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Clipping

14/10/2015 às 15:54

'Sou contra uma rede social ter esse poder em relação ao jornalismo', diz Franklin Foer

Escrito por: Matheus Narcizo*
Fonte: Portal Imprensa

Jornalista deixou revista após foco mudar para o digital

Alguns dizem que o jornalismo está morto. Outros dizem que o jornalismo de verdade, que preza pela qualidade, ainda respira. Fato é que, vivo ou morto, tem sido cada vez mais difícil estabelecer um nível parelho entre o qualitativo e o quantitativo dentro das redações do mundo todo. 
 
Um dos convidados do 2° Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, o repórter norte-americano Franklin Foer, ex-editor-chefe da revista The New Republic, usou sua própria experiência no veículo para exemplificar o desafio de fazer trabalhos jornalísticos de qualidade em tempos onde o número de cliques na web tem ditado as regras do jogo. 
 
No final de 2014, ele renunciou ao cargo dentro da revista após entrar em discordância com o atual presidente da TNR, Chris Hughes, e o CEO da empresa, Guy Vidra, a respeito da renovação do modelo editorial do veículo. A notícia de que o novo modelo de negócio de uma das mais tradicionais e históricas revistas dos Estados Unidos seria voltado à internet foi um choque para Foer. 
 
"Fiquei triste porque descobri que ele [Hughes] era diferente do que esperávamos. Colocar os dados e a métrica do Facebook à frente dos valores e do tradicionalismo é como deixar o jornalismo desprotegido. Aumentar o tráfego na web é bom, mas da forma como tem sido feita acaba deixando a TNR longe de seu legado narrativo e crítico", disse.
 
Choque e demissões
 
Recontratado em 2012 – ele já havia passado pela revista entre 2006 e 2010 – após a aquisição da TNR pelo empresário e um dos fundadores do Facebook, Chris Hughes, Foer teria a missão de recolocar uma das revistas mais tradicionais dos Estados Unidos de volta ao mercado. 
 
A conta era simples: ele cuidaria da parte editorial e Hughes financiaria o trabalho feito pela revista. Um casamento perfeito que ganhou ainda mais confiança após o empresário declarar que seu interesse na aquisição do veículo seria "única e exclusivamente em reestabelecer o jornalismo de alta qualidade produzido pelo TNR". 
 
De modo geral, segundo Foer, a redação do veículo via a compra como um "bote salva-vidas contra o declínio do periódico", que em 2010 havia demitido grande parte de sua equipe como estratégia de corte de gastos. Entre 2010 e 2012, as vendas da The New Republic haviam caído quase 40%. Uma medida emergencial que inicialmente dava mostras de que daria certo. 
 
Apesar do início esperançoso, Foer conta que a situação entre ele e Hughes começou a ganhar tons divergentes após a contratação de Guy Vidra, ex-gerente geral do Yahoo, para o cargo de CEO, em outubro de 2014. Após o recrutamento, veio o anúncio de que a TNR seria "reinventada como uma empresa verticalmente integrada à mídia digital". Além disso, a revista teria sua publicação reduzida de vinte para dez edições anuais. 
 
O novo posicionamento significou para o jornalista um possível abandono ao jornalismo tradicional que consolidou o The New Republic como um dos gigantes mundiais no século XX. A tristeza de Foer ficou marcada pela forma como deixou a revista. Evitando dizer que foi "demitido", ele prefere apontar algo como "ter sido colocado para fora" do lugar onde aprendeu a compreender e fazer jornalismo. 
 
"Eu entrei na The New Republic muito cedo. Trabalhei ao lado do meu pai, que também escreveu para a revista. Ali havia jornalistas muito inteligentes, muitas vezes os melhores especialistas do país sobre determinados assuntos. Editorialmente era um dos únicos que tentava ir sempre mais a fundo. Foi isso o que me deixou mais chateado", comentou. 
 
Foer também indicou para as outras renúncias dentro da revista como uma forma de justificar certa insatisfação geral contra as novas tendências do jornalismo. Além dele, outros sessenta profissionais – entre editores, críticos e colaboradores – abandonaram seus cargos. 
 
"Acho que o pessoal sentiu que o novo direcionamento não faria a The New Republic prosseguir com sua história dentro do jornalismo. Elas entenderam que seria uma afronta contra o jornalismo e seus valores". 
 
Livro e o futuro do jornalismo
 
Em sua carta de despedida da TNR, Foer ressaltou ter escolhido o momento certo para deixar a redação. O motivo? A chance de dar continuidade à elaboração de um projeto que tem sido adiado por alguns anos: a produção de um livro. 
 
Com lançamento previsto para 2017, o livro fala sobre empresas como a Amazon, o Google e o Facebook ditarem hábitos e gostos através de seus algoritmos e filtros de notícias. Isso tudo, segundo ele, através de uma vista grossa por parte do próprio jornalismo. "Eles já estão se tornando excessivamente mais atraentes do que a televisão", disse. 
 
Através do livro, ele também tenta estabelecer uma crítica acerca dos novos padrões jornalísticos dentro dos meios digitais. A dependência dos filtros estabelecidos por sites como Google e Facebook é algo que desperta total desconfiança de Foer. "Não gosto da ideia dessas duas empresas controlarem parte do trafego da web nos EUA. Isso não é saudável para a população e muito menos para o jornalismo". 
 
O jornalista ainda direcionou críticas ao Instant Article, recente método proposto pelo Facebook na publicação de notícias dos principais veículos de comunicação do mundo diretamente na rede social. "Eu não gosto, acho que o Facebook acaba tendo em mãos o poder de decidir quem ganha e quem perde. Além disso, não acho que ele seja o filtro mais confiável a quem quer procurar por publicações. Sou contra uma rede social ter esse poder em relação ao jornalismo", concluiu.
 
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves