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Clipping

08/04/2013 às 10:08

Palco em construção

Escrito por: Redação
Fonte: Correio Braziliense

Às vésperas de completar 32 anos ( foi inaugurada em 21 de abril de 1981), a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, finalmente, receberá a atenção que merece. Segundo a Secretaria de Cultura do DF, a tão esperada e divulgada obra, que até hoje não saiu do papel, tem data marcada: de 29 de julho até o final de maio de 2014, ao longo de 10 meses, o espaço passará pelo maior restauro de sua história. O orçamento previsto é de R$ 96 milhões, mas essa quantia ainda pode mudar, na etapa de elaboração dos projetos. A estimativa foi feita tomando como base os 43 mil metros quadrados de área total do teatro. “O teatro é o segundo palco da Copa”, destaca o subsecretário de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Cultura, José Delvinei Santos, garantindo que a reabertura do local, novinho em folha, será antes do mundial de futebol.


A última sessão de reparos foi em 1998. De lá para cá, os funcionários nunca encontraram um plano de manutenção. “O desgaste chegou a tal ponto que, para recuperar, será preciso fechar”, lamenta Delvinei. As negociações com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) começaram no início do ano passado e, em janeiro último, uma comissão de especialistas em patrimônio foi criada para diagnosticar os principais problemas a serem resolvidos. Esse estudo preliminar será entregue à empresa responsável pela licitação, que deverá ser divulgada até 15 de abril e elegerá uma empresa para prestar o serviço.


Em caixa, o Executivo local tem R$ 4,2 milhões disponíveis para a elaboração do projeto e, neste valor, está embutida uma consultoria com o escritório do arquiteto Oscar Niemeyer, criador do monumento. O Iphan ajudará nas negociações entre as partes. “Não queremos entrar em celeuma. Não há clareza em relação a como o escritório se comportará no que se refere às obras, mas eles compreendem que é preciso se adaptar a novas regras, como a lei de acessibilidade, por exemplo. A ideia não é desconfigurar”, afirma Delvinei.


Hoje, há escadas em frente às saídas de emergência e uma das medidas da obra será substituí-las por rampas. Além da questão de segurança, a palavra de ordem é resolver, de uma vez por todas, a precariedade acústica das salas. A começar pelos carpetes, que forram o piso e as paredes das salas de espetáculos: além de absorver o som, o tecido, altamente inflamável, pode ocasionar acidentes. “A acústica e o acabamento não foram pensados à época”, afirma o subsecretário, destacando que o formato da sala, a laje e o revestimento de espuma são outros fatores que atrapalham a propagação do som.
As mazelas do teatro são velhas conhecidas dos frequentadores, artistas e funcionários da casa. O maior desafio, segundo Delvinei, é atualizar a iluminação: será preciso trocar todos os refletores, mesas de operação, racks, fiação e alimentação do sistema elétrico. Os geradores e aparelhos de ar-condicionados são a diesel. As mesas de som analógicas, de operação totalmente manual, serão substituídas por modelos digitais. Quem abre as torneiras dos camarins precisa deixar um pouco de água correr, para evitar a ferrugem acumulada na tubulação, em vias de ser completamente substituída. “Traremos o teatro para o século 21”, garante o subsecretário. O plano inclui reabrir antigos espaços gourmet. Entre eles, o restaurante que ocupava o Espaço Dercy Gonçalves, no topo da pirâmide, com vista panorâmica para o centro da cidade. Atualmente, só é possível chegar até lá depois de galgar 83 degraus.

Dinheiro em caixa

A pergunta crucial é: diante de um orçamento enxuto destinado à área cultural, de onde sairá tanto dinheiro para viabilizar as obras? Segundo o subsecretário, no fim do ano passado, a pasta aprovou uma rubrica dentro dos Projetos Estruturantes do Distrito Federal, uma espécie de PAC local, com sete áreas prioritárias de atuação. Dentro da carteira que trata da conservação urbana e do patrimônio histórico e cultural conquistou recursos da ordem de R$ 36 milhões (oito milhões para a elaboração dos projetos de melhoria de 18 equipamentos culturais, 12 milhões para a execução dessas obras e os 16 milhões restantes para dar o pontapé inicial no restauro do teatro). A junta orçamentária responsável pela administração do dinheiro ainda garantiu que, assim que o momento de execução chegar, o valor poderá ser complementado.


“Quando se faz um convênio com o governo federal, o Executivo local precisa entrar com uma contrapartida, e este valor, geralmente, fica em torno de 20% do total investido”, explica Delvinei. Os R$ 16 milhões, portanto, estão nos cofres como investimento do GDF na concretização da parceria com a instância federal . A expectativa é que os R$ 80 milhões restantes venham do Fundo Nacional de Cultura (do Ministério da Cultura) ou via PAC das cidades históricas. Outra alternativa financeira é o financiamento da iniciativa privada, pela lei Rouanet: a empresa que investir no restauro será beneficiada pela renúncia fiscal.

Conforto
Neste levantamento prévio, uma alteração arquitetônica fundamental já surgiu: para aumentar o conforto e o espaço entre os espectadores, será preciso retirar três fileiras de poltronas da Sala Villa-Lobos, cuja capacidade é de 1.307 espectadores, contando as cadeiras fixas. Para não reduzir a capacidade da sala, outras soluções de disposição serão estudadas.


Trê perguntas // José Delvinei Santos

A Sala Villa-Lobos é a única que comporta um determinado porte de espetáculos. Como ficará a rotina da cidade durante os 10 meses de restauro do teatro?
Estamos muito preocupados com isso, não queremos privar a população das produções culturais. A Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, por exemplo, estamos tentando encaminhar ao Teatro Pedro Calmon, no Quartel-general do Exército, no Setor Militar Urbano (SMU). Estamos conduzindo os pedidos de pauta para lá, para o Centro de Convenções Ulysses Guimarães, na Universidade Paulista (Unip). Para os eventos menores, sugerimos o Centro Cultural Brasília (CCB). Outra alternativa seria construir um espaço alternativo: uma grande tenda climatizada. Já nos apresentaram um projeto, mas seria um investimento caro e não sabemos se as produções se adaptariam. O Estádio Nacional de Brasília será usado para shows, porque os espaços são modulares, se adequam, e não necessariamente precisam ser voltados para públicos grandiosos. Estamos mais preocupados com os espetáculos de teatro e dança.

Se o governo não conseguir fechar os acordos que espera com o governo e com a iniciativa privada, a obra será feita mesmo assim?
O Governo do Distrito Federal vai cumprir o compromisso de restauro. Temos um diálogo bom com o Governo Federal e será uma parceria significativa. Por um caminho ou por outro, as mudanças serão feitas. Já virou uma questão de saúde pública.

E a questão do alvará, como fica?
Precisamos sair da clandestinidade, não podemos ficar com a casa aberta sem estar adequada à lei. Estamos funcionando de maneira provisória porque temos o projeto de restauro. O teatro não é inseguro, apenas não tem habite-se e não está adaptado aos rigores da lei, que é de 2004, posterior à construção. Temos reuniões com o Corpo de Bombeiros e precisamos resolver isso com a ajuda deles, da Agefis, do Iphan, da Administração de Brasília. Precisamos criar uma instrução normativa que permita o diálogo entre a lei de acessibilidade e a lei de tombamento. Esse problema não é exclusividade do Teatro Nacional, se estende a toda Brasília.