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Clipping

09/10/2013 às 10:20

'Preocupado', mas ainda em silêncio

Escrito por: Renata Tranches
Fonte: Correio Braziliense

Primeiro-ministro canadense se diz apreensivo com denúncias sobre rastreamento ilegal contra o Brasil, mas alega não ter condições de comentar ações de segurança

O primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, procurou aplacar a indignação brasileira diante das denúncias de que o Ministério de Minas e Energia foi alvo de espionagem de uma agência canadense. O premiê rompeu o silêncio durante a cúpula Ásia-Pacífico, realizada na Indonésia, e disse que a informação o “preocupa muito”. “As autoridades canadenses estão em contato muito pró-ativo com seus homólogos. Estou, obviamente, muito preocupado com essa história e com algumas reportagens sobre ela”, afirmou, ao ser questionado por jornalistas.

As declarações foram dadas um dia depois de o Itamaraty convocar o embaixador do Canadá em Brasília, Jamal Khokhar, para prestar esclarecimentos. As denúncias vieram à tona no domingo, divulgadas pelo programa Fantástico, baseadas em documentos vazados pelo ex-colaborador da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana Edward Snowden. Segundo o jornalista americano Gleen Greenwald, que coassina a reportagem com Sônia Bridi, o ministério apareceu como um dos alvos da Agência Canadense de Segurança nas Telecomunicações (CSEC) em uma apresentação feita a analistas de inteligência de um consórcio de cinco países conhecido como Five Eyes, formado por EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Apesar de “muito preocupado”, como declarou, o premiê alegou que não estava em condições de “fazer comentários sobre as operações das agências de segurança nacional”. Limitou-se a mencionar a existência de “um comissário responsável por vigiar essas atividades e garantir que se respeitem as leis do parlamento canadense”. O premiê também não quis opinar se tais denúncias poderão afetar as relações bilaterais com o Brasil, que tem no Canadá seu maior investidor no setor mineral.

Nos últimos quatro meses, revelações semelhantes, envolvendo o serviço secreto americano, levaram a uma crise entre Brasília e Washington. A presidente Dilma Rousseff chegou a adiar a visita de Estado que faria este mês à capital americana e abordou o tema em seu discurso de abertura nas Nações Unidas, em 24 de setembro. Na segunda-feira, a presidente voltou a demonstrar indignação usando sua conta no Twitter. “A denúncia de que o Ministério de Minas e Energia foi alvo de espionagem confirma as razões econômicas e estratégicas por trás desses fatos”, afirmou Dilma, considerando que é “urgente que os EUA e seus aliados encerrem suas ações de espionagem de uma vez por todas”.

Estratégia

A postura do governo brasileiro, na avaliação do professor de relações internacionais da ESPM no Rio de Janeiro Fernando Padovani, demonstra que o país está procurando valorizar ao máximo as denúncias e suspeitas de espionagem para transformá-las em moeda de barganha em uma eventual negociação internacional. Outros países que apareceram como alvo da NSA, como o México, por exemplo, fizeram reclamação de maneira protocolar, lembrou Padovani. O Brasil, por sua vez, tenta reverter a situação — que dá margem à indignação — em uma vantagem. “Do ponto de vista estratégico, a alternativa é não deixar passar em branco. Ela (presidente) não tem nada a perder”, analisou, em entrevista ao Correio.

Snowden, que vive na Rússia depois de obter um asilo temporário, tem repassado milhares de documentos a Greenwald, que mora no Rio de Janeiro. Hoje, Greenwald e seu companheiro, o brasileiro David Miranda, devem falar à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Espionagem do Senado. Miranda foi retido por quase nove horas em um aeroporto de Londres, em 18 de agosto, sob acusação de transportar informações roubadas.

Confiança

O diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, general Keith Alexander, considerou ontem estar aberto à possibilidade de conservar os registros das ligações telefônicas em um “arquivo neutro”. A iniciativa teria o objetivo de diminuir a tensão causada pelos escândalos de espionagem envolvendo a agência. O general falou sobre o tema durante um fórum sobre cibersegurança promovido pelo site Politico. Para o militar, a medida poderia ajudar a restaurar a confiança pública no serviço secreto de inteligência, mas ele defendeu a necessidade de a NSA continuar a ter acesso aos metadados para enfrentar eventuais ameaças terroristas.