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Clipping

15/01/2016 às 17:20

"Soube de um plano para me assassinar", diz jornalista que cobre cartel de El Chapo

Escrito por: Redação
Fonte: Portal Imprensa

Nesta semana, uma entrevista feita pelo ator Sean Penn com Joaquín “El Chapo” Guzmán, o traficante mais procurado do mundo, enquanto ele ainda fugia das autoridades, gerou polêmica e debate sobre a ética jornalística.
 
A história de El Chapo é bastante familiar para a jornalista mexicana Anabel Hernández, 44, que acompanha há 15 anos o Cartel de Sinaloa, liderado por ele. Após obter acesso a documentos confidenciais e informantes, ela conheceu detalhes do narcotráfico e relatou no livro "Los Señores del Narco".
 
Em entrevista à Marie Claire, a jornalista falou sobre o seu trabalho e os cuidados que teve de tomar para escapar das ameaças de morte. Em 2014, decidiu exilar-se na Califórnia com os dois filhos. Ela retorna todos os meses ao México para fazer entrevistas e visitar a família. 
 
A jornalista destacou que falar de políticos no México é mais perigoso do que de traficantes. "O Chapo e seus rivais já são os bandidos da história, tanto faz se você fala mal deles. Ele violou mulheres e entregou Zulema, uma de suas amantes, aos comparsas, para que fizessem o que quisessem com ela. Com os políticos, é diferente. A sociedade votou neles, supostamente são honestos", explicou.
 
Segundo ela, muitas das vítimas do Cartel são encontradas decapitadas ou com os corpos decompostos em barris de ácido. Para ela, suas investigações sobre o grupo a tornaram alvo claro de Genaro García Luna, o secretário de Segurança Pública.
 
Dias depois da publicação de seu livro, Anabel soube, por meio de um informante, de um plano para assassiná-la. "A ordem havia partido de García Luna. Era loucura. Como iria me defender de alguém com 50 mil homens sob seu comando? Na época, meu filho tinha apenas 5 meses e ficava na creche enquanto eu trabalhava. No dia seguinte, quando fui buscá-lo, vi o carro de um dos seguranças de Luna em frente ao local. Reconheci o veículo porque havia anos acompanhava sua rotina. Tive muito medo, gelei", relatou.
 
Anabel denunciou o caso à Comissão Nacional de Direitos Humanos. Depois disso, ela e sua família receberam intimidações com metralhadoras. A última foi em novembro do ano passado, quando invadiram sua casa na Cidade do México quando ela não estava.
 
A repórter conta que fez sua reportagem "mais dramática" em 2002, antes de mergulhar no mundo do narcotráfico. Em uma passagem por Puerto Vallarta, na costa do Pacífico, soube de uma rede de tráfico humano para San Diego (EUA). Ela viajou para a Califórnia e apurou que, de fato, havia meninas de 9 a 14 anos sendo usadas como escravas sexuais em uma área rural. "Elas ficavam em cabanas enquanto uma fila de lavradores esperava sua vez", relatou.
 
Anabel ganhou um prêmio do Unicef pela investigação. Após a matéria, dois dos três irmãos que lideravam a quadrilha foram detidos e o jornal The New York Times repercutiu o caso. "Quando publiquei a história no jornal El Universal, não dormi por quatro meses", afirmou.
 
Os familiares insistem para que Anabel largue a profissão. Apesar do grande temor, ela se recusa. "Sempre acreditei que o jornalismo investigativo mudou o rumo das coisas em diferentes momentos da história. Levo isso a sério. Não tenho direito de deixar pela metade", completou.