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Clipping

18/12/2013 às 07:03

O bot bêbado

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo Online

O aplicativo "What would I say?" causou frisson no Facebook, e o bot fascinou e perturbou poetas e escritores

Nas últimas semanas, o aplicativo "What would I say?" causou frisson no Facebook. Trata-se de uma ferramenta que reordena, de forma aleatória, as palavras do mural de alguém, produzindo frases estranhas (e esplêndidas) quanto à sintaxe e ao sentido. Como informou matéria do Prosa do sábado passado, o bot fascinou e perturbou poetas e escritores. Essa fascinação e essa perturbação têm uma história na literatura moderna. Vou esboçá-la aqui, mostrando suas (des)razões.

A realidade se estrutura exatamente como, na linguagem verbal, as sequências sintáticas e semânticas habituais. Na realidade, assim como numa frase, cada objeto tem seu lugar. Um tapete não fica sobre o sofá, mas sob ele. Um poste não fica caído atravessado na rua, mas se ergue em suas margens, iluminando-a. Do mesmo modo, não se combinam, na realidade, objetos e predicados estranhos entre si na linguagem. Não existe, na realidade, uma "porta barbuda", um "leão fresco na floresta incendiada" ou uma "gaivota de gelo". Por mais aporética que seja a questão da origem da linguagem, pode-se, claro, afirmar que ela tem uma relação com a realidade; há "um pouco de manhã engastada nas sílabas", como diz o poema de Gullar.

Se a linguagem e a realidade são organizadas segundo determinados princípios, a arte é o espaço onde essa organização é transformada, seja revelando seus sentidos insuspeitados, seja subvertendo as próprias regras de organização (talvez seja mais exato dizer que uma coisa é decorrência da outra). Dizemos que é poética não apenas a construção verbal, mas o acontecimento real que reordena as coisas de forma não habitual. Tanto um poema, com sintaxe e arranjos de sentido que desautomatizam a percepção, quanto, por exemplo, um poste atravessado na rua depois de uma tempestade. Em geral, a arte é para nós, modernos, o espaço onde a realidade, por meio da linguagem, é ampliada, auscultada, revelada, desnaturalizada.

Entretanto, se o campo da realidade é vasto e cheio de possibilidades desconhecidas, ele é também uma espécie de prisão para o sujeito. A realidade e a linguagem verbal são nossas condições. Não se sai delas, a não ser à custa de experiências como a loucura. Justamente, esse outro radical da realidade e da linguagem, esse desejo de sair de seu espaço é um desejo que atravessa a história da arte moderna, realizando-se periodicamente na medida do possível - ou na desmedida do impossível.

Para ficar apenas na poesia, desde ao menos Rimbaud a linguagem verbal se lançou a uma alquimia do verbo cujo objetivo é libertar-se da realidade. Já em "O barco bêbado", com seus "perfumes pretos" e sua "noite verde", e radicalmente nas "Iluminações", as palavras se descolam da realidade, inventando uma realidade própria. O surrealismo desdobraria o gesto, elegendo o inconsciente como fonte selvagem, aquém dos princípios organizadores da realidade habitual. Ao longo do século XX, dos dadaístas a René Char, de Artaud a Gullar, inúmeros poetas testaram os limites da linguagem, às vezes flertando com a loucura.

O bot do Facebook pertence a essa tradição. Ao arranjar palavras de forma aleatória, ele desmonta a organização habitual em que estão fundados a linguagem, o eu e a realidade. O fato de ser um programa de computador talvez radicalize o gesto, pois não há resíduo de subjetividade cujos hábitos sintáticos e semânticos possam oferecer resistência (essa seria sua diferença). Concordo com o poeta Ismar Tirelli quando ele compara seu efeito ao de drogas alucinógenas. Essas drogas atingem precisamente nossa experiência naturalizada da realidade, não apenas ampliando-a (como faz a arte, em geral), mas deixando a nu sua própria artificialidade e lançando um olhar para o que está aquém dela (o real, para Lacan).

Barthes dizia que os "surrealistas falharam o corpo". Corpo, aí, significa a singularidade de uma visão da realidade, que cada artista possui, ampliando a percepção coletiva. Os poemas surrealistas, ao contrário, tendem a uma homogeneidade, porque não há neles propriamente visão da realidade, mas sua obliteração. Os poemas do bot, no limite, também (pois há certa individualidade de fundo, ou "de fora para dentro", como na expressão perfeita de Simone Campos). Talvez seja por isso que essa tentação da arte, embora fascinante e a princípio cheia de frescor, tenda a desembocar numa repetição tediosa. Não é por acaso que Baudelaire renuncia, ao fim de seu célebre texto, aos paraísos artificiais do haxixe. Se estamos condenados à realidade, devemos torná-la a mais livre e interessante possível, e não nos dedicarmos ao impossível de sua superação. Esse impossível, entretanto, habita cada sujeito como uma utopia.