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Clipping

19/01/2014 às 20:31

Rolezinho no Mundo Grampeado - Uma crítica teatral engajada

Escrito por: Redação
Fonte: Correio do Brasil

No verão do rolezinho, o espetáculo Mundo Grampeado - Uma Ópera Tecno-Tosca, texto e direção do artivista e multimidiático Marcus Galiña, com atuação da Cia Monte de Gente, é a novidade mais interessante da temporada teatral carioca neste início de 2000 e catarse. A peça faz parte da ocupação artística "Desmonte Marginal" no Espaço Cultural Sérgio Porto, e fica em cartaz até o dia 26/01, de sexta à domingo, sempre às 20h.

O panorama teatral da cidade do Rio de Janeiro, para sermos elegantes, é hoje bastante tímido e recatado. E, para sermos francos, despolitizado. As experiências de pesquisa de linguagem são na maioria dos casos frutos de inquietações pessoais que trafegam entre os dilemas da existência (individual), investigações metalinguísticas sobre o sentido de ser (ou não ser?) artista, ou alguma concessão ao "popular", como algo típico, pitoresco ou folclórico. Tudo blasé, discreto, econômico, low profile. E é neste ponto que Mundo Grampeado inverte o jogo, apostando alto na abundância, irreverência, grandiloquência e visão de coletivo. A começar pela presença de cerca de 20 artistas em cena, entre atores e músicos, em um trabalho solidamente ancorado na experiência que a Cia. Monte de Gente (o nome é autoexplicativo) vêm desenvolvendo deste 2007.

A profusão de gêneros e estilos teatrais é uma marca do espetáculo. O que parece no início uma comédia de costumes do precariado (sub)urbano, ganha peso e densidade épica ao som da banda, convertendo-se em ópera-rock pós-brechtiana. O tom épico e narrativo se afirma também pela contemporaneidade dos temas e pela politização irônica e ácida que permeia o espetáculo. A dramaturgia parece ir se construindo diante do espectador, e é atualizada a cada apresentação, revisitando os principais acontecimentos da cidade, do Brasil e do mundo, bem ao estilo do teatro de revista, gênero teatral carioca por excelência e que há muitos anos foi relegado como menor pelo "moderno" teatro brasileiro. Pois Mundo Grampeado parece apontar para uma versão contemporânea das revistas de ano, revisitando de maneira peculiar o gênero , sem qualquer apelo nostálgico ou folclorista. Ao contrário, apresenta uma versão digital e "tecno-tosca" da revista, para pós-moderno nenhum botar defeio.

A trama básica da peça é sustentada pelo personagem Doidjo e seu amigo Dinho, representados por Vicente Coelho e Daniel Uryon - dois jovens atores brilhantes, cuja cumplicidade cênica remete às grandes duplas da comédia brasileira de todos os tempos, como Oscarito e Grande Otelo, Didi Mocó e Dedé Santana, Chicó e João Grilo. Doidjo tem uma rádio pirata. Dinho vêm de andanças pelo mundo onde desenvolve um software (livre?), o Habacuc, capaz de interceptar e grampear ligações de telefones celulares. Juntos, eles passam a transmitir ao vivo pela rádio "Mundo Grampeado" as ligações telefônicas interceptadas pelo Habacuc. As histórias grampeadas vão desde infidelidades conjugais até a descoberta de um enredo político-afetivo nos bastidores do poder, que envolve políticos, empresários, artistas famosos. E neste contexto, surge a figura arquetípica do político picareta, o Senador Eutorico de Alheios, magistralmente interpretado por Veríssimo Junior. Os demais artistas do elenco sustentam com muita qualidade os diversos personagens e situações que vão surgindo ao longo da ação.

Em um momento em que o teatro brasileiro precisa retomar o seu lugar como arena e tribuna dos grandes temas e das grandes narrativas do país, o espetáculo em cartaz no Sérgio Porto aponta para a possibilidade de pensarmos um teatro político, épico, divertido e inteligente, absolutamente necessário para os dias de hoje. Um teatro com opinião diante dos fenômenos sociais. Não há muitas ofertas deste tipo em nossa cena teatral. Por isso, dê o seu rolezinho no teatro, e deixe a sua narrativa ser interceptada pelo Mundo Grampeado.

Um programa imperdível de verão!

Alexandre Santini é ator, dramaturgo, diretor de Teatro, produtor e gestor cultural.