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Clipping

28/01/2011 às 08:55

Primeiro vírus para PC, de 1986, era mais vaidade do que esforço malicioso

Escrito por: Carolina Vicentin
Fonte: Correio Braziliense

A partir de então, porém, os programas foram sendo aperfeiçoados e tornaram-se cada vez mais malignos

Computadores ainda eram luxo para poucos quando nerds ambiciosos quiseram mostrar o tamanho de seus cérebros. Com certa dose de romantismo, um grupo de programadores criou, em 1986, o primeiro vírus para computadores pessoais — no caso, os fabricados pela IBM. É certo que esses experts não queriam fazer o mal: a intenção era somente “aparecer”. Acabaram inaugurando, porém, uma era em que linhas de código bem elaboradas são capazes de destruir uma CPU e, nos dias de hoje, parar um país. Essa história correu lado a lado com o desenvolvimento da computação.

O Brain, como foi batizado o primeiro vírus para PC, foi criado por dois irmãos que pretendiam impedir o uso não autorizado de um software de controle de batimentos cardíacos. Caso alguém tentasse utilizar o programa de forma desonesta, a “arma” da dupla avisava ao usuário que aquilo se tratava de um vírus e ainda pedia para que a pessoa entrasse em contato com os administradores. Outros programadores descobriram o Brain, implementaram modificações e os códigos se espalharam por computadores que não estavam usando o programa de batimentos cardíacos ilegalmente. Tudo isso por meio do compartilhamento de disquetes, os “portadores” da doença virtual.

“As coisas aconteciam em uma escala bem menor. Você colocava um disquete em uma máquina pública, depois levava para casa, para o trabalho, para o computador do seu colega e só aí a contaminação atingia várias unidades”, conta Mariano Sumrell, diretor de marketing da empresa de segurança digital AVG. O Brain e outros programas maliciosos que surgiram em seguida ficaram conhecidos como “vírus de boot”. Alojados nos disquetes, esses invasores atacavam o sistema operacional quando a máquina estava inicializando. “Não havia antivírus comercial naquela época. A limpeza era feita manualmente por alguém que entendesse de informática”, lembra Fábio Assolini, analista do Kaspersky Lab, grande empresa de segurança virtual.

Isso ocorria por uma característica do sistema operacional. O Windows ainda era um sonho dourado, sistemas livres só existiam em grandes servidores e o dono do pedaço era o monocromático DOS, no qual as tarefas só eram realizadas a partir de linhas de comando terminadas com “enter”. “Todos os vírus desse período eram criados para interceptar o DOS. Travavam o computador e mandavam uma mensagem de alerta. A intenção final dos invasores era fazer fama, mostrar que tinham conhecimento técnico”, esclarece Fábio Assolini.

No fim da década de 1980, os hackers descobriram outro nicho de atuação: os arquivos executáveis, programas rodados pelo sistema operacional (veja quadro). “Até então, as infecções ocorriam no setor de boot do disquete. Só mais tarde os arquivos da máquina viraram alvos. Mas tudo era ainda muito amador”, destaca Mariano Sumrell, da AVG. O negócio ganhou ares profissionais em 1988, quando surgiu o primeiro worm da história da computação. Um worm — do inglês “verme” — é como uma evolução do vírus, tão malicioso quanto, mas que não precisa de um programa hospedeiro para sobreviver.

Aparentemente, o primogênito dos “seres rastejantes virtuais” foi criado sem querer. Segundo especialistas, o responsável pela praga não tinha ideia do tamanho da criatura que acabara de desenvolver. Robert Morris, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), era estudante de ciência da computação quando o primeiro vírus se espalhava pela então embrionária internet. Na época, novembro de 1988, havia duas redes, uma vinculada ao exército norte-americano e outra, aos centros de pesquisa. Morris descobriu uma falha de segurança no sistema de envio de e-mails e contaminou 6 mil computadores em 36 horas. Pode parecer pouco, mas a façanha teve inúmeros desdobramentos. O problema se resolveu quando as máquinas foram desligadas, mas Morris criou o primeiro grande debate sobre segurança na web.

Fragilidade

A vulnerabilidade, contudo, só foi escancarada com o surgimento do Windows 95, que popularizou o uso dos computadores. “Os criadores de vírus, então, passaram a investir em programas maliciosos que atingiam a interface gráfica da máquina. Eram aqueles famosos softwares que abriam e fechavam janelas sem o comando do usuário”, lembra Fábio Assolini, do Kaspersky Lab. A maioria dos usuários tinha no computador planilhas e documentos de texto e, muitas vezes, o vírus fazia os arquivos desaparecerem ou escrevia outra coisa no lugar. Uma verdadeira aporrinhação.

Cinco anos depois de a invenção de Bill Gates começar a dominar o mundo da informática, foi a vez de a internet dar o espaço necessário às criaturas virtuais. “Começava aí a era dos grandes worms, que derrubavam milhares de máquinas ao redor do mundo em questão de horas”, aponta Fábio.

Um dos vermes mais famosos da época foi o LoveLetter, que se autoenviava para a lista de e-mails do usuário via Outlook. Cerca de 50 milhões de computadores foram infectados, mas o criador da praga, natural das Filipinas, não foi punido. Ainda não havia legislação para crimes virtuais e o LoveLetter foi o primeiro que chamou a atenção para a parte legal do problema. “Depois disso, invadir computadores deixou de ser uma coisa romântica para virar um negócio. Começaram a aparecer os primeiros trojans, que liberam para criminosos os dados sigilosos das máquinas desprotegidas”, afirma o analista do Kaspersky Lab.

Desde então, as técnicas de invasão não mudaram muito, embora haja cada vez mais plataformas. Se, no início dos anos 2000, o e-mail era o habitat dos programas maliciosos, hoje passou a ser as redes sociais. Além disso, os hackers estão investindo em criaturas menores, que “caibam” em smartphones e tablets (que têm menor poder de processamento, se comparados aos computadores tradicionais). A exceção disso tudo ficou por conta do Stuxnet, que infectou o sistema de uma usina nuclear no Irã. “Foi a primeira vez que um vírus atacou a infraestrutura de um país. Acredito que ele foi o primeiro de muitos que o seguirão”, lamenta Fábio Assolini.

Nerd Brasileiro

No fim dos anos 1980, um brasileiro se destacou entre os criadores de vírus. Com o nickname Zecna, o hacker prodígio foi o autor de um vírus para DOS conhecido como Babilônia. Quando a máquina estava infectada, aparecia a seguinte mensagem: “Pega fogo, Babilônia!”.

Perigo crescente

Conheça a linha do tempo da evolução dos vírus:

» 1982 — reconhecido o primeiro vírus disseminado, o Elk Cloner, que infectava disquetes do Apple II. A cada 50 boots, ele apresentava um “poema” ao usuário. Ainda era, porém, algo praticamente inexpressivo

» 1983 — documentado o primeiro vírus de laboratório e cunhado o termo “vírus de computador”

» 1986 — surgem os primeiros vírus de PC: Brain e ping-pong. Eram vírus de inicialização

» 1987 — chegam os primeiros vírus de arquivos

» 1988 — Robert Morris lança o primeiro worm da internet, derrubando 6 mil máquinas em 36 horas

» 1995 — reconhecido o primeiro vírus de macro, que atingia a interface gráfica do Windows

» 1999 — surgem os worms de massa (Melissa, I Love You, MyDoom)

» 2001 — mais worms (Code Red, Nimda). O Code Red contaminou 350 mil servidores em 12 horas

» 2004 — grandes ataques via web, principalmente pelo Windows XP SP2

» 2006 — o vírus Virut é disseminado via programas de download, como eMule e Limewire

» 2008 — Conficker, conhecido como Downup, Downadup e Kido, é o primeiro vírus de computador que tem a capacidade de se atualizar

» 2009 — o vírus Downadup infecta mais de 3,5 milhões de PCs

» 2010 — começam os ataques via redes sociais.

Fonte: AVG