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Clipping

05/04/2007 às 08:15

Previsões do futuro do CD são as mesmas entre músicos e indústria

Escrito por: Redação
Fonte: Estado de São Paulo

Duas mentalidades diferentes dividem as decisões na combalida indústria fonográfica. Entrincheirados no que resta de mercado, os principais executivos confiam na coexistência do formato físico (os CDs e os DVDs) com o comércio on line no comércio de música. Outro grupo quer sair logo das lojas físicas.

'Não se pode esquecer que em 2006, por exemplo, 90% das receitas do mercado fonográfico mundial vieram da venda de suportes físicos', diz Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD). 'Claro que se vislumbra uma gradual redução nos níveis de venda de suporte físico contendo música, ao mesmo tempo em que o mercado digital se desenvolve e se estabelece. Mas acho que vamos ainda conviver com CDs e DVDs, e outros suportes, por um bom tempo', ele estima.

Segundo Rosa, o setor fonográfico estaria fazendo um 'esforço notável' para digitalizar e licenciar paraseus parceiros no varejo digital a maior quantidade possível de conteúdo musical.

Para Marcelo Castello Branco, novo chefão da EMI no Brasil, é impossível dar garantias expressas da permanência dos formatos físicos, CD e DVD. 'Pode ser mais ampla e durar mais do que em outras realidades', afirmou. 'É irresponsabilidade pregtar precipitadamente a exclusão do mercado físico. Vai existir muito ainda no Brasil'.

O momento de 'transição tecnológica' também traz à tona, de maneira mais urgente, as questões relativas ao direito do autor, à manutenção de acervos de tapes em gravadoras em crise. No Brasil, a Universal Music (que detém parte fundamental da obra de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa e Maria Bethânia) informou que pretende reduzir drasticamente seu catálogo. A manutenção de um acervo desse porte é muito dispendiosa para a companhia, porque exige desumidificadores e ar-condicionado em tempo integral para manter os tapes 'vivos'.

'Estamos em pleno processo de mudança de fábrica, da Microservice, que nos atendia, para a Sonopress', informou a Assessoria de Imprensa da Universal. 'Com essa mudança para a Sonopress, a Universal Music aproveitou para acomodar melhor o seu catálogo à realidade de mercado.'

Entre os artistas, no entanto, a maior busca é por uma situação de independência da tutela das gravadoras, que hoje já não garantem um bom tratamento artístico ou comercial. 'As gravadoras são intermediários e estão se debatendo para saber o que fazer. Já a internet é um intermediário que não cobra. O que está acontecendo com a indústria é lei de causa e efeito', diz o rapper carioca BNegão, que participa de ciclo de debates sobre as mudanças no comércio de música, a Red Bull Music Academy (outros debatedores são Fred Zeroquatro, do Mundo Livre S/A; Lúcio Maia, da Nação Zumbi; o produtor de eletrônica Gui Boratto; e os DJs Nuts, Primo e Camilo Rocha).

Os músicos que integram a jornada, que vai até o dia 27 deste mês, defendem sua premissa da seguinte forma: 'Desde a revolução proclamada pelo MP3 e a proliferação dos inúmeros sites e softwares que permitem o compartilhamento de informação - em áudio, texto ou vídeo -, o 'fazer música' ganhou um caráter muito maior do que apenas compor letra e melodia. Hoje emdia ser músico significa cada vez mais tomar as rédeas da própria carreira e ser independente, no estilo mais categórico da palavra.'

Para Joe Perry, guitarrista do Aerosmith, que toca em São Paulo no dia 12, as pessoas ainda compram CDs por hábito e um tipo de conveniência: as canções das bandas são ofertadas na internet, mas o consumidor procura o álbum como conceito no formato físico. Ele crê ainda numa sobrevida para o CD e o DVD, mas prevê mudanças drásticas nos próximos 'dois ou três anos'.

'As pessoas ainda comprarão caixas e edições especiais, mas o CD está em compasso de espera, esperando o fim', disse Perry ao Estado. Sua banda foi a primeira entre as grandes a buscar o comércio on line de música. Em 1994, eles dispuseram a canção Headfirst na rede. Em 1997, voltaram à carga com Falling Out.

Segundo Paulo Rosa, daABPD, o momento na indústria fonográfica é de priorizar o desenvolvimento de 'modelos de negócio viáveis para a música digital, seja pela internet ou pela telefonia móvel'.

'Outras indústrias, tais como a cinematográfica e a jornalística, estão lutando contra os mesmos problemas que nós enfrentamos. Nós, como indústria, estamos defendendo os nossos direitos de maneira contundente na luta contra a pirataria, e isto vai continuar', disse recentemente, no Rio de Janeiro,John Kennedy, da Associação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).

A busca de um mercado competitivo, para as gravadoras, pode resvalar em situações novas na emergente indústria on line. O recente acordo da EMI com a Apple, por exemplo, para disponibilizar música on line na loja iTunes sem a proteção anticópia (DRM, Digital Rights Management), foi recebido com desconfiança pelos europeus. A União Européia vê uma situação de monopólio nos acordos.

A Apple é soberana na internet com seu site iTunes, que domina 70% do comércio legal das vendas de música. A queda do dispositivo DRM atende a uma preocupação mais jurídica do que de interessedo consumidor: o sistema impedia que uma canção comprada no iTunes fosse tocada em outro aparelho que não o iPod, também fabricado por Steve Jobs.

Jobs e o executivo da EMI, Eric Nicoli, chamaram a banda The Good, the Bad and the Queen, de Damon Albarn (Blur) para fazer o anúncio com estardalhaço na Inglaterra. O anúncio pressiona as outras companhias a aderir ao sistema, o que aumentaria não só o mercado já dominado pela Apple, mas também o de música on line e de tocadores de MP3.

Na terça-feira, segundo agências internacionais, a Comissão Européia, sediada em Bruxelas (Bélgica), confirmou que abriu uma investigação antimonopólio contra o site iTunes. A comissão alega que os acordos de distribuição da Apple com as discográficas para vender músicas no iTunes em países da União Européia 'contêm restrições territoriais de venda que violam' as leis de competência da União Européia.

'Os consumidores estão, portanto, restringidos em suas opões de onde comprar música e, em conseqüência, que música têm disponível, e a que preço', disse um comunicado. O porta-voz da Apple, Steve Dowling, negou intenção de prejudicar consumidores ou ferir a lei e diz que a forma de comercialização é definida pelos editores e selos musicais, daí os diferentes preços.

Segundo define o presidente da IFPI, John Kennedy, está em emergência um 'sofisticado negócio digital'. Sofisticado e lucrativo: baixaruma música na Inglaterra, no iTunes, custa US$ 1,56; na Dinamarca US$ 1,44; e na Alemanha e na Bélgica, US$ 1,32. A receita de música on line dobrou em 2006, chegando a quase US$ 2 bilhões, e em 2010 a IFPI projeta que ao menos 25% de todas as vendas de música no mundo sejam digitais.