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Clipping

17/01/2006 às 08:31

Música brasileira revista por dois mestres dos sopros

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo

Dois discos ressaltam a importância dos sopros na música brasileira em sua totalidade. E uma flautista faz a ponte entre esses dois trabalhos. Andrea Ernest Dias, filha de Odete — ex-integrante do grupo A Fina Flor do Samba, que acompanhou Beth Carvalho em meados dos anos 70 — é uma instrumentista que representa bem uma geração que cresceu influenciada pela música brasileira em suas diversas vertentes. Ou seja, é uma flautista que sabe, e isso é evidente em seu trabalho, que, seja interpretando “So in love”, de Cole Porter, ou a impressionista “Après un rêve”, de Gabriel Fauré, o modo de interpretar do músico brasileiro é seu maior sotaque.

E Andrea mostra sua versatilidade em dois CDs completamente distintos. Em “Andrea Ernest Dias e Tomás Improta” (Biscoito Fino), ela divide com o pianista os solos do seu tardio primeiro disco. Já em “Paru” (Delira Música) ela joga em conjuntocom o Pife Muderno que acompanha o genial Carlos Malta.

Regravações nada óbvias de Pixinguinha e Jacob

Criada entre orquestras de câmara e rodas de choro, ela se junta a Improta, um mestre do piano, fluente no jazz e na MPB. O resultado é um passeio primoroso por um repertório escolhido a dedo. Só mesmo uma dupla deste nível para ousar viajar pelo choro tradicional, como nas nada óbvias “Cristal”, de Jacob do Bandolim, e “Só para mim”, de Pixinguinha; pela “Coisa n 9”, do maestro Moacir Santos; e pelo lindo choro “Meditando”, de Garoto. Somente músicos tarimbados para fazerem releituras precisas de clássicos como “Esperança perdida”, de Tom Jobim e Billy Blanco, e “Choro bandido”, de Edu Lobo e Chico Buarque. Se neste CD Andrea tabela o tempo todo com Improta, em “Paru” ela faz — juntamente com o percussionista Oscar Bolão, o zabumbeiro Durval Pereira e os pandeiristas Marcos Suzano e Bernardo Aguiar — um acompanhamento de luxo, uma espécie de moldura, para o mestre Carlos Malta e sua inventiva fábrica de sopros.

No disco que está sendo lançado hoje e na próxima terça no Centro Cultural Carioca, dedicado ao pajé Paru, Malta utiliza flautas da Índia, da China e de diversas regiões do Brasil criando um trabalho único, absolutamente original. Tanto em composições próprias como “Viva seu João do Pife” ou nas recriações de “Chiclete com banana”, de Gordurinha, “Esperando na janela”, de Targino Gondim, ou “As pegadas do amor”, de Gilberto Gil, Malta e seu Pife Muderno mostram um entrosamento de mais de uma década de estrada. A versão de “Gatas extraordinárias”, canção de Caetano Veloso muito bem regravada por Cássia Eller, transformada em um galope por Luís Brasil, é simplesmente irresistível. Enfim, um começo de ano promissor para a safra instrumental.