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Clipping

04/10/2013 às 00:31

Mudança na Telecom Italia facilita venda de ativos na AL

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Demissionário, Franco Bernabè defendia a capitalização da empresa; agora vai receber indenização de ? 6,6 milhões

O diretor-geral e principal executivo de operações da Telecom Italia, Marcos Patuano, foi nomeado presidente executivo da Telecom Italia, ontem, no lugar de Franco Bernabè, que acumulava essa função com a de presidente do conselho da operadora. Bernabè pediu demissão durante a reunião do conselho de administração da Telecom Italia, depois de perder o apoio dos principais acionistas.

A nomeação de Patuano abre espaço para a discussão da venda da TIM, segundo analistas internacionais. O executivo defende a venda dos ativos da Telecom Italia na América Latina - a TIM Brasil e a Telecom Argentina - como forma de contornar parcialmente a dívida de ? 28,8 bilhões da operadora italiana. A dívida equivale a cinco vezes e meia o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) no primeiro semestre, que foi de ? 5,2 bilhões.

"Os papéis da TIM podem ser favorecidos com a possível venda da operadora, mas nada garante que haverá pagamento de "tag along"", disse o analista Marcelo Torto, da Ativa Corretora. Sob o "tag along", os acionistas minoritários recebem o mesmo valor pago aos controladores. Na opinião de Henrique Florentino, da Um Investimentos, há muitas indefinições no horizonte da TIM. "Principalmente em relação à entrada de um novo competidor no mercado brasileiro, que ainda não se vislumbrou", disse.

Bernabè entrou em choque com alguns dos principais sócios da Telecom Italia, especialmente a Telco - o consórcio formado pela Telefónica, os bancos Sanpaolo e Mediobanca e a seguradora Generali, que detém 22,4% da operadora - ao defender a injeção de cerca de ? 6 bilhões pelos acionistas. Os controladores preferem vender os ativos da Telecom Italia, posição que é defendida por Patuano.

De acordo com a agência de notícias italiana Ansa, o nome do presidente do correio italiano, Massimo Sarmi, foi indicado para assumir o lugar de Bernabè, com o apoio da Telefónica e do Mediobanca. Mas o processo de escolha do ainda está em andamento.

Segundo comunicado oficial da operadora italiana, Bernabè receberá uma indenização de ? 3,7 milhões e, para se manter fora do setor de telecomunicações durante um ano, mais ? 2,9 milhões. Durante a reunião de ontem, presidida pelo vice-presidente do conselho, Aldo Minucci, a Telecom Italia emitiu um comunicado sobre a saída do executivo. "O conselho expressa sua gratidão a Franco Bernabè pelo grande comprometimento e contribuição administrativa substancial oferecida ao longo dos últimos anos na condução da empresa", diz o comunicado.

A trajetória de Bernabè à frente da Telecom Italia se confunde com a da própria Telco. Formado em economia e ciências sociais, ele ocupou o cargo de executivo-chefe da operadora por seis meses entre 1998 e 1999. No fim de 2007, foi reconduzido ao cargo por indicação dos sócios da Telco, então recém-formada.

Agora, com o futuro do consórcio colocado em dúvida - a Telco pode deixar de existir se a Telefónica exercer o direito de converter suas ações preferenciais em papéis com direito a voto -, Bernabè deixa o posto. Considerado um executivo obstinado e talentoso, Bernabè foi contratado para ajudar a reduzir o endividamento da companhia, tarefa que cumpriu em parte. Ele deixa a operadora enfraquecido, sem ter conseguido convencer os sócios a colocar mais dinheiro na Telecom Italia.

Nos quase seis anos em que esteve à frente dos negócios da operadora, o executivo acumulou acertos na administração do grupo. Venceu uma queda de braço com acionistas locais em torno da Telecom Argentina - que também tem negócios no Paraguai - e conduziu a expansão das operações no Brasil. Hoje, a América Latina, região com rápido crescimento no número de usuários de telefonia móvel, representa 40% dos negócios da Telecom Italia.

Marco Patuano assume interinamente a presidência; executivo é favorável à posição de acionistas de vender a TIM

Durante sua gestão, porém, Bernabè enfrentou as consequências da crise econômica na Europa, que teve um profundo impacto na Itália. Nos últimos anos, o endividamento líquido da operadora tem diminuído, mas a operadora ainda acumulava uma dívida de ? 29,5 bilhões em 2012. Os resultados de receita e lucro não tem sido animadores. De 2006 a 2012, as vendas da companhia permaneceram praticamente estáveis, na faixa de ? 29 bilhões. O lucro, que chegou a atingir ? 3,5 bilhões em 2010, foi revertido para prejuízos consecutivos de ? 4,3 bilhões e ? 1,27 bilhão nos dois anos seguintes.

Em relação ao preço das ações, a gestão de Bernabè também teve um desempenho fraco. Quando foi indicado à presidência, as ações da operadora italiana atingiram um pico de cotação de ? 2,17 o papel. No fechamento de terça-feira, antes do pedido de renúncia, o preço era ? 0,63, o equivalente a uma desvalorização de 70% no período. Ontem, as ações fecharam o pregão cotadas a ? 0,64, alta de 1,66%.

O governo italiano tem se manifestado nos últimos dias contra a possibilidade de avanço dos espanhóis da Telefónica no controle da Telecom Italia, uma ex-estatal que continua a ser vista como um patrimônio nacional. As autoridades italianas estudam a possibilidade de usar uma "golden share" para barrar a operação.

Ontem, sindicatos italianos fizeram uma manifestação na frente da sede da Telecom Italia, durante a reunião do conselho de administração. De acordo com o jornal "Corriere della Sera", o protesto reuniu centenas de pessoas. Os manifestantes ostentavam cartazes com palavras de ordem contra a venda da companhia. Em um deles podia ser lida a frase: "Os diabos das finanças mudam, o inferno dos trabalhadores continua", informou o Corriere.

Por Daniele Madureira, Gustavo Brigato e Renato Rostás | De São Paulo