companheira de um militante de esquerda, para retratar as cicatrizes não estancadas de familiares de mortos e desaparecidos políticos.

A personagem principal, interpretada por Denise Fraga compra um apartamento “velho, porém novo” em São Paulo e no dia da mudança recebe a visita de seu ex-companheiro. A narrativa, centralmente localizada no diálogo entre o casal, expõe com sutileza todos os traumas da mulher que tenta viver seu próprio presente. E o conflito se localiza justamente em sua tentativa de estabelecer a fronteira entre sua vida atual – simbolizada na mudança da moradia -, com seu passado inconcluso.

O esforço subjetivo da personagem é sustentado por dificuldades reais vividas por centenas de familiares de mortos e desaparecidos políticos na América Latina. “Os familiares de pessoas desaparecidas na ditadura viveram num limbo durante décadas, onde nunca souberam o que realmente aconteceu com seus parentes e pessoas queridas, ficaram procurando por muito tempo, mas também num limbo pragmático. Uma mulher não podia se casar de novo porque não é viúva oficialmente, uma mãe não podia viajar com um filho sem autorização do pai ou certidão de óbito. Então, mesmo do ponto de vista prático, ficaram num limbo, do ponto de vista oficial também e do ponto de vista emocional nem se fale”, explicou Tata Amaral.

Durante a abertura, a atriz do longa resumiu como um filme que “trata de uma paixão de um ideal vinculada pela paixão a um companheiro, e tiveram, além de quebrados seus sonhos, quebrados seu afeto e seu amor”. Denise também ressaltou o a importância do filme pois ele “calhou num momento nacional em que a Comissão da Verdade está esquentando. Temos direito a saber nossa história. O filme fala disso de uma maneira muito íntima, dessas pessoas que tiveram uma vida em suspensão pela ditadura militar”.

Presente na solenidade de abertura, o chefe de gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Bruno Monteiro, ressaltou a importância do cinema para sensibilizar a sociedade sobre temas humanos. “O filme Hoje trata de um tema muito duro, que várias gerações não viveram, mas que precisam saber das cicatrizes do país”.

A Mostra
Pela segunda vez, a Mostra acontece em todas as capitais do país, mas agora amplia suas exibições para fora das salas de cinema. Em algumas escolas da rede pública, estudantes do ensino médio tiveram aulas sobre direitos humanos durante um semestre, alimentados por filmes.

A programação, que conta com filmes inéditos, acontece até o dia 29 de novembro, com entrada franca em todas as sessões. O calendário completo, assim como a apresentação da Mostra podem ser conhecidos no site http://www.cinedireitoshumanos.org.br

“Sempre me perguntam se é difícil escolher filmes ligados aos direitos humanos, e eu sempre respondo que a cinematografia brasileira e latino americana, em regra, é obrigatoriamente de questões de humanidade, que refletem a sociedade que estes filmes foram feitos”, disse o curador da Mostra pela quarta vez, Francisco Cesar Filho.

Na abertura, o curta metragem A Fábrica de Aly Muritiba, também abordou os direitos humanos numa perspectiva atual entorno da visita de uma mãe a seu filho num presídio de Curitiba.

A diretora
Tata Amaral conversou com a Carta Maior, para explicar as motivações do filme e o contexto em que ele se apresenta. Confira a entrevista.

Por favor, conte um pouco em que história o filme foi baseado e como foi a transposição dessa história para o cinema.

É baseado no livro Prova Contrária do Fernando Bonassi. Quando eu li este livro, quis fazer o filme por causa de um capítulo principalmente. É o capítulo onde ela fala que sentiu tanta falta do parceiro que pensou em se matar e relata como seria isso. Eu perdi meu primeiro marido, então essa coisa da ausência é uma dor que eu conheço. Aí pensei: é muito mais forte que isso. Essa cena então é minha, apesar de não ser roteirista.

Qual a importância de tratar do tema da memória e da verdade, e mesmo da justiça parcialmente inclusa no filme?

Importância total, porque a verdade é revolucionária. Eu acho que pra qualquer pessoa andar pra frente, ela precisa iluminar seus traumas. Fiz isso também pra conversar comigo mesma também.

Do ponto de vista de um país como o nosso, a verdade sobre o período da ditadura militar é importante sobre todos os níveis. Os familiares de pessoas desaparecidas na ditadura viveram num limbo durante décadas, onde nunca souberam o que realmente aconteceu com seus parentes e pessoas queridas, ficaram procurando por muito tempo, mas também num limbo pragmático. Uma mulher não podia se casar de novo porque não é viúva oficialmente, uma mãe não podia viajar com um filho sem autorização do pai ou certidão de óbito. Então, mesmo do ponto de vista prático, ficaram num limbo, do ponto de vista oficial também e do ponto de vista emocional nem se fale.

A verdade é importante para essas pessoas. A verdade é importante porque muita gente não fala desses horrores. O José Genoino uma vez disse: “o pior foi quem saiu da tortura e se exilou, pois levaram sozinhas os traumas”. Quem ficou na cadeia como ele, ficou falando sobre isso. E, ao longo dos anos, foram elaborando para si como encarar.

Do ponto de vista da sociedade, a verdade é importante porque se você não trata a tortura, ela continua atuando. É o que a gente vê hoje. O fato de nunca termos identificado nem punido os torturadores, faz com que até hoje nossa sociedade esteja conivente com a tortura. Vemos isso hoje.

Acha que há uma tendência de aumento de filmes que tratam do tema da memória, verdade e justiça?

Não sei se há aumento. São poucos os filmes que falam disso. Das palavras do Jean Claude, um dos roteiristas, nós brasileiros tendemos a esconder os nosso problemas para debaixo do tapete. E prefere não ver esses problemas. Você não quer ver que tem tortura, mas você está vendo que tem. Na cadeia de Santa Catarina, nas execuções a poucos quilômetros da sua casa. Então não tem como não ver. O que diferencia o Hoje de outros filmes é que ele fala de hoje. Não é um flash back que conta uma história que está no passado. Ele trata de como as pessoas estão hoje.