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Clipping

25/03/2013 às 08:51

Templo das letras

Escrito por: Antonio Gonçalves Filho
Fonte: O Estado de S. Paulo

A Brasiliana de Mindlin, mais do que biblioteca de raros, é a igreja dos intelectuais  

A abertura dabiblioteca Brasilia­na de Guita e José Mindlin, sába­do à tarde, na USP, reuniu repre­sentantes da intelligentsia de São Paulo, do professor emérito da USP Antonio Candido ao se­cretário da Cultura do Estado, Marcelo Araújo, passando pela ministra da Cultura Marta Suplicy e diretores da principais editoras paulistas. Mais de 500 pessoas lotaram o auditório da biblioteca e outro tanto acompa­nhou os discursos do lado de fo- ra, ansiosos pela abertura da Bra­siliana. Justificável. Há mais de 30 anos, o empresário José Min­dlin e sua mulher Guita tiveram a ideia de tornar público seu acer­vo. Finalmente, com a doação da biblioteca do casal a USP, em 2006, o prédio que foi desenha­do e redesenhado pela dupla de arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb abriu suas portas para o público com duas grandes exposições - uma permanente, sobre a vida do ca­sal Mindlin e sua luta para cons­truir e preservar a biblioteca, e outra que reúne os 100 títulos mais importantes dentro de ca­da segmento da Brasiliana.

O imponente prédio, de linhas simples, bauhausianas, ocupa 21 mil metros quadrados na Cidade Universitária. Além de funcio­nal, tem o mérito de evocar afigu­ra discreta do bibliófilo em to­dos os detalhes. Nenhum exces­so, mobiliário elegante de Sérgio Rodrigues, Zalsupin, Carlos Mot-a e Claudia Moreira Salles. Aces­sibilidade arquitetônica é outro aspecto conjugado com a deter­minação do diretor Pedro Punto­ni de tornar a Brasiliana um espa­ço aberto para circulação de estu­dantes e o público em geral, que em breve vai encontrar junto à biblioteca o valioso acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) - entre 450 mil documentos, 180 mil livros e 8 mil objetos, a instituição guarda ainda a cole­ção Mário de Andrade, também representado com originais na Brasiliana de Mindlin.

Com 32 mil títulos correspon­dentes a 60 mil volumes, a Brasi­liana foi disputada por universi­dades estrangeiras e as razões são muitas, especialmente o va­lor histórico dos documentos co­lecionados por Mindlin pormais de 80 anos. Puntoni cita, ao aca­so, a primeira edição de Os Lusíadas, a revisão de Grande Sertão: Veredas pelo punho de Guima­rães Rosa e o manuscritos origi­nais corrigidos de Vidas Secas (cujo título original, riscado por Graciliano Ramos, era O Mundo Coberto de Pennas). A digitaliza­ção desse acervo caminha a pas­sos largos: já são 3.600 títulos dis­poníveis online e mais estão a ca­minho com a parceria de institui­ções como a Biblioteca Nacio­nal. Galeno Amorim, presidente da fundação que cuida da insti­tuição, garantiu ao Estado que a parceria com a USP vai conti­nuar e, a exemplo da Brasiliana, espera ver a nova sede de sua bi­blioteca em pé. A construção do novo prédio começa em agosto, no cais do Rio. "Nós também te­mos nossas raridades, que vão da carta da abertura dos portos no Brasil aos mapas originais das ilhas Malvinas, que os argenti­nos adorariam ter em mãos."

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, disse ao Estado que o processo de digitalização, apoia­do pelo Minc, é moroso por esbarrar na questão dos direitos au­torais. Burocracia no Brasil ain­da é um problema. Ela reconhe­ce que ainda temos uma legisla­ção obsoleta que dificulta até doações - o casal Mindlin enfren­tou a Receita Federal, que queria cobrar uma fortuna de impostos para a doação da Brasiliana.

Mas, como o lema de José Mindlin era "não faço nada sem ale­gria" (seu ex libris inspirado em Montaigne), o bibliófilo, morto em 2010, aos 95 anos, ficaria cer­tamente alegre com o resultado de sua luta para instalar sua Bra- silianan a USP. Lá estão obras originais dos viajantes estrangeiros (Hans Staden, Debret), que po­dem ser vistas numa exposição temporária. Na permanente, a voz do próprio Mindlin é ouvida lendo trechos do Grande Sertão: Veredas. Quem não esteve pre­sente à inauguração, pode,a par­tir de hoje,visitar a Brasiliana, de segunda a sexta, das 13 às 17 ho­ras. Mais de 30 funcionários esta­rão trabalhando nessa que é, des­de já, a biblioteca de referência de nossa história.