Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

18/05/2015 às 13:50

TV Digital dos mais pobres não terá acesso à Internet

Escrito por: Luís Osvaldo Grossmann
Fonte: Convergência Digital

A Anatel promete que, se sobrar dinheiro, no futuro poderá ser reavaliado um conversor com Bluetooth e canal de retorno embutido

Durou pouco a promessa do governo de que a TV Digital dos mais pobres teria ‘interatividade plena’. Em prol de um suposto consenso entre operadoras móveis, televisões comerciais e públicas prevaleceu a escolha de um conversor que, apesar do Ginga, não terá conexão à Internet. Ou melhor, terá, desde que brasileiros que precisam do Bolsa Família garantam em suas casas modems 3G ou banda larga fixa.
 
“A Anatel apresentou uma proposta de consenso. Retiramos algumas coisas de impacto financeiro muito forte, mas preservamos o que a gente considerava essencial, que é o suporte à interatividade plena e ao Ginga C. Isso foi alcançado”, festejou o coordenador do grupo de implementação da digitalização, Gired, o conselheiro da agência, Rodrigo Zerbone.
 
A especificação a ser encaminhada à EAD – a empresa criada pelas teles para operacionalizar a distribuição de conversores, antenas e filtros aos mais pobres – prevê uma caixinha com 512 MB de memória RAM e 2 GB de memória flash. Haverá entrada USB para um eventual modem e porta Ethernet, para uma eventual banda larga fixa – nenhuma delas incluída.
 
Além disso, haverá dois fluxos distintos de vídeo, um com Mpeg 4, outro com Mpeg 1 – na prática, significa dizer que a janela de Libras poderá vir separada da imagem principal, uma vantagem, mas com qualidade inferior. Também haverá saída HDMI (mas não o cabo). E, como mencionado, a opção pelo chamado Ginga C.
 
Ainda que tratado assim, o Ginga na verdade é o mesmo – as alternativas de implementação tem custo próximo a zero no software. O que faz diferença na qualidade da interatividade são os componentes do conversor. E é aí que se farão notáveis a ausência de conectividade embutida ou pelo menos de um sistema Bluetooth.
 
Segundo Zerbone, tais componentes “teriam impacto financeiro forte”, embora não revele o preço da configuração escolhida. Ela ficará, porém, próxima de US$ 30, segundo apontam as estimativas feitas pela EAD. Em si, o valor é bem mais próximo do modelo mais simples como desejado pelas teles do que do conversor mais robusto defendido pelas TVs públicas.
 
“Em comparação com outras, é bem mais barata que a versão mais cara, mas mais cara que a versão mais barata. O preço será visto pela EAD”, diz Zerbone. A estratégia de aquisição ainda não é conhecida. Os primeiros 6,8 mil conversores são necessários para a distribuição até novembro na goiana Rio Verde, primeira cidade a ter os sinais analógicos desligados. No total, porém, há 14 milhões de beneficiários do Bolsa Família, público que vai receber o conversor.
 
Na escolha da configuração, houve espaço para uma espécie de manifesto das operadoras móveis. “As empresas de telecom fizeram uma declaração de voto considerando a importância do consenso, mas colocando a necessidade de o Gired avaliar constantemente a questão orçamentária, para evitar extrapolar o valor a ser alocado”, explicou o conselheiro.
 
Explica-se: as teles apresentaram um voto em que defenderam que o conversor que propuseram originalmente – que não tinha sequer botão de liga/desliga ou pilhas no controle remoto – atendia a configuração desejada. Também se queixaram do ‘Ginga C’ e frisaram a necessidade de que os aportes não ultrapassem o que está previsto no edital dos 700 MHz, os R$ 3,6 bilhões. Detalhe: o edital já previa a possibilidade de aportes adicionais.
 
A Anatel promete que, se sobrar dinheiro, no futuro poderá ser reavaliado um conversor com Bluetooth e canal de retorno embutido. Longe de ser um preciosismo, o Bluetooth poderia ser usado como conexão (mesmo via aparelhos com planos de dados pré-pagos) e, especialmente, como substituto ao teclado do controle remoto da TV.
 
A alegação, como mencionado, é de que a conectividade embutida e o Bluetooth seriam muito caros. De fato, incluir um modem 3G poderia elevar o custo do conversor em cerca de 50% - mas é questionável o grau de interatividade sem ele. Já o Bluetooth teria custo bem mais modesto – entre US$ 1 e US$ 4 a depender da cotação.
 
“Se tiver recursos sobrando, vamos avaliar quando tiver mais visibilidades dos gastos com propaganda, mitigação de interferência”, afirmou Rodrigo Zerbone. Quem sabe aí possa ser cumprida a promessa que o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, fez na Câmara dos Deputados: “Defendemos que seja o ‘Ginga C’ para ter maior capacidade de interação, e que tenha um modem que possa fazer o canal de retorno, que possa não apenas transmitir o sinal para a casa do usuário mas que também faça o retorno das comunicações do usuário”.