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Clipping

01/02/2013 às 07:42

O cinema como arma contra a evasão escolar na américa

Escrito por: RODRIGO FONSECA
Fonte: O Globo Online

O carioca Eryk Rocha é um dos diretores de filme coletivo sobre a educação no continente

Testada com sucesso em produções sobre grandes metrópoles (“Paris, te amo”) ou sobre causas políticas (“11 de setembro”), a moda dos longas-metragens temáticos em episódios, sempre dirigidos por um contingente multinacional de realizadores, vai ganhar um reforço latino-americano numa cruzada audiovisual contra a evasão escolar. Eryk Rocha, realizador de filmes premiados como “Transeunte” (2010), é até agora o único brasileiro já anunciado para o coletivo de dez cineastas reunido para rodar um filme em segmentos sobre o calcanhar de aquiles da educação no continente. Já em andamento, previsto para ser lançado no segundo semestre em um dos principais festivais da Europa (Veneza é a pedida principal), o filme, ainda sem título, junta Eryk a diretores como a mexicana Mariana Chenillo (“Cinco dias sem Nora”), o argentino Pablo Fendrik (“La sangue brota”) e o colombiano Carlos Gaviria (“Retratos em um mar de mentiras”). Ele integra o projeto humanitário Graduate XXI, fomentado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tendo como fim servir como campanha publicitária (sem fim lucrativos), com roupagem de experimentação estética, para a luta contra o analfabetismo e sucateamento das escolas. Os outros seis nomes serão anunciados nos próximos meses, sendo que os produtores, ligados ao BID, asseguram espaço para mais um representante do cinema brasileiro, cujo nome ainda é mantida em sigilo. “Igor”, o trecho com cerca de dez minutos dirigido por Eryk, foi rodado no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, e já está em finalização.

— Se a ideia é fazer as massas discutirem os modos de construção de um país a partir da educação, nada mais justo do que fazer do cinema uma ferramenta de mobilização. E a escolha de Eryk Rocha veio do nosso interesse em apostar em uma nova geração de diretores latino-americanos, de carreira reconhecida internacionalmente, que têm uma obra marcada por discussões sociais — diz a espanhola Gador Manzano, representante do BID escalada como uma das produtoras do longa.

Numa visita ao Brasil no último dia 18, Gador explicou que a escolha de Eryk partiu de uma sugestão do diretor brasileiro Walter Salles e do ator mexicano Gael García Bernal. O mistério acerca de quem será o conterrâneo de Eryk convidado para a empreitada estende-se também para os boatos de que a argentina Lucrecia Martel (“O pântano”) estaria no filme.

— Existe muita informação, mas pouca formação na América Latina neste momento em que os modelos de educação pública precisam ser discutidos. A bandeira mais revolucionária que a cultura pode levantar é a necessidade de se repensar a escola sobre um novo paradigma — diz Eryk, que construiu a narrativa de “Igor” como um dia na vida do aspirante a ator e capoeirista Igor Botelho, de 16 anos.

Revelado como promessa de direção com “Rocha que voa”, em 2002, Eryk conheceu Igor durante uma apresentação teatral na Festa Literária das Unidades de Polícia Pacificadora (Flupp), em novembro. Na ocasião, o cineasta carioca de 35 anos já estava à cata de um argumento para seu episódio no projeto do BID e descobriu um veio dramático no processo de como Igor foi se afastando da escola para tentar seguir seus sonhos.

— Hoje, ele, que foi abandonado pelo pai e criado pela mãe, uma doméstica, com mais quatro irmãos, tenta retomar os estudos. No filme que fizemos, ele interpreta a si mesmo numa trama na qual se apronta para ir à escola mas nunca chega lá, sendo seduzido pela pulsão da cidade a fazer outras coisas. Ele perambula pelo Rio carregando uma potência criativa que poderia ser mais bem explorada pela escola, mas não é, por uma série de circunstâncias sociais de pobreza. A partir dele, eu tento criar um campo de reflexão sobre o vazio que leva muitos “Igores” como ele a evadir-se da escola. Mas tentamos isso com o cuidado de não cair em discurso de vitimização — diz Eryk, premiado no Festival do Rio 2012 com o prêmio de melhor diretor por “Jards”.