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Clipping

18/09/2015 às 11:17

Polêmica: a arte inofensiva de Que horas ela volta

Escrito por: Deni Rubbo
Fonte: Outras Palavras

Anna Muylaert agrega outro filme à safra brasileira sobre desigualdade social. Mas sua obra, como outras, é caricata, foge dos conflitos reais, entretém público em radicalidade apenas aparente

Que o filme Que horas ela volta?, da cineasta Anna Muylaert, procura observar a relação entre patrões e empregados e, por extensão, cria um debate amplo sobre um Brasil segregado, desigual, absurdo, isso não é propriamente uma novidade para o cinema brasileiro — basta ver, por exemplo, O som ao Redor e os documentários de Gabriel Mascaro. Ao contrário, o conteúdo tem se mostrado, até certo ponto, moeda corrente. Mas a questão central aqui é como foi construída essa relação no filme de Muylaert.
 
Do começo ao fim, a intenção de Que horas ela volta? é mostrar-se crítico à “família burguesa” que mora em um casarão no Morumbi, composta pelo pai, mãe e o filho. Desse modo, os elementos que o filme trabalha para caracterizar, ao longo de sua narrativa, ficam pouco a pouco evidentes. Carlos, um tipo meia idade, deprimido, não trabalha, pintou quadros quando era mais novo, herdou toda fortuna de sua família e vive em estado de ócio zanzando pela casa. A mãe, Bárbara, uma legítima madame, trabalha com moda, muito vaidosa, sem tempo para família e com tempo apenas para si mesma, uma seguidora fiel da ética protestante do trabalho. E o filho, um adolescente carente que está às vésperas de prestar vestibular, mas se preocupa mais em quando irá perder a virgindade. Por mais que morem juntos, cada qual tem uma vida bastante independente; uma família afastada de si mesma. Na hora do jantar, por exemplo, o único espaço da casa em que se encontram – e quiçá possibilitaria um momento de intimidade – esta oportunidade é frustrada pela companhia dos celulares utilizados por cada um.
 
Mas a virtude do filme não está na grande narrativa que costura a história contada — o começo, o meio e o fim do enredo –, ou na denúncia da “crise” da família rica. Que horas ela volta finca sua criatividade nas cenas mais despretensiosas, no navio das sutilezas, no mergulho das relações sociais invisíveis mas profundamente poderosas na relação entre patrões e criados no Brasil. A dependência dos patrões e da empregada – ia dizer, do senhor e da escrava –, fica explícita na cena em que ela abre a lata de refrigerante, despeja em um copo e, por fim, serve-lhe até a mão. Pois é nessas “insignificâncias” que, em um primeiro momento, a cineasta consegue mostrar de maneira satisfatória a luta de classes no ambiente doméstico. A recepção calorosa da patroa ao receber o presente (de que “não gosta”, mas faz que “gosta”) de Val; a desatenção constante ao ouvir a empregada e, principalmente, a aceitação (que tem muito de patriarcal) de que Jéssica, filha de Val, permaneça alguns dias na casa para que consiga prestar vestibular. A permissão é feita porque Val, a empregada, “é praticamente da família”. A simpatia e cordialidade da patroa não diminui a luta de classes; antes, intensifica-a. Parafraseando um velho barbudo do século XIX, se a aparência e essência coincidissem, a arte (engajada) seria desnecessária.
 
“Arte engajada” com os dramas sociais do país? Bem, talvez seja exagerado caracterizar assim Que horas ela volta?. Não obstante, o filme demonstra essa meta, essa vontade, esse sentimento; apresenta-se na linhagem de “denúncia”, da tentativa de desvelar a intolerância da elite com os desvalidos. Por exemplo, quando Fabinho comenta com Val sua impressão sobre Jéssica — “estranha, porque segura demais” — há uma verdade mais profunda nessa confissão. Em seu “estado natural”, uma pessoa nordestina, sem recursos e com um nível de instrução escolar defasado, de origem social pobre, que irá prestar vestibular em uma das universidades mais concorridas e de mais prestígio do país, deveria estar, no mínimo, aflita e insegura. Mais cenas, especialmente na apresentação de Jéssica à família, coroam essa sinuosidade da aparência e essência, dos preconceitos não pronunciados aos criados, dos rituais sociais de recebimento da chegada da “estrangeira”.
 
Mas até onde vai esse empenho em desvendar o socialmente perverso de nosso patrimônio escravocrata, senhorial, arcaico, em Que horas ela volta?
 
Com a chegada de Jéssica, filha de Val (lembrando, bem de longe, a chegada do estranho na casa da família do industrial em Teorema, de Pasolini), as relações invisíveis tornam-se claras. O jogo da aparência e essência fica diluído — ambas coincidem indevidamente (ou apressadamente). Todo o protocolo social burguês de hipocrisia da classe se esvai, como um frágil papel levado por uma rajada de vento. Há uma relação de paixão por parte de Paulo, dirigida a Jéssica: “forçada”, a bem da verdade, apenas para mostrar sua carência (a decadência do “homem burguês”). Embora seja interessante apresentá-la, poderia ser trabalhada de outra maneira, nos subterrâneos das entrelinhas. O exemplo mais crível dessa mutação ocorre com Bárbara, que se transforma em uma “mulher má”, típica vilã, sem disfarces, a sobrancelha curvada, transtornada pela invasão da forasteira.
 
Francamente, em vários momentos parece o novelão tradicional e tosco da Globo, que retrata personagens com auxílio de estereótipos sociais, consagrados por meio da indústria cultural – o remédio mortal para que o público fique atento, embora passivo, aos desdobramentos do filme.
 
Porém, Quer horas ela volta incorre num problema comum do cinema brasileiro. Não é capaz de a retratar os burgueses e suas idiossincrasias senão por meio de caricaturas — na maior parte das vezes de quinta categoria. Recusa-se a examinar as relações sociais e psicológicas de forma a apontar contradições no terreno da lutas de classes, nas dimensões da cultura, da economia, do político e do simbólico. Claro que há exceções (um exemplo atual é o filme Obra, de Gregório Graziosi, que cria, por meio do profundo diálogo com a arquitetura da cidade de São Paulo, uma trama silenciosa, impactante, kafkaniana, através de seu protagonista – um arquiteto e proprietário. Este entra em profunda crise depois de descobrir uma ossada encontrada na obra que dirige e da qual é proprietário). A burguesia é sempre mais hipócrita com seus empregados do que se imagina.
 
Por falar em caricatura, vamos a Val, a personagem interpretada pela irreverente Regina Casé. Alguns críticos disseram que a larga experiência antropológica de Casé com os subalternos (principalmente no seu programa na TV aberta da Globo) forneceu subsídios fundamentais para atuar com “maestria e precisão” (alguns dizem de “cenas antológicas”) no papel de uma empregada doméstica. Que se trata de uma atriz interessante e com potencial, é inegável. No entanto, é uma atuação “demagógica” do pobre. Está entre a caricatura e o exótico. Entre o superficial e o comercial. É uma personagem “leve” demais para uma vida tão dura. Val é popular? Ou populista? De fato, a personagem é sedutora porque faz principalmente o público rir; o humor é um recurso interessante, mas apenas até certo ponto.
 
Aliás, não deixa de ser curioso, para não dizer patético, como cada gesto e pronúncia da personagem (com o sotaque “nordestino”) provoca risos estrondosos na plateia paulistana, mesmo em cenas consideradas “sérias”. Risos, em grande medida, desnecessários. É como se a Casa Grande (uma parte do público) estivesse vendo os bastidores da Senzala com suas peripécias e costumes extravagantes (e intragáveis), mas altamente risíveis. Aí, sim, estamos começando a discutir o profundo parentesco das classes possuidoras brasileiras da atualidade com o fantasma da escravidão, que se “abrem” para alterações da ordem, desde que as condições e os efeitos de tais processos estejam sob controle, como anunciava há quarenta anos o sociólogo Florestan Fernandes no seu seminal A revolução burguesa no Brasil. O atraso escravocrata de nossas elites é o alimento do Brasil moderno do século XXI.
 
Provavelmente, os mesmos que riem de maneira excessiva comovem-se ao final do filme, com uma suposta “redenção” da personagem que pede demissão para cuidar da filha e da neta (de fato, a demissão de Val permite enxergarmos o quanto a relação entre criada e patroa era esvaziada). Mas muito cuidado: quando os opressores batem palma ao final do “espetáculo” (o filme procura o espetáculo, no sentido debordiano, mas não interlocutores críticos) não é sinal de uma arte engajada, mas de uma arte inofensiva.
 
Dessa maneira, não conseguimos visualizar – e se visualizamos, é com uma neblina forte e perigosa – nem a densidade social e psicológica da empregada, nem dos patrões. Na realidade, o filme somente tem êxito por meio de alguns lampejos férteis. Não passam disso: lampejos. É possível que alguém desenvolva a seguinte questão: a exibição do filme, em tempos de crise politica indicaria que o lulismo não conseguiu extirpar a relação secular entre patrões e empregados. Pode ser uma hipótese crível apenas sob uma análise sociológica estrita do conteúdo da obra. Contudo, com a dialética da forma e conteúdo na luta de classes, Que horas ela volta aponta para uma saída pelo avesso da radicalidade que uma relação historicamente conflitiva entre opressores e oprimidos em sociedades semiperiféricas necessita.