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Clipping

15/10/2013 às 11:33

Na falta de debates, um arranca-rabo

Escrito por: Alberto Dines
Fonte: Observatório da Imprensa

Com a entrada em cena do meritíssimo Joaquim Barbosa, presidente do STF, o debate sobre biografias não autorizadas ganhou uma repercussão raramente alcançada fora da arena partidária (ver aqui e aqui). Mais um pouco pode virar circo. Uma frase do encenador Gerald Thomas na prestigiada coluna de Ancelmo Gois, no Globo, acabou como título de grandes matérias em Veja e Época. Mau sinal.

Os meios intelectuais, midiáticos e o showbiz estão em polvorosa, excitadíssimos com este impagável friforó (free-for-all), especialmente porque entre os contendores está um coletivo constituído pelos sete mais famosos intérpretes e compositores da MPB, ídolos e ícones de algumas gerações de brasileiros impregnados não apenas com seus acordes e versos, mas também por suas convocações.

Do outro lado, um batalhão de notáveis e experientes profissionais de imprensa que optaram pelo gênero biográfico como último recurso para um exercício profissional qualificado e moralmente gratificante. Numa imprensa cada vez mais fragmentada, rasa e rala, a tarefa de reconstituir existências e tempos passados tornou-se a única alternativa para um exercício mais nobre de jornalismo. E quem o constatou foi o jornalista-biógrafo Lira Neto, uma das estrelas do time, na entrevista que concedeu ao programa de TV do Observatório da Imprensa (veja o vídeo aqui).

Duas pontas

Biógrafos podem ser qualificados como bisbilhoteiros, alguns podem até chegar a charlatães – caso de uma tentativa biográfica de Paulo Francis, em boa parte responsável pelo enfarte que o matou –, mas o biógrafo egresso do jornalismo traz em sua bagagem os procedimentos deontológicos que adquiriu nos anos de Redação como repórter, redator, editor ou colunista.

Uma entrevista sem pinceladas biográficas não será uma boa entrevista – esta talvez seja a grande falha dos papos sem diálogo, tipo pingue-pongue, hoje uma praga; um personagem recém-aparecido no noticiário precisa ser introduzido como pessoa, não basta reproduzir o seu currículo; o obituário é uma biografia genuína, ao revés, por força da cronologia, o pretexto é a morte do sujeito.


Nas diferentes esferas que compõem o relato jornalístico as técnicas da biografia estão presentes em quase todas, da análise política à crônica esportiva. Fatos não existem sem gente e quem sabe tratar de gente, gentificar, são os jornalistas quase sempre dublês de biógrafos.

É evidente que a capacidade de retratar seres humanos não é exclusiva dos profissionais de imprensa: críticos literários que não se contentam em avaliar obras e avançam em direção dos autores e os raros historiadores capazes de humanizar a história são igualmente confiáveis em matéria ética.

A má vontade do coletivo das celebridades com os biógrafos vem justamente do fato de que muitos são jornalistas qualificados, portanto menos vulneráveis a pressões e/ou seduções. Curioso que esta surpreendente caça aos biógrafos é obra de duas empresárias muito bem sucedidas. Acostumadas com os releases e a comandar dóceis assessores de imprensa nas duas pontas do processo de comunicação, querem transferir este tipo de relacionamento para a esfera literária.

Vigia ranzinza

A acusação de que os biógrafos ganham rios de dinheiro em cima dos pobres e miseráveis músicos é uma das mais infelizes gafes já cometidas em nosso mundo cultural. E escancara a gênese do presente baticum: cobiça, despeito, incômodo com a apropriação de suas “mercadorias”. Quando os jornalistas em solidariedade aos biógrafos começarem a boicotar os seus produtos, o que dirão – help?

O que nos leva a concluir que o desagradável episódio começou, engrossou e vai terminar por força do marketing. Em outras palavras: grana, vil metal, propriedade dos meios de produção. A propósito: a mais recente biografia de Karl Marx, Amor e Capital, foi escrita pela tarimbada jornalista inglesa Mary Gabriel (com 20 anos de Reuters no currículo).

Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil são artistas absolutamente transparentes, figuras diáfanas, uns mais, outros menos tímidos. Rigorosamente inequívocos. Não têm e nunca tiveram algo a esconder. Suas trajetórias, opiniões e opções são claras – esta, aliás, a sua força junto ao público.

Então entram em cena as caraminholas emitidas pelo “rei” Roberto Carlos, muito menos aparelhado intelectualmente e, por isso, mais agarrado à arrogância marqueteira. Pai fundador do antibiografismo, o ex-expoente da Jovem Guarda, hoje convertido em vigia ranzinza, vai entrar para a história cultural do país como Grande Inquisidor. Talvez não perceba o que isso significa. Os companheiros do coletivo sabem onde isso pode acabar. Conhecem os versos de Brecht de cor, sabem que primeiro levam os outros, os diferentes, e quando nos pegam já é tarde.

A palavra do juiz

O lúcido pronunciamento de Joaquim Barbosa contra o embargo a biografias não autorizadas foi feito numa das sessões da 8ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo, organizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), no Rio de Janeiro. O ministro-presidente do STF sabia onde estava e sobre o que falava.

A biografia enquadra-se legitimamente como jornalismo investigativo. Investigação é pesquisa, busca da verdade. Biografias jamais serão definitivas porque a busca da verdade é inextinguível. Nosso vice-presidente Michel Temer confunde jornalismo investigativo com denuncismo barato, já cometeu inúmeras gafes em eventos da Abraji. Joaquim Barbosa felizmente deixou tudo muito claro.

Hora de encerrar o bate-boca, arrumar a bagunça e colocar band-aid nas escoriações e egos. Como escreveu o inspirado poeta-designer André Vallias: “Entre a imprensa marrom e a biografia chapa-branca há 50 tons de bege”.