Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

10/01/2006 às 08:32

Rock que vai além das boas intenções

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo

Além das boas intenções, esses concertos beneficentes, separados por 34 anos e que no fim de 2005 chegaram ao mercado em DVD, trazem ótima música e oferecem painéis do rock de suas épocas.

“The Concert for Bangladesh” (Warner), organizado por George Harrison atendendo a um apelode um amigo, o citarista indiano Ravi Shankar, reuniu um elenco estelar: ao lado dos dois, entre os artistas que subiram ao palco do Madison Square Garden, em Nova York, em 1 de agosto de 1971, estavam Bob Dylan, Eric Clapton, Ringo Starr, Billy Preston, Leon Russell. Esse concerto (na verdade foramdois, à tarde e à noite) rendeu no ano seguinte um filme (dirigido por Saul Swimmer, produzido por Harrison e Allen Klein) e um álbum. O DVD, duplo, traz no primeiro disco o filme original e, no segundo, um festival de extras, incluindo um documentário sobre o lendário concerto, números musicais que tinham ficado de fora da edição final e os making of do álbum e do filme.

George Harrison vivia o auge de sua carreira solo

Em 1971, George Harrison vivia o auge de sua recém-iniciada carreira solo. Naquele ano, lançara o álbum triplo “All things must pass”,no qual pudera desovar composições acumuladas durante os anos Beatles, quando o repertório do grupo era quase que totalmente monopolizado por Lennon e McCartney. Em sua participação no concerto, Harrison mostrou algumas das canções de “All things...” (“Wah-wah”, “My sweet Lord”, “Beware of darkness”), temas que lançara com os Beatles (“While my guitar gentle weeps”, “Something”, “Here comes the sun”) e a então inédita “Bangla Desh”. A apresentação de Bob Dylan, que não fazia shows desde seu acidente de moto cinco anos antes, é outro destaque, em quatro cançõesno disco 1. E como ficamos sabendo no documentário do disco 2 — que inclui entrevistas recentes com Clapton, Ringo, Preston e Russell, e a voz de Harrison em off , provavelmente pelo fato de que na época em que essa edição em DVD começou a ser produzida ele já estava devastado pelo câncer que o matou em 2001 — a presença de Dylan era incerta, até momentos antes de se juntar a Harrison no palco.

Mais de três décadas depois, “The Concert for Bangladesh” ainda merece ser visto e ouvido, mas sua influência foi além da música. Bob Geldof, o idealizador do Live Aid, em1985, e que repetiu a dose, 20 anos depois, no Live 8, que o diga. O DVD quádruplo “Live 8 / July 2nd 2005” (EMI) — com parte de sua renda destinada a projetos assistenciais na África — traz os melhores momentos do megaevento, através de nove palcos espalhados em diferentes cidades do mundo,incluindo Londres, Filadélfia, Berlim e Tóquio.

Reunião do Pink Floyd foi o maior trunfo

Boas causas à parte, Live 8 é um quem-é-quem do rock contemporâneo, num elenco que incluiu de veteranos dos anos 60 e 70 à novíssima geração. Para abrir o primeiro DVD, umasimbólica “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, nas mãos de um de seus autores, Paul McCartney, ao lado do U2 de Bono Vox. Ainda nesse disco, bandas recentes (e medianas musicalmente) como Coldplay, Travis, Kaiser Chiefs e Keane, artistas dos anos 80 como Annie Lennox, UB40 e Bob Geldof — este, com seu único sucesso, “I don’t like Mondays”, é melhor idealizador de concertos beneficentes que cantor e compositor.

O disco dois é mais irregular, misturando Madonna, Scissor Sisters, Sting, Brian Wilson, Joss Stone, Dave Mathews Band, Linkin Park e Alicia Keys. O melhor da festa está no terceiro disco, graças a dinossauros como The Who, Pink Floyd (com Roger Waters novamente ao lado de Dave Gilmour, Nick Mason e Rick Wright, 22 anos depois da litigiosa separação), Stevie Wonder e Paul McCartney (este, numa das suas músicas, “Drive my car”, num ótimo dueto com George Michael). O disco quatro, o mais fraco do lote, tem como destaque James Brown e, nos extras, trechos do ensaio do Pink Floyd. (Antônio Carlos Miguel)