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Clipping

16/09/2013 às 00:33

O empresário do jazz e do blues

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

"Nunca tratamos o projeto da casa como algo estritamente comercial", diz Edgard Radesca, que abandonou empresa de consultoria para abrir o Bourbon

A cena que selou uma nova fase na carreira do empresário Edgard Radesca, de 66 anos, está registrada em sua memória como uma foto especial. Com lágrimas nos olhos, ele e seus três sócios se abraçaram quando ouviram as primeiras notas da guitarra do "bluesman" B.B. King, na inauguração do Bourbon Street Music Club, em 13 de dezembro de 1993. Hoje, quase 20 anos depois, essa casa noturna paulistana é reconhecida como o melhor clube de jazz, blues e black music da América Latina.

Da longa reforma da casa no bairro de Moema, iniciada no final de 1989, até o primeiro show de B.B. King, os proprietários do Bourbon Street esperaram quatro anos para ver o clube inaugurado. Radesca e o músico Luiz Fernando Mascaro, seu primeiro sócio e idealizador do projeto, surpreenderam-se quando os fundos que haviam reservado para a obra foram bloqueados pelo governo federal logo após a posse do presidente Fernando Collor. Para seguir adiante, o jeito foi conseguir outros sócios.

"Nunca tratamos o projeto da casa como algo estritamente comercial, como um simples negócio. Buscamos sempre o melhor possível, algo que nos deixasse orgulhosos. Queríamos que nossos amigos e famílias se sentissem bem ao frequentá-la", diz Radesca, observando que o perfeccionismo exigido por ele e seus parceiros durante toda a execução da obra é mantido até hoje na operação da casa.

Centenas de astros do jazz, do blues, do soul e do funk já se apresentaram ali: de Ray Charles (1930 - 2004) a Shirley Horn (1934 - 2005), de Diana Krall a Marcus Miller. Mas o diferencial dessa casa paulistana frente a outros clubes do gênero é sua relação íntima com a cultura musical e a gastronomia de New Orleans. Além de exibir com frequência artistas dessa cidade essencial na história do jazz e da música negra americana, o Bourbon também produz há 11 anos, em São Paulo, um festival dedicado aos diversos gêneros musicais cultivados na eclética New Orleans.

Combinando apresentações no clube paulistano com grandes shows gratuitos, no parque Ibirapuera, o Bourbon Street Fest também realizou cinco edições no Rio de Janeiro e duas em Brasília, com sucesso. Ele diz que já recebeu convites para levar o evento a outras cidades, como Salvador e Florianópolis. A repercussão do festival rendeu também o convite para a criação de um evento similar na cidade histórica de Paraty (RJ), o Bourbon Festival Paraty, cuja quinta edição, em maio último, atraiu cerca de 30 mil pessoas.

O sucesso das 11 edições do Bourbon Street Fest ainda não rendeu ao evento um patrocínio permanente. "A própria formatação do nosso festival, baseada em shows gratuitos, impõe a necessidade dos patrocínios. A receita obtida com os shows no clube durante o Bourbon Street Fest não cobre nem 25% das despesas gerais do festival", afirma o diretor do evento. Nos últimos anos, o festival foi patrocinado por meio de leis de incentivo à cultura, em nível federal (Rouanet) e estadual (ProAc e ICMS-RJ).

Astros como Ray Charles e Diana Krall já passaram pelo Bourbon, que mantém relação íntima com a cultura de New Orleans

Apesar de ter patrocinado com sucesso o festival nos três anos anteriores, em São Paulo e no Rio, uma empresa de telefonia não conseguiu disponibilizar o patrocínio para a edição carioca, em 2013. "Patrocinou o festival apenas em São Paulo e, mesmo assim, com uma verba menor", diz Radesca. A realização plena desta edição, que contou com o maior público nos 11 anos do evento, só foi possível graças ao patrocínio de uma empresa farmacêutica e de uma marca de cerveja."

Filho de universitários (o pai, descendente de italianos, era advogado formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco; a mãe, brasileira, cursou geografia na Universidade de São Paulo, onde também lecionou), Radesca é engenheiro de produção pela USP e pós-graduado em marketing e finanças pela Fundação Getulio Vargas. Trabalhou como executivo nos bancos Citibank e Áurea, área que deixou, na década de 1970, estimulado pelo desafio proposto por um amigo: montar uma empresa de vendas por catálogo.

"A empresa do então poderoso Grupo Argos tinha o capital, mas precisava de alguém à frente do negócio. Foram alguns anos de vertiginoso sucesso. Tínhamos um cadastro de 1 milhão de clientes, com venda média de 100 mil itens por mês. Porém, a Argos enfrentou problemas financeiros que forçaram o fechamento prematuro da promissora startup", relembra Radesca, que assumiu então o cargo de diretor de marketing de uma empresa do Grupo Abril. Sua missão era criar uma linha de produtos de papel, como jogos, agendas e kits para festas infantis, além de implantar uma rede de lojas-piloto.

Em 1982, quando as empresas do Grupo Abril foram divididas entre os herdeiros, Radesca abriu a própria empresa. Com um de seus gerentes, criou uma consultoria de desenvolvimento de produtos, design e serviços de marketing, à qual se dedicou por quase duas décadas. Nos primeiros anos do Bourbon Street, chegou a enfrentar uma extenuante jornada dupla, mas, conforme o clube crescia, foi dispensando clientes da consultoria.

A crise econômica que o país atravessou em 1999, com a desvalorização do real, levou o clube a encarar seu período mais difícil. "O dólar dobrou de valor, saindo repentinamente do patamar de R$ 1 para R$ 2. Como o Bourbon tinha feito contratações de artistas, em dólar, tivemos que honrar os compromissos. Para piorar, quase dobraram também os custos das passagens internacionais, assim como o custo do uísque. Quase fomos forçados a fechar as portas."

A situação se agravou quando o sócio Luiz Fernando descobriu que teria de enfrentar o tratamento de um câncer. "Foi preciso muita fé e tenacidade para resistir. O Bourbon passou então a assumir empréstimos bancários, de forma a manter seu funcionamento no mesmo padrão elevado de sempre. O cliente que ia à casa não sentia os efeitos da crise: o peixe continuava fresco; o filé, a bebida e a música mantinham a alta qualidade."

Outra data da qual Radesca não se esquece é 12 de setembro de 2000 - marco do início da superação da crise de 1999. "Como nos melhores roteiros que o destino traça, dois dias depois que o câncer levou a vida do Luiz Fernando, Diana Krall estreou no Bourbon a exitosa série Diners Club Jazz Nights. Essa noite acabou se tornando uma homenagem ao que Luiz Fernando representou na história do Bourbon. Fiz questão de pedir, do palco, uma grande salva de palmas para ele."

Em geral, a rotina profissional de Radesca está subordinada à necessidade de acompanhar o funcionamento diário do Bourbon. "Não é lenda: o olho do dono engorda o gado, por melhor que seja a equipe. A presença na casa é importante não só para perceber detalhes que às vezes não foram notados, mas também para que a equipe se sinta apoiada e estimulada. Nenhum relatório da equipe pode substituir o ver e sentir pessoalmente o show, o público ou o serviço", diz o empresário.

"Costumo dormir entre 3h e 4h da manhã, e acordo por volta das 10h. O meu dia é sempre intenso, pois são muitos os assuntos a resolver. No Bourbon, não só fazemos acontecer seis noites musicais por semana, que precisam ser contratadas, produzidas e promovidas, como podemos ter ainda uma sétima noite ocupada por um evento corporativo que requer tanto ou mais empenho da nossa equipe."

Show do "bluesman" B.B. King marcou a abertura do Bourbon Street Music Club, em 1993, no bairro de Moema (SP)

Claro que essa rotina, no clube, é interrompida com frequência por reuniões externas, almoços de negócios ou viagens. "Se não houver um show, uma turnê ou festival do Bourbon, nos quais tenho que estar presente no fim de semana, também pode haver um show ou festival ao qual tenho que ir para me informar, para estar em contato com o meio, tanto aqui em São Paulo como em qualquer parte do país", diz.

Até pela impossibilidade de ficar o tempo todo no clube, Radesca aprendeu a delegar responsabilidades. "Delegar é um aspecto difícil, porém indispensável para o crescimento pessoal e do negócio. Eu delego bastante, mas ainda bem menos do que gostaria. Convivo bem com o fato de que uma pessoa da equipe pode, muitas vezes, fazer algo melhor do que eu faria. Esta consciência e desprendimento são fundamentais", afirma o empresário. "Por outro lado, há atividades que acho importante fazer, como as relacionadas à captação de patrocínios. Gosto de apresentar pessoalmente nossos projetos, pois acredito que minha presença e meus argumentos, nas reuniões, fortalecem a negociação."

Saber escolher os integrantes ideais para as equipes de trabalho também é essencial. "Por convicção e gosto pessoal, procuro manter um ambiente de trabalho com clima leve e alegre, nas equipes do Bourbon. Nenhum outro tipo de ambiente é capaz de produzir tanto, mesmo sob a intensa pressão gerada por algumas produções. Sempre há duas maneiras de encarar uma tarefa e uma delas é mais leve", diz.

Num negócio que já nasceu entre familiares (Radesca e Luiz Fernando eram concunhados), é natural que a família continue participando no trabalho diário. Célia Radesca, que assumiu a área financeira da empresa durante a crise de 1999, tornou-se desde então a principal parceira do marido, na gestão do clube. "Embora ela seja designer, não esqueceu do que aprendeu no curso de administração da USP, que trocou pelo curso de desenho industrial, no último ano. Para não perder a ternura, Célia também é responsável pela gastronomia e decoração dos eventos especiais."

Os dois filhos do casal não ficam de fora. Helena é arquiteta e sócia do marido, Luciano, em um escritório de design que cuida da programação visual do Bourbon Street, de seus festivais e projetos especiais. Bruno, que é artista plástico, contribui com seu conhecimento em tecnologia da informação.

Ligado à música desde cedo, Radesca se lembra de que, graças ao rádio e à vitrola Telefunken da casa de seus pais, acostumou-se a ouvir vários gêneros musicais: samba-canção, chorinho, música clássica, árias de óperas ou big bands. Como tantos adolescentes de sua geração, também ouviu muita bossa nova e rock"n"roll, na década de 1960. Descobriu o jazz um pouco mais tarde, na década seguinte - especialmente o cool jazz de Miles Davis e os vocais de divas do gênero, como Billie Holiday e Sarah Vaughan.

"Quando Luiz Fernando começou a falar comigo sobre seu projeto de abrir uma casa de jazz e blues, eu - que àquela altura já era sócio de carteirinha do 150 Night Club, aqui em São Paulo, e não perdia um show importante na cidade - mergulhei de cabeça no projeto. Assim começou a se materializar o Bourbon Street."

Além da paixão pela música, Radesca também cultiva desde a infância o gosto pela fotografia. "Quando decidimos construir o clube, em 1989, viajamos a New Orleans e lá fiz centenas de fotos de escadas, bares, luminárias, pátios, fontes, varandas e de paredes descascadas. Foram mais de 40 rolos de filme, cerca de 1.500 fotos, que serviram de referência para o ambiente e a arquitetura da casa."

Desde então, Radesca se acostumou a fotografar os shows de quase todos os músicos que têm a oportunidade de acompanhar, em festivais e clubes, no exterior. "Inicialmente, meu objetivo era organizar uma memória dos artistas de interesse para o Bourbon, nas viagens ao Festival de Jazz de New Orleans. Com o tempo resolvi comprar um equipamento profissional para ir além do registro e poder desfrutar do prazer de fotografar."

"Há artistas incríveis que fazem que você tenha vontade de clicar 200, 300 vezes, durante um show. Já me considero um fotógrafo, mas, humildemente, sei bem onde estou na escala dos fotógrafos - onde existem talentos como o de Roger Sassaki e outros grandes artistas que já passaram pelo Bourbon", afirma.

www.bourbonstreet.com.br\/

Por Carlos Calado | Para o Valor, de São Paulo