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Clipping

11/04/2006 às 08:40

Música eletrônica feita com laptops

Escrito por: Redação
Fonte: Estado de São Paulo

Quem se depara com a parede sonora erguida pelo inglês Kieran Hebden, nas apresentações de seu projeto de música experimental eletrônica Four Tet, geralmente custa a acreditar. Sozinho no palco, seu único 'instrumento' musical é um laptop.Com quatro álbuns na bagagem - dos quais só Rounds, de 2003, e o recente Everything Ecstatic foram lançados no Brasil -, Hebden é hoje uma das cabeças mais criativas da produção eletrônica de vanguarda.

Suas colagens de batidas e efeitos de computador com 'pedaços' orgânicos de percussão, metais e instrumentos exóticos, que dão a dica de sua ascendência indiana, escapam a classificações.Críticos já chamaram de eletrônica indie, folktrônica, mas o rótulo que mais incomoda o artista de 28 anos - que há dois anos esteve em São Paulo, para o festival Sonar - é o de 'dance music inteligente' ou IDM.'O termo soa um pouco ridículo. Não tem sentido rotular uma área da música como mais inteligente do que outra. É a idéia de que algo mais complicado é sempre melhor.

Isso não é verdade: idéias musicais poderosas podem ser alcançadas usando métodos bem simples', disse, de Londres, em entrevista por telefone ao Link, o homem por trás do Four Tet.Sua relação com o computador também não guarda maiores mistérios. 'Quando eu tinha 8 ou 9 anos já mexia em um computador em casa. Era uma versão do Commodore 64. Tempos depois, quando fui para a universidade e consegui um computador só meu, saí correndo atrás de softwares para fazer música', lembra.Hebden cursou dois anos de matemática e ciência da computação na Universidade de Manchester, antes de cair na estrada para viver só de música. 'Fiquei empolgadíssimo: até então eu só conhecia gravadores de quatro canais e (com o computador) passei a ter algo que me permitia fazer tudo de casa.'

Contrariando a maioria dos 'músicos de laptop', que costumam apresentar e criar suas produções em computadores Apple - a maçãzinha acesa da tampa dos iBooks já é quase uma marca registrada nessas performances -, Hebden usa um PC, modelo Sony Vaio, como instrumento de trabalho.

'Na época em que eu estava procurando computador para comprar, os da Apple eram muito mais caros. Aí, montei meu PC de mesa juntando várias peças, fuçando programas - você encontra muito mais softwares piratas para PC... Quase tudo o que uso hoje roda só em PC. Não sei se é pior ou melhor. É só algo que eu comecei anos atrás e funcionou para mim', explica.Possibilidades sonorasSe o papo acima, de computadores, softwares e matemática, estiver lhe sugerindo uma idéia fria, futurista do Four Tet, alto lá. Em meio às referências mais 'moderninhas' citadas sempre por Hebden, comoAphex Twin e Autechre - outros expoentes da chamada (cof! cof!) IDM -, parte significativa da influência musical do produtor vem de até quatro décadas atrás.

'Muitas das músicas que eu amo e admiro são coisas dos anos 60 e 70, que foram gravadas em equipamentos analógicos, com aspessoas tocando instrumentos... Hoje, quando vou fazer a minha música, me pego o tempo todo tentando criar essa mesma sensação (dos discos do passado).'

Isso, claro, até que o nerd que também existe dentro dele assuma o controle: 'Gosto de confundir as coisas. Você acha que está ouvindo uma banda ou alguém tocar e, de repente, a bateria começa a tocar ao contrário, a guitarra acelera, coisas que seriam humanamente impossíveis. Interessa-me a idéia de pegar algo que soe familiar e virar do avesso, que faça as pessoas ouvirem algo que não tinha sido ouvido antes.'

Assim, mais que um laptop, para o criador do Four Tet, qualquer objeto que produza som pode se tornar um instrumento musical. 'Um celular ninguém vai ter prazer em ouvir, mas um videogame, nas mãos certas, pode se transformar em algo incrível!', afirma.

'Não é mais o tempo em que as pessoas se chocavam ao ouvir guitarras elétricas pela primeira vez. Estamos em um ponto onde o mundo de sons já está saturado. Há um espectro incrível de possibilidades sonoras, até o momento em que você se pergunta aonde pode ir em seguida. E as pessoas se acostumaram com isso. É difícil fazer música que consiga chocar.'

Além da revolução mais propriamente estética, Hebden aponta para as mudanças de comportamento que a tecnologia vem trazendo ao mundo da música.

'Os discos estão cada vez melhores e mais acessíveis. Gosto da idéia de não excluir ninguém. Se você está lendo um livro e, de repente, vê uma banda que não conhece, pode ir à internet e ouvir como ela soa em 5 minutos.'

Fã de programas de baixar música ele próprio, o compositor faz uma única ressalva à explosão das redes de troca de músicas. 'Preocupa-me o fato de que, com os downloads, a pessoa baixe só duas ou três faixas e deixe de ouvir o álbum inteiro. Quando faço um disco penso nele por completo. Foi assim que cresci ouvindo música. Mas isso, talvez, seja só eu me tornando um velho. A molecada agora tem outros hábitos, e tudo bem.'Um dos principais nomes da eletrônica de vanguarda músico inglês faz do computador o seu único instrumento