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Clipping

17/10/2012 às 13:53

O genoma da arte

Escrito por: Milena Ryzik, do The New York Times
Fonte: O Estado de S. Paulo / Link

O Art.sy é um guia de arte que quer mapear a relação entre as obras para revelar novas percepções ao público

Robert Storr, reitor da Escola de Arte da Universidade Yale, tem dúvidas. “Depende de quem está fazendo a seleção, de quais são os critérios e de quais são os pressupostos culturais por trás deles”, diz Storr, ex-curador do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York. “Tenho certeza que será redutivo.”

Para fazer sugestões, os computadores precisam aprender como é o julgamento humano, um processo que começa pela rotulação: dar à máquina códigos para diferenciar um retrato da Renascença de uma pintura modernista, por exemplo.

Matthew Israel, 34 anos, doutor em arte e arqueologia pelo Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova York, chefia uma equipe de dez historiadores de arte que decide quais são e como esses códigos devem ser aplicados. Algumas classificações (o Art.sy chama de “genes” e reconhece cerca de 800 deles) denotam qualidades objetivas, como o período histórico e a região de onde vem a obra, e se ela é figurativa ou abstrata, ou se pertence a uma categoria estabelecida como cubismo ou fotografia.

Outros rótulos são subjetivos; para arte contemporânea, os curadores podem usar termos como “globalização”. Um Picasso pode ser classificado em categorias como “cubismo”, “pintura abstrata”, “Espanha”, “França” e “amor”. As obras de Jackson Pollock recebem “arte abstrata”, “Escola de Nova York”, “espirrada/gotejada”, “repetição” e “orientada pelo processo”. Esses critérios aparecem em obras de contemporâneos de Pollock, como Robert Motherwell, mas também de artistas como Tara Donovan, cujas esculturas contemporâneas de espuma e papel também foram marcadas com “repetição”.

Cada categoria recebe um valor entre 1 e 100: um Andy Warhol pode ter um valor alto na escala da pop art, enquanto um pós -Warhol teria uma classificação diferente, a depender das influências. O software ajuda a filtrar imagens por qualidades visuais como a cor, mas a alma do julgamento é humana. “Uma pessoa trabalha à mão introduzindo um número para todos os campos relevantes”, explica Israel.

Os desafios curatoriais são maiores do que a complexidade técnica. “Como vamos captar algo que mostra ‘ardor’ com uma máquina? Não vamos”, disse Daniel Doubrovkine, 35 anos, engenheiro do Art.sy. Da mesma forma, o Pandora tem musicólogos cuja análise alimenta um algoritmo, o Projeto Genoma da Música, que recomenda sons com base nos gostos dos usuários e nas classificações dadas às faixas. Joe Kennedy, CEO do Pandora, foi consultor do Art.sy.

De família. O fundador, Carter Cleveland, 25 anos, idealizou o Art.sy quando estudava na Universidade de Princeton e não conseguiu encontrar uma peça de arte legal para decorar seu quarto. Ajudado pela família – seu pai escreve sobre arte; sua mãe é financista –, depois de se formar ele atraiu apoiadores como Wendi Murdoch, esposa de Rupert Murdoch, dono do grupo de mídia News Corp. Eric Schmidt do Google e Jack Dorsey do Twitter são investidores. E John Elderfield, ex-curador de pintura e escultura do MoMA, é consultor. “Toda a arte do mundo vai estar de graça para qualquer um com uma conexão à web”, diz ele, articulando um lema – ou plano de lucratividade. A receita vem de comissões de vendas e parcerias com instituições.

Mas o Art.sy ainda está longe de ter toda arte do mundo – o Google Art Project tem quase o dobro do tamanho. O genoma é robusto, mas restrito à coleção.

Seb Chan, do Cooper-Hewit – Museu Nacional de Design, parceiro do Art.sy, acredita que sites do tipo não pretendem substituir galerias ou livros, mas ajudar o público a ampliar as fronteiras. “Você vai a museus e é tudo uma questão de topar acidentalmente com algo. O Genoma da Arte é outra maneira de criar conexões”, diz. “Para as pessoas que têm a web como parte de suas vidas, essa é uma maneira natural de descobrir coisas.”

/ Tradução de Celso Parcionik